Com jogos quinzenais e ações pedagógicas, entidade busca equilibrar a formação de atletas dentro e fora das quatro linhas
Por Carla Assunção e Marcelo Chiconato
O futebol brasileiro vive um momento de reflexão acerca da formação de atletas. Mesmo em época de Copa do Mundo, boa parte da atenção dos dirigentes está voltada para os processos nas categorias de base. Em fevereiro, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) criou o Grupo de Trabalho da Base Brasileira, com o objetivo de elaborar propostas para o aprimoramento do modelo de formação de jogadores em todas as regiões do país.
É neste contexto que a FPF (Federação Paulista de Futebol) anunciou mudanças no formato de disputa do Campeonato Paulista nas categorias sub-11, 12, 13 e 14. Agora, as partidas dos jovens atletas são divididas em três tempos, com a ampliação do calendário para acomodar os jogos quinzenais, e a obrigatoriedade da realização de ações pedagógicas para os clubes. De acordo com a FPF em suas redes sociais, o intuito das alterações é melhorar a experiência dos atletas.
Adequação do calendário
Um dos tópicos abordados pelo grupo de trabalho da CBF é a integração do desenvolvimento esportivo com a formação educacional. No modelo aplicado pela Federação Paulista, a extensão do calendário visa proporcionar um maior convívio familiar para os atletas, com recessos previstos para as férias escolares e datas festivas familiares, como Dia das Mães e Dia dos Pais.
O psicólogo esportivo Rubens Oliveira, com atuação voltada para a formação de atletas, destaca a alteração no ritmo do campeonato, com rodadas quinzenais, para as crianças. “A grande vantagem é dar um respiro para as crianças. Ter esse tempo livre no final de semana permite que a criança mude o foco, saia um pouco daquela rotina de cobrança e seja apenas uma criança com a família. É uma forma de recarregar as energias e lembrar que a vida não acontece só dentro das quatro linhas”, explica.
Rúbens também ressalta a importância do equilíbrio na rotina dos atletas. Para o psicólogo, uma rotina pesada e sem momentos de lazer pode fazer com que a criança fique cansada e estressada antes da hora. O treinador Celso Valle, que comanda a categoria sub-11 do Primavera, de Indaiatuba, explica que a redução do desgaste emocional é essencial nos treinamentos.
“Com jogos todo fim de semana, o planejamento fica muito refém da recuperação e da preparação tática específica para o próximo adversário. Quinzenal a gente tem tempo para trabalhar, pode dar volume aquele comportamento quanto a uma a transição, balanço defensivo ou organização ofensiva. O período favorece também para que os atletas respirem e voltem a focar no processo de aprendizagem, não apenas no resultado do próximo sábado”, comenta Celso.
O treinador recomenda a utilização do espaçamento entre os jogos para a realização de outras dinâmicas de treinamento. “No Sub-11, o lúdico deve ser visto como uma ferramenta central de aprendizagem. Você pode utilizar atividades e brincadeiras que estimulam a tomada de decisão, a percepção de espaço e a cognição, dinâmicas que fortalecem o vínculo do grupo. Meninos que se divertem juntos, jogam melhor juntos”.
O coordenador das categorias de base do Primavera, Sandro Rodrigues, elogiou a alteração do calendário por parte da Federação. “O clube recebeu as mudanças de forma positiva, por entendermos que a Federação Paulista de Futebol busca alinhar o calendário e as regras às reais necessidades de desenvolvimento biológico e cognitivo das crianças. O futebol de base vinha ‘adultizando’ crianças muito cedo. Exigia-se tática complexa, força física e cobrança por resultados de atletas de 11 ou 12 anos que ainda precisavam focar no lúdico, na criatividade e no desenvolvimento motor básico”, explicou.
Todos jogam
A nova fórmula do Campeonato Paulista prevê a inclusão de todos os atletas nas partidas. Os titulares jogam o primeiro tempo, os reservas entrem no segundo, e o terceiro tempo com escalação livre e substituições ilimitadas. Celso Valle explica que a obrigatoriedade da minutagem para todos os atletas altera a lógica competitiva nas categorias menores. “Mudando o foco da competição imediatista para a formação de longo prazo, o trabalho do treinador passa a ser o de equilibrar a equipe para que não perca a competitividade, em vez de apenas manter os melhores em campo. O atleta sabendo que vai jogar muda completamente a postura no treino. Reduz a frustração, aumenta o sentimento de pertencimento e mantém o grupo focado”.
Cuidados com a saúde mental
As mudanças promovidas pela FPF também dialogam com preocupações levantadas por especialistas da saúde esportiva sobre os riscos da especialização precoce. Segundo a Healthy Children, publicação da American Academy of Pediatrics, o excesso de treinamento e a especialização precoce pode provocar o chamado overtraining, condição associada à fadiga física e mental. A entidade destaca que crianças, quando submetidas ao treinamento sem o período de descanso adequado, podem apresentar sinais de ansiedade e burnout esportivo.
No Primavera, os atletas contam com acompanhamento multidisciplinar, para acompanhar não apenas a performance, mas também a saúde mental e o bem-estar da criança. Sandro explica que o clube realiza o monitoramento da frequência e das notas escolares, palestras sobre ética, redes sociais, nutrição e educação financeira, e o suporte às famílias para garantir um ambiente domiciliar estável.

Para garantir que os atletas sigam o calendário proposto da competição, Sandro ressalta a importância da inclusão dos pais no processo de formação, com reuniões pedagógicas para explicar os riscos e a aplicação de cláusulas disciplinares internas.
Rúbens, por sua vez, destaca os sintomas do burnout esportivo nos jovens. “É bom ficar de olho se o comportamento mudar do nada. Se aquele menino que adorava ir para o treino começar a inventar desculpas para faltar, ficar muito calado ou irritado, ou começar a reclamar direto de dores de cabeça e de estômago antes dos jogos, pode ser um sinal de que a pressão está passando do limite saudável”.
Nesse cenário, o aumento do intervalo entre os jogos e a ampliação do tempo destinado ao convívio familiar aparecem como ferramentas para reduzir a sobrecarga física e emocional dos jovens atletas.
Importância da proteção jurídica
As discussões sobre saúde mental, desenvolvimento educacional e bem-estar dos jovens atletas também encontram respaldo na legislação esportiva brasileira. Nos últimos anos, o tema ganhou ainda mais relevância diante de casos de violações de direitos em centros de formação espalhados pelo país.
Em junho de 2025, o Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul identificou irregularidades em uma instituição esportiva, onde adolescentes eram submetidos a uma rotina intensa de treinamentos, sob constante avaliação de empresários, além de permanecerem afastados da escola e alojados em um centro de treinamento com estrutura inadequada. Após a fiscalização, os jovens foram devolvidos às famílias.
Para o advogado especialista em direito desportivo e diretor jurídico do Primavera SAF, Leonardo Miguel, episódios como esse demonstram a importância de mecanismos de proteção e fiscalização voltados às categorias de base.
“Os recentes avanços vieram para melhorar uma zona cinzenta dentro da legislação brasileira, todavia muito ainda é preciso para que se possa dizer que a proteção é completa. A relação entre menores e agentes, por exemplo, ainda precisa ser melhor fiscalizada. Há também uma necessidade de controle dentro de instituições que ainda não possuem o Certificado de Clube Formador, principalmente porque pouquíssimas equipes possuem essa certificação”, afirma.
O advogado explica que o Certificado de Clube Formador (CCF), promovido pela CBF, exige que as instituições ofereçam uma série de garantias aos atletas em formação, incluindo acompanhamento escolar, médico, psicológico e nutricional.
“As exigências para o CCF trazem ao atleta direitos e garantias que protegem não só seu desenvolvimento dentro de campo, como fora. A formação do menor enquanto cidadão, e o acompanhamento escolar, médico, psicológico e nutricional garantem que todos os seus direitos fundamentais sejam cumpridos enquanto este se prova, dia a dia, para atingir níveis técnicos desejados”, complementa.
Para Leonardo, o fortalecimento da fiscalização e a ampliação dessas exigências para um número maior de clubes são medidas fundamentais para evitar novos casos de exploração e garantir que o processo de formação esportiva aconteça de forma segura e responsável.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Murilo Sacardi













