Iniciativa aposta na integração entre governo, forças armadas, empresas e universidades para expandir pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas
Por Ana Carolina Cassanti e Lívia Dentini
A consolidação de Campinas como um dos principais polos industriais e tecnológicos do Brasil ganha um novo capítulo com a proposta de criação de um polo tecnológico voltado à inovação em defesa e segurança, em parceria com o governo estadual e o Exército Brasileiro. Ainda em fase de concepção, o projeto não tem previsão para o início das obras, mas deve ter seu modelo estruturado até o fim de 2026, quando serão definidos prazos mais concretos para implantação e operação.
A iniciativa prevê a instalação do parque na área da Fazenda Remonta, sob administração do Exército, e está sendo conduzida pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), responsável pelo Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército (SCTIEx). Para o general de brigada Douglas Corbari Corrêa, chefe do Núcleo do Parque Tecnológico de Defesa e Segurança em Campinas, o projeto representa um movimento estratégico de longo prazo. “Estamos na fase de concepção, que envolve o alinhamento com diversos atores, definição do modelo de gestão, fontes de financiamento e parcerias. A ideia é que, até o final de 2026, tenhamos dados suficientes para avançar para as próximas etapas”, explica.

O parque nasce com a proposta de estruturar um ambiente integrado de inovação, baseado na articulação entre governo, universidades e empresas, o chamado modelo do tríplice hélice. Segundo Corbari, a iniciativa tem como objetivo acelerar o desenvolvimento de tecnologias críticas para o país, especialmente nas áreas de defesa e segurança. Entre os campos prioritários estão inteligência artificial, tecnologias quânticas, defesa cibernética e manufatura aditiva.
A escolha de Campinas como sede do projeto reforça uma vocação construída ao longo de décadas. A cidade concentra algumas das principais instituições de ensino e pesquisa do país, como a Universidade Estadual de Campinas, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, além de centros tecnológicos e empresas de referência. “Há estudos internos desde a década de 1970 que já apontavam Campinas como um local estratégico para iniciativas desse tipo”, afirma o general.
Esse ecossistema consolidado é visto como um dos principais ativos do novo polo, mas também como um desafio. A integração entre estruturas já estabelecidas e novos empreendimentos exige articulação e cooperação entre diferentes atores. Para Karina Castro, engenheira de computação do CPqD, o cenário é promissor. “É sempre interessante que a cidade onde ficam empresas de tecnologia tenha cada vez mais inovação de ponta. Isso gera conhecimento, novos desafios e novas possibilidades de parcerias. Todos têm a ganhar”, afirma.
De acordo com ela, instituições consolidadas terão papel fundamental na sustentação do novo projeto. “O CPqD é muito envolvido com parcerias, trabalha com universidades, governo e Exército há muitos anos. Acredito que é uma das empresas que pode contribuir bastante com troca de experiências e desenvolvimento conjunto”, explica.

Ainda assim, a especialista alerta para a competitividade do setor. “A região de São Paulo e Campinas é o principal polo de tecnologia do país. A concorrência é forte, por isso a aproximação com empresas locais será essencial para que o novo polo se consolide”, avalia.
A proposta do parque também aposta na integração prática entre setor militar, academia e iniciativa privada. De acordo com Corbari, o espaço deverá funcionar como um agente articulador, promovendo a conexão entre empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança, pesquisadores e instituições de ensino. A expectativa é criar uma rede de inovação de alta densidade tecnológica, capaz de gerar soluções aplicáveis tanto ao setor militar quanto ao civil.
Esse caráter dual das tecnologias é apontado como um dos principais potenciais do projeto. “As áreas de atuação envolvem setores como saúde, comunicações, energia e transporte. Isso amplia o impacto das inovações e contribui para a geração de empregos qualificados e o fortalecimento da indústria nacional”, destaca o general.
A existência de demanda para essas áreas é consenso entre os especialistas. Para Karina, o sucesso do novo polo dependerá da capacidade de acompanhar tendências globais e se antecipar às transformações do mercado. “Sem dúvidas existe demanda, principalmente se houver investimento em inteligência artificial e tecnologias de ponta. A proximidade com universidades também é fundamental para ampliar o conhecimento e as possibilidades”, afirma.
Nesse contexto, Campinas se mantém como um território estratégico para o avanço da inovação no país. A combinação entre tradição acadêmica, presença industrial e novos investimentos aponta para um cenário de expansão, ainda que dependente de planejamento e articulação. O novo polo tecnológico, mesmo antes de sair do papel, já sinaliza um movimento de fortalecimento dessa vocação.
Orientação: Rose Bars
Edição: Eloah Dias

