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Movimento Redpill aumenta violência contra mulheres

Por Sofia Pisteker, Eduardo Maschio, Rafael Choairy e Poliana Belo

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Nos últimos anos, um termo vindo da cultura pop ganhou as redes e se tornou a bandeira de uma série de movimentos masculinistas: o “Red Pill”. Originado de uma cena icônica do filme Matrix (1999), onde o protagonista escolhe a pílula vermelha para confrontar uma “verdade” nua e crua em vez de permanecer na ilusão confortável da pílula azul, o conceito foi apropriado por comunidades online para descrever um “despertar”. A partir dos anos 2010, essas comunidades passaram a utilizá-lo para se referir a uma suposta realidade onde os homens seriam oprimidos por um “sistema feminino/feminista”.

Contudo, o que esses grupos promovem vai muito além de uma simples “verdade”. Eles reforçam estereótipos de gênero tradicionais, defendendo papéis hierárquicos e distintos para homens e mulheres na sociedade e nos relacionamentos. Mais preocupante é que alguns desses discursos podem fomentar a misoginia e a violência contra as mulheres, contribuindo para uma cultura que normaliza o assédio e a agressão.

Um fenômeno com raízes tão específicas na internet conseguiu se expandir e ganhar força ao ultrapassar o ambiente digital e se conectar com transformações da sociedade global. Maria Lucia Jacobini, mestra e docente do curso de Jornalismo da PUC-Campinas, revela que o “Red Pill” e outros movimentos masculinistas não permanecem restritos às redes, mas se inserem em dinâmicas sociais mais profundas, refletindo mudanças culturais, comportamentais e estruturais que contribuem para sua disseminação e fortalecimento.

No ambiente digital, a dinâmica é potencializada pelas plataformas e algoritmos que priorizam o engajamento, formando “bolhas informacionais” e um “efeito de eco”. Isso reforça opiniões, fazendo com que conteúdos mais extremos ganhem mais visibilidade, o que intensifica a radicalização.

“São discursos simples, com forte apelo emocional e, muitas vezes, teor conspiracionista. Há a construção de um ‘inimigo comum’ e o uso de palavras de ordem que facilitam a circulação das mensagens”, ressalta Jacobini.

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⁠Impactos psicológicos

Por que o movimento Red Pill atrai e influencia os jovens e como esse comportamento de misoginia, machismo e homofobia praticado online pode se tornar um problema fora das redes sociais?

A psicanalista Ana Laura Prates explica que parte desse comportamento dos jovens em grupos Red Pill se dá pelo interesse de pertencer à um grupo. Ela analisa que o grande foco dos Red Pills são as mulheres pois, “de alguma forma, propõe uma reação a uma transformação no mundo que tirou o poder que os homens tinham sobre as mulheres”.

Também deve se considerar que esse grupo jovem, que é atraído por esses influenciadores, é majoritariamente adolescente. A psicanalista e pesquisadora em psicologia clínica, Ana Claudia Fattori, considera que se trata de uma idade em que muitos procuram nesses grupos referências para o que sentem, pois se trata de um local em que seus sentimentos são “legitimados”. “Essa discursividade apelativa pode ser sedutora para alguém que está começando a se relacionar amorosamente e se sente “perdido”, ou também, para aqueles sem uma direção profissional e financeira”, diz a psicanalista.

Ana Claudia também fala sobre como o movimento Red Pill simplifica demais a realidade, ignorando o quão complexas as relações humanas podem ser, reduzindo tudo apenas a estereótipos e falsas hierarquias.

Ambas as profissionais citam a importância de educar os jovens e abrir um espaço em que seja possível falar sobre o assunto e ensiná-los sobre a problemática do movimento. Isso deve ser uma responsabilidade coletiva, pois os adultos têm o dever de cuidar das crianças e adolescentes.

Ana Laura explica que isso deve ser diagnosticado como uma patologia social e não individual. “Claro que há pessoas que sofrem fragilidades, distúrbios individualmente, mas, seria um número muito menor se isso se explicasse simplesmente por uma patologia individual, seriam casos muito isolados. A gente precisa tratar da patologia social e em casos que forem identificados comportamentos violentos, tendências agressivas ou mesmo atos que já tenham sido praticados, aí sim esse adolescente precisa de ajuda”, conclui a psicanalista.

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Casos e consequências

O Senado Federal aprovou, em março de 2026, o Projeto de Lei 896/2023, que criminaliza a misoginia, equiparando o ódio ou a aversão contra mulheres ao crime de racismo. A proposta prevê pena de 2 a 5 anos de prisão e multa para manifestações de desprezo ou violência baseada no gênero, podendo ter aumento caso o crime ocorra em redes sociais, espaços públicos ou em ação coletiva. A medida busca reforçar o combate à violência de gênero e prevenir casos extremos, como feminicídios, que seguem em alta.

Gráfico representando o apoio de homens e mulheres para criação de leis anti misoginia baseada em uma pesquisa feita com mais de 1100 participantes

Quando esse tipo de pensamento ultrapassa o ambiente digital, as consequências deixam de ser apenas discursos e passam a se manifestar de forma concreta. Em março de 2026, um caso ocorrido no Rio de Janeiro trouxe esse debate para o centro das atenções. Uma adolescente de 14 anos foi vítima de um estupro coletivo, crime que gerou grande comoção social e mobilizou as autoridades.

Mais do que um elemento isolado, o caso evidenciou uma conexão preocupante entre o que é compartilhado online e o que pode acontecer fora das telas. Ele mostra como símbolos, ideias e discursos que circulam nesses espaços podem contribuir para naturalizar a violência e, em alguns casos, aparecer associados a ações reais, aprofundando um problema social já existente.

Nesse contexto de endurecimento legal, a ex-delegada titular da Delegacia da Mulher (DDM) de Campinas, Licia Cordeiro, explica que as situações de violência contra a mulher ainda na fase inicial têm entraves importantes que impactam diretamente o andamento dos casos. Segundo ela, “as maiores dificuldades são a adesão da vítima, que se retrai, muitas vezes por medo, vergonha, pressão da família e do próprio agressor, por dependência financeira”. Esse recuo pode comprometer a coleta de provas, agravado por situações como a ausência de exame de corpo de delito ou a falta de colaboração de testemunhas.

Mesmo com avanços legislativos e institucionais, o cenário ainda preocupa. A especialista observa que os casos continuam recorrentes e muitas vezes marcados por extrema violência. Nesse contexto, o maior desafio está na prevenção, que exige uma mudança cultural e educacional.

A ex-delegada destaca que a responsabilidade não deve recair apenas sobre as instituições. “Penso que chegou a hora de cada indivíduo, homem e mulher, fazer efetivamente a sua parte nessa mudança”, afirma, defendendo que o enfrentamento da violência também passa pelas atitudes do dia a dia

Tabela de termos relacionados a Red Pill no Google no período de março a abril de 2026

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Perspectivas

Entre os jovens, discursos como os do movimento Red Pill circulam com facilidade nas redes sociais e podem influenciar percepções e comportamentos. A estudante de Psicologia Ana Amélia Belo, 24 anos, afirma que esse tipo de discurso tem impacto negativo na forma como as mulheres são vistas no cotidiano. “Acho que esses discursos acabam reforçando estereótipos e uma visão mais reduzida das mulheres, como se elas fossem manipuladoras, interesseiras ou inferiores, gerando desconfiança, julgamento e até falta de empatia”, explica.

Ao ser questionada sobre a influência desses conteúdos no comportamento masculino, Ana Amélia avalia que o impacto pode ser direto nas relações. “Acho que pode influenciar o comportamento do agressor, porque à medida que ele se identifica, ele acaba fazendo um movimento de ‘nadar com a correnteza’ e reproduzir mais ainda”, analisa.

Daniel Targino, 26 anos, estuda Mídias Digitais e relata que já teve contato com conteúdos de cunho Red Pill. Ele avalia que esse tipo de conteúdo tem um impacto negativo, por estar ligado à disseminação de discursos de ódio e ideias discriminatórias, o que, segundo ele, acaba gerando uma “onda negativa” na forma como certos grupos são vistos.

“Eu acredito que eles podem influenciar negativamente, como qualquer outro conteúdo que destila ódio”, diz. Na visão dele, esse tipo de conteúdo costuma atrair principalmente homens jovens que estão em um momento de frustração, já que muitas vezes oferecem explicações que colocam a culpa dos problemas pessoais em outras pessoas. “Esse movimento acaba apontando culpados externos para frustrações que muitas vezes são individuais”, explica.

Daniel também chama atenção para o risco da normalização desses discursos, destacando que, quando ideias extremistas são repetidas com frequência, elas passam a parecer mais aceitáveis e isso pode, aos poucos, aproximar o discurso de ódio de comportamentos mais violentos.

Temas abordados por canais do movimento Red Pill no Youtube sobre misoginia e contra os direitos das mulheres

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Anonimato online e a barreira relativa

A agressividade contra mulheres no meio digital não é um fenômeno isolado. Esse tipo de violência aparece de diversas formas, ocorrendo principalmente nos chamados “fóruns” online, que consistem em grupos de pessoas com os mesmos interesses, que compartilham suas experiências e pensamentos.

Nesse tipo de ferramenta, a pessoa não precisa, necessariamente, utilizar seu nome verdadeiro. Muitos dos integrantes optam por um “nick” – ou apelido -, o que mantém sua identidade preservada e reforça a ideia de que não haverá consequências. Dessa forma, esses homens que praticam violência virtual se sentem, de certa forma, à vontade para agir de maneira agressiva, pois acreditam estar protegidos pelo anonimato.

Segundo Andriel Biagioni, consultor de segurança da informação, essas pessoas costumam utilizar diferentes estratégias, como contas falsas, ocultação do endereço IP e o uso de números de telefone registrados em nome de terceiros. Buscam também criar uma camada adicional de anonimato na própria conexão com a internet, utilizando ferramentas como VPNs.

“A ideia é se colocar atrás de múltiplas camadas de anonimato para dificultar a identificação. Isso torna o processo de investigação muito mais complexo, já que nem sempre é possível vincular diretamente uma atividade online a uma pessoa específica”, explica.

Biagioni afirma, ainda, que o anonimato na internet funciona como uma barreira relativa, já que, em alguns contextos, quando há recursos técnicos, interesse governamental, institucional ou impacto mais amplo, é possível avançar na identificação dos responsáveis de forma rápida e efetiva. Por outro lado, em situações mais comuns do dia a dia, essa identificação pode esbarrar em limitações técnicas, jurídicas e operacionais, o que muitas vezes dificulta a responsabilização efetiva. É nessa brecha, nas situações mais comuns do cotidiano, que os casos de violência cibernética contra a mulher acontecem e são pouco punidos, uma vez que o processo de identificação e penalização do agressor pode demorar mais do que o esperado.

Para Teresinha de Carvalho, a primeira delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Campinas, a polícia tem se modernizado e possui condições de identificar a origem desses discursos por meio de investigações, chegando ao autor, “no entanto, a atuação ainda não é suficiente diante do grande volume de casos”, explica.

Para além da atuação policial, todos os entrevistados nessa reportagem apontaram um mesmo caminho para o combate ao crescimento do movimento Red Pill e da violência contra mulheres: a educação de jovens e o monitoramento da navegação digital de crianças e adolescentes.

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