Esportes

O esporte como ferramenta de inclusão, resistência e superação

Por Beatriz Stevanatto, Letícia Borges, Maria Vitória Porto

O racismo e a desigualdade ainda deixam marcas profundas no esporte brasileiro. Segundo o Relatório de 2023 do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, foram identificados 250 casos de discriminação, sendo 74% relacionados ao racismo (162 casos). Somente no futebol, ocorreram 195 episódios no Brasil e 27 no exterior. Em outras modalidades, foram 21 casos no país e 1 fora dele. O relatório alerta que esses números representam apenas “a ponta do iceberg”, já que muitos episódios nunca chegam à mídia.

Diante desse cenário, histórias de atletas veteranos e educadores revelam como o esporte pode ser uma ferramenta de inclusão, resistência e superação, transformando vidas e enfrentando barreiras de raça, gênero e classe social.

Memória, família e herança esportiva

Nascidas em uma família simples do interior paulista, Dionir Jeremias Baptista e Rita de Cássia Geremias Dias compartilham uma trajetória marcada pela disciplina, pelo talento e pela consciência social. Filhas de um pai negro, meeiro no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), as irmãs cresceram em um sítio onde o futebol, a corrida e a convivência comunitária moldaram a infância.

Transformar resistência em movimento: aos 80 anos, Dionir ainda mostra que o corpo negro também é memória e permanência (Foto: Maria Vitória Porto)

Rita começou a correr aos 11 anos, incentivada por uma professora da escola pública. “Corri mais do que as meninas da minha turma e ganhei o campeonato colegial. Minha irmã também ganhou na categoria dela”, recorda. A partir daí, passou a treinar em um centro esportivo, competindo em diferentes categorias até chegar a campeonatos brasileiros e sul-americanos.

Nessas competições, ela era acompanhada pela irmã Conceição Geremias, que também se tornaria uma atleta de destaque nacional, representando o Brasil em grandes eventos esportivos. A convivência com o esporte inspirou também a irmã mais velha, Dionir, que, anos mais tarde, passou a competir nos Jogos da Melhor Idade, conquistando medalhas no tênis de mesa e no arremesso de peso. “No meu tempo, o pingue-pongue era com raquete de madeira, sem borracha e sem regra. Hoje, tudo é técnico e oficial, mas a paixão é a mesma”, afirma.

A trajetória das irmãs reflete também os desafios enfrentados por famílias negras no acesso à educação e ao esporte. “Nosso pai era letrado, inteligente, mas ser negro significava enfrentar portas fechadas”, diz Dionir. Rita complementa: “O esporte foi o que nos manteve na escola. Se não fosse por ele, talvez tivéssemos parado na oitava série e ido trabalhar.”

Mesmo quando o talento se sobressaía, o preconceito não deixava de aparecer. Aos 15 anos, Rita foi alvo de um episódio de racismo em uma competição nacional, quando o chefe da delegação suspeitou injustamente das atletas negras de um roubo que não haviam cometido. “Foi muito constrangedor. Mas aprendi que o esporte também é um espaço de resistência”, conta.

Da corrida à sala de aula, Rita fez do esporte uma ferramenta de liberdade e permanência (Foto: Maria Vitória Porto)

Ambas seguiram caminhos distintos, mas com o mesmo propósito. Dionir se formou em corte e costura e bioquímica, sendo a única negra em seu laboratório. Rita seguiu carreira como professora de Educação Física, atuando por mais de 15 anos na Unicamp e em escolas públicas.

Hoje, aos 80 e 67 anos, respectivamente, continuam ativas no esporte e em projetos de terceira idade. “O racismo estrutural é pesado, mas não podemos parar. Cada conquista é uma forma de resistir”, reflete Dionir. Para Rita, a lição é semelhante: “O esporte é libertação. Ele mostra que todos temos direito a estar em qualquer espaço.”

O esporte como caminho de acesso e identidade

Márcio Batista, 63 anos, também encontrou no esporte uma forma de afirmação e pertencimento. Filho de uma família de origem mineira e cabo-verdiana, cresceu em um ambiente em que o trabalho e a prática esportiva eram valores familiares.

“A Copa de 1970 marcou muito. Meu pai fez um sacrifício enorme para comprar uma televisão. Ver o Brasil jogando,  juntos na sala, mostrou que o esporte podia unir e transformar”, lembra.

Foi em clubes comunitários e centros de convivência que Márcio descobriu o tênis de mesa. Passou por espaços como o Sesc, o Patrulheiro e o Clube da Bosch, onde começou a disputar torneios regionais. Em uma dessas competições, ouviu um comentário que jamais esqueceu. Durante uma partida, o técnico adversário, irritado com o desempenho do próprio atleta, gritou: “Ganha logo desse mongoloide aí, ele não sabe nem pegar na raquete.”

No tênis de mesa, Márcio encontrou o equilíbrio entre luta e leveza — e mostrou que talento não tem cor (Foto: Maria Vitória Porto)

Márcio lembra que o insulto, que disfarçava um preconceito racial, o marcou profundamente. “Na hora, eu percebi o que ele quis dizer. Aquilo me feriu, mas também me deu força. Usei aquilo como motivação para continuar e mostrar que podia chegar lá”, conta.

Com o tempo, acumulou vitórias em campeonatos internos e regionais, mas o que mais o marcou foi o poder de transformação do esporte. Hoje, como professor no Country Clube, ele ensina o tênis de mesa para crianças e adolescentes e defende o acesso amplo às modalidades. “Os clubes elitizados ainda são majoritariamente brancos. Mas a paixão pelo esporte é universal, precisamos criar pontes para todos.”

Márcio se tornou uma referência para a família e para seus alunos. “Vejo meus sobrinhos e ex-alunos jogando em outros países. É uma alegria saber que, de alguma forma, ajudei a abrir caminhos.”

Da roça ao alto rendimento: o atletismo como inclusão

Carlos Antônio dos Santos, conhecido como Bira, nasceu em Ubirajara, cidade do interior de São Paulo, e teve o primeiro contato com o esporte ainda criança, correndo descalço nas estradas de terra e jogando futebol nas horas vagas.

Aos 18 anos, uma lesão no joelho o obrigou a fazer fisioterapia, e foi nesse processo que descobriu o atletismo. “Um amigo me viu correndo e disse que eu levava jeito. Comecei a treinar e nunca mais parei.”

Mesmo conciliando o trabalho na roça com os estudos à noite, Bira seguiu treinando até receber, aos 20 anos, uma bolsa para representar Marília em competições universitárias. A partir daí, construiu uma carreira sólida no atletismo e, anos depois, tornou-se atleta-guia de corredores paralímpicos, papel que o levou a quatro Jogos Paralímpicos (Pequim, Londres, Rio e Tóquio) e a conquistas de medalhas de bronze, prata e ouro, com direito a recorde mundial.

“Com o Odair, fomos campeões, mas o mais importante foi a experiência de inclusão. O esporte me deu oportunidade, visibilidade e uma nova forma de ver o mundo”, conta.

Hoje, Bira é educador físico e dirige uma assessoria esportiva em Limeira (SP), atendendo crianças, adultos e atletas. Para ele, a democratização do acesso ainda é o principal desafio. “Atletismo e futebol são mais acessíveis, mas esportes como natação, tênis ou hipismo exigem recursos que muita gente não tem. Essa desigualdade afeta especialmente a população negra e periférica.”

Ele defende políticas públicas e projetos escolares que incentivem o esporte desde cedo. “Quando uma criança descobre o prazer de se mover, de competir, ela ganha mais do que saúde: ganha perspectiva.”

As trajetórias de Dionir, Rita, Márcio e Bira mostram que o esporte ultrapassa o campo da competição. Ele é um meio de educação, resistência e construção de identidade.

Entre histórias de esforço, racismo, vitórias e recomeços, o movimento surge como elo entre corpo e sociedade. Como resume Bira, “o esporte não é só um jogo. É uma oportunidade de vida. Ele transforma realidades e abre caminhos para quem enfrenta barreiras de raça, gênero ou condição financeira.”

A estrutura por trás das barreiras

Para compreender as barreiras enfrentadas por atletas negros, é preciso olhar para além das competições e reconhecer o papel do racismo estrutural nas instituições esportivas. A Comendadora Edna Almeida Lourenço, membro do Centro de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, explica que o racismo estrutural se manifesta como um conjunto de práticas e comportamentos que impedem o acesso e a permanência de pessoas negras em diversos espaços, inclusive no esporte.  

“O racismo estrutural é uma condição de prática das pessoas que impedem o acesso à inclusão de negros e negras nos espaços. Há uma estrutura racista que define oportunidades a partir da cor da pele”, afirma.

Segundo ela, embora o desempenho esportivo pareça ser um campo meritocrático, o racismo se manifesta de maneiras sutis e, muitas vezes, cruéis. “No esporte, não há como classificar pela cor, mas a estrutura racista se expressa na reação da torcida. Quando um atleta negro não corresponde às expectativas, ele é ofendido de forma perversa”, explica.

A comendadora lembra que, mesmo com leis que criminalizam o racismo, a prática persiste com naturalidade. “Hoje, as pessoas expressam o racismo de forma muito tranquila. Escrevem, publicam nas redes, e colocam o negro sempre em posição de inferioridade. É como se o lugar do negro ainda fosse a base da pirâmide social.”

No ambiente esportivo, essa desigualdade é visível na ausência de profissionais negros em cargos de liderança. “Temos jogadores negros, mas não técnicos. É o processo de embranquecimento: o negro até pode jogar, mas não comandar. Ainda existe a ideia de que um homem negro não pode liderar uma equipe”, pontua. Segundo Edna, poucos clubes têm dirigentes ou presidentes negros e, nas comissões técnicas, a presença ainda é mínima.

Ela destaca também como o racismo estrutural se reflete na distribuição de recursos e patrocínios. “Esportes considerados de elite, como o tênis, o hipismo e o badminton, exigem investimento. E onde estão os patrocinadores dispostos a apoiar atletas negros? Isso já é parte da estrutura: são modalidades que não foram feitas para nós”, observa. Como exemplo, Edna cita as irmãs Serena e Venus Williams, que chegaram ao topo mundial do tênis graças ao esforço do pai e ao investimento de longo prazo, algo ainda raro na realidade brasileira.

Para ela, a mudança depende de um processo de reparação histórica e inclusão real. “Reparação não é dar dinheiro. É dar acesso, oportunidade e visibilidade. É ver pessoas negras em cargos de liderança, no esporte e nas empresas. É garantir que meninos e meninas da periferia possam ser vistos e tenham chance de mostrar seu talento.”

Edna reforça que o esporte, por sua natureza agregadora, tem papel central nessa transformação. “O esporte é lindo porque une, valoriza e dá dignidade. Mas ainda precisamos garantir que todos possam ocupar esse espaço não apenas jogar, mas também dirigir, treinar e decidir. Essa é a verdadeira igualdade”, acredita.

Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana


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