Esportes

Racismo científico e os limites impostos a pessoas negras no atletismo

Por Amanda Poiati, Fayollah Souza e Isabela Meletti

O mito — fruto do racismo estrutural — de que pessoas negras são naturalmente mais aptas a modalidades que exigem força e velocidade ainda persiste no imaginário esportivo. Essa crença sustenta estereótipos raciais que desconsideram fatores históricos, sociais e culturais que moldam o acesso ao esporte e reforçam desigualdades. Dentro e fora de pistas, campos e quadras, o racismo continua determinando quais corpos podem ocupar certos espaços e quais histórias ganham visibilidade.

Embora as competições esportivas sejam apresentadas como espaços de diversidade e acolhimento, o discurso que limita pessoas negras a determinadas modalidades segue enraizado. 

O educador Airton Pereira Júnior defende que a propagação da ideia de que pessoas negras têm um bom desempenho no atletismo por conta da cor da pele reforça o racismo científico existente na sociedade (Foto: Isabela Meletti)

“É comprovado que crianças e adolescentes, brancas e negras, que têm contato com esporte, conseguem se desenvolver da mesma forma. Você pode ter pessoas que não têm tanta habilidade, mas elas vão jogar e vão saber um pouco do fundamento daquela modalidade. Não tem evidências científicas que mostrem que uma pessoa negra é superior ou inferior a uma pessoa branca dentro do esporte e vice-versa. O que as pessoas negras têm acesso é ao racismo estrutural e científico, que as ataca diretamente, fazendo separação e dizendo quais esportes são ou não para elas”, afirma o educador Airton Pereira.

Segundo ele, o racismo científico utiliza argumentos da biologia e da craniometria para classificar populações humanas como superiores ou inferiores.

A ideia de que o talento esportivo estaria ligado à cor da pele ignora que, na verdade, é um traço de um racismo estrutural e científico dentro do universo esportivo.

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Além das barreiras das pistas 

Essa desigualdade não tem origem biológica, mas social. Pessoas negras enfrentam vulnerabilidade econômica e têm menos acesso à alimentação adequada, infraestrutura esportiva e oportunidades de formação atlética. Por isso, muitas vezes, estão fora das práticas esportivas desde a base.

Os números reforçam essa realidade. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2023, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre as pessoas que viviam em situação de extrema pobreza no país, 73% eram negras e 26% brancas.

Apesar dessas barreiras, há um contraste evidente: quando têm oportunidade, atletas negros conquistam resultados expressivos. No atletismo, por exemplo, o protagonismo é visível. Nas Olimpíadas de Paris 2024, das 15 medalhas individuais conquistadas pelo Brasil, 9 foram de atletas negros, evidenciando o protagonismo e o talento dentro dessa modalidade.

Já fora do esporte, a realidade é outra. Esse cenário ocasionalmente integra a vida de pessoas pretas, que são consideradas fisicamente ativas devido a suas rotinas, ao andarem de bicicleta ou a pé para irem ao trabalho, por exemplo. De acordo com dados do IBGE, 38,9% das pessoas negras se mantêm ativas por necessidade cotidiana e não por lazer. 

Essa realidade esteve presente por muitos anos na vida de Conceição Geremias, uma das maiores atletas da história do atletismo brasileiro. Especialista em heptatlo e integrante da seleção brasileira por décadas, atualmente compete como atleta paralímpica.

Sexta filha entre oito irmãos, Conceição passou a infância na roça, ajudando os pais na lavoura. “A escola mais próxima da nossa casa ficava a quatro quilômetros de distância. A gente saía de casa já perdendo hora, e era só subida. Então, tínhamos que correr, porque se o portão fechasse, ninguém mais entrava na escola. Isso me ajudou a ter uma condição física muito boa”, conta Conceição. “Além disso, a gente carpia com enxada todos os dias. Quando um cavalo fugia, precisávamos correr atrás para pegá-lo. A alimentação também era mais natural, tudo o que comíamos era plantado por nós mesmos”, acrescenta.

De certa forma, existiu um preparo que antecedeu todos os treinos que Conceição recebeu em seguida, mas isso não está ligado diretamente à cor da sua pele, e sim ao estímulo diário a que seu corpo foi exposto. A trajetória de Conceição mostra como o ambiente e as condições de vida podem moldar o desempenho físico. Ainda assim, há também fatores biológicos que ajudam a explicar certos desempenhos, embora não sejam determinantes.

Segundo o médico ortopedista Marcelo Barbosa, pós-graduando em medicina esportiva e integrante do coletivo Negrex — grupo de estudantes de medicina e médicos negros de todo o Brasil, “ao levarmos essas considerações para o contexto da população africana, percebemos que ela apresenta uma das maiores variações genéticas do planeta. Dentro desse cenário determinados indivíduos possuem uma alta proporção de fibras musculares do tipo II, conhecidas como fibras rápidas”.

Essas fibras são responsáveis por um melhor desempenho em esportes que exigem explosão e velocidade, como corridas e saltos. Além disso, há também grupos ou indivíduos que apresentam grande capacidade cardiovascular, o que permite realizar esforços maiores com menor gasto energético, sendo mais eficientes do ponto de vista metabólico e atlético. 

Marcelo diz que não é uma questão biológica, mas sim algo que se estende a outros espaços. Segundo ele, a participação de pessoas negras e o melhor desempenho em certas práticas estão relacionados com a história esportiva local, o incentivo e a referência, além da cultura. 

Enquanto as modalidades continuarem sendo um espaço de privilégio para poucos e a sociedade continuar reforçando o racismo científico dentro do esporte, o talento de muitos jovens negros será deixado de lado em favor das barreiras sociais e do racismo estrutural que insiste em pregar a desigualdade. 

Reconhecer essa barreira é o primeiro passo para derrubá-la e compreender que não existem estereótipos que pessoas pretas precisem derrubar sozinhas. De acordo com o educador Airton, o esporte deve ser um espaço de inclusão, oportunidade e representatividade, que reflita o que acontece politicamente do lado de fora.

Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana


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