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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Xenotransplante avança no Brasil com clonagem inédita de porco

Pesquisa da USP busca desenvolver órgãos de suínos geneticamente modificados para reduzir filas de transplantes e ampliar tratamentos no Brasil

Por Luana da Fonte e Sofia Pisteker

A primeira clonagem de um porco no Brasil trouxe à tona as discussões sobre o xenotransplante, técnica que utiliza células, tecidos ou órgãos de animais para transplantes em humanos. O animal nasceu saudável em um laboratório do Instituto de Zootecnia, da Escola Superior Luiz de Queiroz (USP), em Piracicaba, interior de São Paulo, e faz parte de um projeto do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante da Universidade de São Paulo (USP). A  iniciativa pretende, no futuro, ampliar a oferta de órgãos para pacientes que aguardam transplantes no país.

O caso do porco clonado ganhou destaque porque dominar a técnica de clonagem é considerado um passo essencial para a produção de animais geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos compatíveis com humanos. Segundo o professor Ernesto Goulart, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP, o xenotransplante surgiu como uma alternativa para enfrentar a escassez global de órgãos disponíveis. 

Ele explica que a demanda cresce em ritmo muito maior do que a quantidade de doadores, o que aumenta as filas de espera e reduz as chances de sobrevivência de muitos pacientes. “Xenotransplante é o transplante de órgãos entre espécies diferentes. Esta técnica visa aumentar a disponibilidade de órgãos, em especial para os pacientes que têm menor chance de receber um órgão humano”, afirma. 

“A cada 6 h um brasileiro morre na lista de espera para transplante renal”, afirma Goulart. Diante desse cenário, os pesquisadores concentraram os estudos iniciais em rim, córnea, coração e pele, órgãos e tecidos que, juntos, atendem cerca de 94% da demanda de transplantes do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, ele acrescenta que, embora esses sejam os principais focos neste momento, teoricamente todos os órgãos e tecidos dos animais poderão ser aproveitados no futuro.

De acordo com Goulart, além de disponibilizar mais órgãos para os transplantes, o projeto desenvolvido pela USP busca garantir independência tecnológica ao Brasil nesta área, evitando a necessidade de importar órgãos produzidos em outros países a custos elevados. “Nosso grupo foi o primeiro capaz de produzir um suíno clone na América Latina, o que por si só já é um grande feito”, destaca o pesquisador. 

Embora diferentes espécies já tenham sido estudadas ao longo da história, os porcos se tornaram a principal aposta da ciência para esse tipo de transplante. Segundo Goulart, isso acontece porque os órgãos dos suínos apresentam tamanho e funcionamento semelhantes aos humanos, além de os animais terem reprodução rápida e serem mais facilmente modificados geneticamente. 

Entretanto, Goulart explica que, atualmente, um órgão retirado de um porco comum não pode ser transplantado diretamente em humanos porque provocaria uma rejeição intensa do organismo. Por isso, os pesquisadores realizam alterações genéticas nos animais para aumentar a compatibilidade imunológica e diminuir as chances de rejeição. “Hoje sabemos como realizar as modificações genéticas necessárias para aumentar a compatibilidade imunológica, o que pode viabilizar o xenotransplante como uma alternativa eficaz e segura para estes pacientes”, diz.

A bióloga Karla Priscila Vieira Ferro, do Hemocentro da Unicamp, explica que o processo envolve uma série de etapas complexas, como a seleção rigorosa dos animais doadores, modificações genéticas para diminuir incompatibilidades biológicas e um controle sanitário extremamente rígido. Além disso, os pacientes precisam utilizar medicamentos imunossupressores para reduzir o risco de rejeição do órgão transplantado.

Apesar de parecer algo distante, o xenotransplante já começou a ser testado em humanos nos últimos anos. De acordo com Goulart, os primeiros experimentos envolveram pacientes em morte encefálica e, posteriormente, pessoas em modelo de uso compassivo. “Estamos aprendendo muito, certamente há inúmeros desafios ainda, mas os resultados já nos indicam que há uma aplicação real muito próxima desta abordagem”, afirma. 

Karla ressalta que alguns transplantes experimentais de coração e rim apresentaram funcionamento temporário dos órgãos, o que foi considerado um avanço importante para a medicina. “Alguns casos demonstraram funcionamento temporário dos órgãos transplantados, o que foi considerado um marco científico importante. Apesar de os desafios ainda serem grandes, os resultados mostraram que o xenotransplante deixou de ser apenas uma hipótese teórica e passou a ter viabilidade clínica experimental”, explica.

Para a bióloga, a tendência é que o xenotransplante seja utilizado inicialmente em situações específicas e controladas, enquanto a tecnologia continua sendo aperfeiçoada. Mas, “com o avanço contínuo da engenharia genética, imunologia e medicina regenerativa, existe possibilidade real de expansão clínica nas próximas décadas”, afirma Karla. E Goulart acredita que os próximos anos serão decisivos para confirmar a eficácia da técnica em estudos clínicos mais amplos. “Não tenho dúvida de que sim e acredito que teremos nos próximos anos a resposta definitiva através dos estudos em andamento”, conclui.

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Murilo Sacardi