Torcidas e poder público se mobilizam para transformar o futebol em espaço de respeito e inclusão
Por Noemi Silva, João Gabriel Fernandes Silva e Isabela da Silva
Entre bandeiras, tambores e rostos pintados de preto e branco, um movimento silencioso, mas poderoso, tem ganhado força nas arquibancadas de Campinas. Torcidas organizadas da Ponte Preta e do Guarani, rivais históricos, mostram que o futebol pode ser mais do que paixão e rivalidade: pode ser um espaço de resistência, inclusão e combate ao racismo. Em um cenário em que a cor da pele ainda define olhares e destinos, a cidade abriga histórias de luta que unem amor, memória e justiça social.
Com a camiseta da Ponte em mãos, o grito de fúria e orgulho de Anderson Ferreira Thomás, o Conde, parece ainda ecoar nos muros da sede da Torcida Jovem Amor Maior. O olhar vibrante do torcedor, eternizado em um mural, é um lembrete da paixão que marcou sua vida — e também de sua morte. Conde foi assassinado em 17 de outubro de 2005, aos 26 anos, após um confronto entre torcedores da Ponte e do São Paulo, em Campinas. Sua morte brutal chocou a cidade e transformou seu nome em símbolo. Hoje, o rosto de Conde, acompanhado da frase “Conde Eterno”, é uma bandeira de resistência.

Para quem convive diariamente na sede da Torcida Jovem Amor Maior, Conde representa mais do que uma lembrança: ele é a memória viva de uma luta. Segundo o diretor-geral Maurício Lombardi Jr., a torcida nasceu com a marca da resistência, herdando o espírito pioneiro da Associação Atlética Ponte Preta, o primeiro clube brasileiro a escalar um jogador negro.
“Desde o início sofremos com provocações racistas. Nosso rival nos chamava de macacos. Nós transformamos a ofensa em símbolo, e hoje a macaca é o nosso maior orgulho”, conta Lombardi, com o mesmo entusiasmo de quem carrega a camisa como segunda pele.
O mascote feminino — único no futebol brasileiro — é mais do que um emblema. É a prova de que uma dor histórica pode ser ressignificada. “O que antes era preconceito virou identidade”, completa o diretor. As paredes da sede, cobertas por grafites e símbolos da Ponte, refletem esse sentimento: um espaço que abraça, acolhe e educa.
Mesmo reconhecendo avanços no combate ao racismo nos estádios, Lombardi afirma que o problema ainda resiste em comportamentos sutis. “As redes sociais e as punições ajudaram, mas o racismo ainda aparece. Dentro da Amor Maior, não tem espaço para isso. Quem não respeita, sai”, esclarece.
Mais do que um grito nas arquibancadas, a torcida tenta ser também um espaço de formação. “Se o garoto não está estudando, não fica aqui. Queremos formar cidadãos, não delinquentes”, diz o diretor. Em parceria com a Ponte Preta, a Amor Maior participa de campanhas de conscientização e de eventos ligados à Consciência Negra, reforçando o que Lombardi chama de “o DNA da Ponte” feito por uma herança de luta e orgulho.
Entre os tambores e bandeirões, o som que guia a multidão é o de Negro John, puxador da torcida há quase duas décadas. Suas músicas misturam samba, rap e resistência. “Eu nunca escrevi pensando em ser antirracista, mas isso faz parte da nossa história. A Ponte tem no seu DNA a luta contra o preconceito”, afirma.
Composições como “Hoje Tem Ponte Preta” se tornaram hinos que celebram a identidade negra e o pertencimento. “Minhas letras falam da vida, da amizade, da dor e da alegria de ser pontepretano. O racismo está nelas porque está no mundo”, explica o músico.
Para Negro John, a música é um instrumento de conscientização. “As pessoas cantam, mas também refletem. Às vezes, a letra desperta algo em quem nunca percebeu o racismo à sua volta.” Ele diz que a torcida o transformou em pessoa. “Aqui eu aprendi o que é união, respeito e empatia. É o coletivo que nos fortalece. Uma torcida organizada é um movimento social — acolhe jovens, dá propósito, salva vidas.”
O artista também critica a elitização do futebol, que afastou o povo negro das arquibancadas. “O ingresso caro e a repressão tiraram a gente de lá. Mas a nossa voz continua. O rap, o samba e o tambor são resistência.”

Do outro lado da cidade, o Guarani Futebol Clube também abriga torcedores que lutam contra o preconceito. Douglas Leonardo de Castro, vice-presidente da Fúria Independente, diz que em quase trinta anos de torcida nunca presenciou racismo dentro do grupo. “Aqui temos gente de todo tipo: negros, brancos, pardos e indígenas. O racismo não tem vez. Se acontecer, o integrante é afastado na hora.”
Douglas acredita que o futebol precisa se engajar de forma mais contínua no combate à discriminação. “As campanhas aparecem só quando há casos graves. O certo seria ter ações constantes. O futebol é paixão, e paixão não combina com ódio”, considera o torcedor.
Quem compartilha da mesma visão é Paula Barbierie Selvaggio, diretora de ações sociais da Guerreiros da Tribo, também ligada ao Guarani. “Na nossa torcida, nunca vi um ato de racismo. Pelo contrário, a gente acolhe todos. Negros, brancos, mulheres, pessoas de diferentes classes. Aqui é uma família”, afirma.
A Guerreiros da Tribo, fundada há 49 anos, tem como lema “Atitude, Amor e Tradição”. Paula explica que o grupo realiza campanhas sociais o ano todo, levando alimentos e roupas às famílias carentes. “Não fazemos distinção. Ajudamos quem precisa. O racismo não cabe aqui.”
Ela reconhece, no entanto, que as torcidas ainda enfrentam preconceito. “Somos vistos como marginais, como escória. Mas fazemos mais pela sociedade do que muita gente imagina”, diz. Durante a pandemia, Paula chegou a transformar sua casa em centro de doações. “Foi difícil, mas foi lindo. Fizemos muito mais do que muitos órgãos públicos.”
Além da luta contra o racismo, Paula também defende o empoderamento feminino nas arquibancadas. “As mulheres precisam se impor. Ainda há machismo, mas a gente está conquistando espaço. Torcer, cantar, vibrar é nosso direito também.”
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O papel do poder público e a Lei Vini Júnior

Enquanto as torcidas organizadas dão o exemplo nas arquibancadas, o poder público tenta consolidar políticas que transformem o esporte em espaço de cidadania. O secretário de Esportes e Lazer de Campinas, Fernando Vanin, afirma que o município tem avançado em ações formais de combate ao racismo.
Segundo ele, o Pacto Antirracista, assinado em parceria com a PUC-Campinas, representa o compromisso mais sólido da cidade na área. “Esse pacto é uma evolução da campanha ‘Esporte Sim, Racismo Não’, que já existia. Ele formaliza o que sempre defendemos: a conscientização como ferramenta de transformação.”
Vanin explica que, nos campeonatos organizados pela Prefeitura, há tolerância zero com casos de racismo. “Se acontecer, o jogo é interrompido e a autoridade policial é chamada. O autor é expulso do torneio e suspenso da próxima edição e o crime segue para o Ministério Público.”
Ele também cita a Lei Vini Júnior, criada após casos de injúria racial contra o jogador brasileiro na Espanha, como inspiração para os protocolos municipais. A lei prevê interrupção imediata de partidas em caso de ofensas raciais, além de punições severas a clubes e organizadores. “Campinas ainda não tem uma lei própria, mas seguimos os mesmos princípios. O jogo não continua enquanto o respeito não for restabelecido”, garante o secretário.
Mesmo com limitações de verba, Vanin diz que as campanhas têm surtido efeito. “Nenhum evento esportivo da Secretaria registrou racismo. O resultado mais concreto é justamente a ausência de casos.” Em novembro, ele pretende assinar um novo pacto, agora envolvendo representantes de clubes e torcidas, para reforçar a causa.
Para ele, o racismo no esporte é um paradoxo. “Os maiores ídolos — Pelé, Vini Jr., Usain Bolt, Michael Jordan — são negros. Como é possível ofender quem representa o que há de melhor? O esporte deveria ser o espelho da diversidade e do mérito”, conclui.
De um lado, torcidas que transformam o amor em consciência. Do outro, o poder público que tenta garantir, por lei, o respeito dentro e fora dos estádios. Em Campinas, a luta contra o racismo no futebol mostra que a paixão pode, sim, ser um ato político. Nos muros da sede da Torcida Jovem Amor Maior, o rosto de Conde continua olhando firme, lembrando a todos que o futebol pode dividir torcidas, mas une no que é essencial: humanidade, memória e igualdade.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

