Profissionais da saúde alertam para os cuidados com padrões, excessos e desinformação no ambiente digital
Por Lucas Tamari e Rafael Choairy
O consumo de conteúdos ‘fitness’ nas redes sociais tem influenciado cada vez mais os jovens na prática de atividades físicas. Entre vídeos de treino, rotinas saudáveis e dicas de influenciadores digitais, muitos passam a seguir esse estilo de vida após se identificarem e se motivarem com o tipo de conteúdo.
Leonardo Macedo, de 19 anos, praticou judô por 10 anos e hoje se dedica à corrida e à musculação. Segundo ele, acompanhar influenciadores digitais nas redes sociais foi um dos fatores que o motivou a iniciar e manter uma rotina nos esportes. “Uma pessoa que me inspirou muito e ainda me inspira a melhorar cada vez mais é o Arda Saatçi. Acompanho ele desde 2024, quando correu sua primeira ultramaratona. Ele me mostrou que, por mais que existam dias complicados, precisamos escolher continuar e dar o nosso melhor”, relata.

Apesar da motivação, Leonardo reconhece os impactos negativos que esse tipo de conteúdo pode oferecer. Para ele, a exposição constante a treinos intensos e padrões de desempenho pode gerar pressão e comparação entre os jovens. “Do mesmo jeito que as pessoas podem motivar, elas também podem fazer alguém achar que nunca está fazendo o suficiente. Hoje em dia, correr 5 km ou fazer treinos pesados virou algo comum nas redes, e isso acaba criando uma cobrança”, avalia.
Diante desse cenário, os profissionais da saúde se preocupam. Segundo o professor de educação física Thiago Croci, alguns pontos podem ser prejudiciais, como a comparação falar mais alto que a saúde. “Muitas redes sociais vendem padrões irreais de corpo e resultados rápidos, fazendo o jovem acreditar que treinar é apenas questão de aparência ou validação”, afirma.
Mesmo com essa preocupação, Thiago pontua que existe um lado benéfico. “As redes sociais têm um lado positivo quando conseguem aproximar os jovens da prática de atividade física. Hoje, muitos começam a treinar, correr ou praticar um esporte porque foram inspirados pela rede social. Isso ajuda no combate ao sedentarismo e faz o esporte ficar mais presente no dia a dia dos jovens. Os benefícios vão além da parte física, a atividade melhora a autoestima, disciplina, socialização e saúde mental”, declara.

Jorge Miguel Fernandez tem 15 anos e decidiu se dedicar à musculação após assistir vídeos do influenciador e atleta Gabriel Ganley nas redes sociais. Segundo ele, o interesse pela musculação começou aos 12 anos, motivado pela insegurança com a própria aparência. “Eu era muito magro e acabava sofrendo zoações. Comecei a treinar para me sentir melhor com o meu corpo e, com o tempo, peguei gosto pelo esporte. Muitas vezes eu estava desanimado para treinar, mas assistia aos vídeos e isso me dava vontade de continuar. Muitos dos meus primeiros treinos eu aprendi acompanhando esse conteúdo”, relata.
Hoje, o jovem praticante de boxe relembra um dos impactos negativos dessa influência nas redes sociais. “Teve uma época em que eu tentei copiar totalmente a rotina dele, principalmente a alimentação e os treinos. Acabei ganhando muito peso para a minha idade e comecei a não gostar mais do meu corpo. Acho que o maior problema das redes sociais é quando as pessoas tentam ser exatamente iguais aos influenciadores que acompanham”, conclui.
O fisiculturista brasileiro Gabriel Ganley compartilhava nas redes sociais sua rotina de treinos e alimentação, mostrando aos seguidores sua trajetória e preparação para competir nos palcos do fisiculturismo. O atleta morreu aos 22 anos após sofrer uma cardiomiopatia hipertrófica, condição que provoca o espessamento do músculo cardíaco e pode causar arritmias e morte súbita. Ganley também falava abertamente sobre o uso de hormônios e anabolizantes, substâncias que, segundo especialistas, podem agravar esse tipo de problema cardíaco e aumentar os riscos cardiovasculares.
Em busca de compreender melhor os motivos do interesse por esse tipo de conteúdo, a psicóloga Gabriela Queiroz afirma que os jovens estão em uma fase de construção da própria identidade, então é muito comum buscarem referências externas sobre comportamento, aparência e estilo de vida. “Os influenciadores acabam ocupando esse espaço porque geram sensação de proximidade e identificação. Diferente de celebridades mais distantes, eles mostram rotina, alimentação, treinos e até vulnerabilidades do dia a dia, o que faz com que os seguidores sintam que aquilo é mais ‘real’ e alcançável”, explica.

Nesse cenário, o desafio passa a ser encontrar um equilíbrio entre usar as redes sociais como fonte de inspiração sem transformar esse consumo em cobrança excessiva. Para Gabriela, desenvolver senso crítico sobre o conteúdo consumido é essencial. “Nem tudo o que aparece nas redes representa a realidade completa. É importante seguir perfis que incentivem a saúde de forma mais humanizada, respeitando limites, individualidade e equilíbrio. Também ajuda observar como aquele conteúdo faz a pessoa se sentir, motivada ou insuficiente? Inspirada ou pressionada? A atividade física precisa estar associada a cuidado e bem-estar, não punição”. A especialista também destaca que fortalecer autoestima, autoconhecimento e criar momentos desconectados das redes sociais são atitudes importantes para evitar comparações constantes e preservar a saúde mental.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana














