Reportagens Saúde

Falta de geriatras no Brasil agrava crise no diagnóstico em idosos 

Escassez de especialistas e o preconceito etário retardam a detecção de doenças e diminuem a qualidade de vida de pessoas na terceira idade 

Por Anielly Ferreira, Raquel Piveta e Valentina Sclauser

A carência de médicos geriatras e a barreira do preconceito etário geram um cenário crítico na saúde pública brasileira. De acordo com dados da pesquisa da Demografia Médica do Brasil de 2025, o país conta com 3.167 médicos especialistas em geriatria, o que equivale a um geriatra para mais de 10 mil idosos brasileiros, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que constatou que 32,9 milhões de pessoas acima de 60 anos vivem no Brasil hoje. No entanto, esse número não atende o aconselhado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que recomenda que haja um médico geriatra para cada 1 mil habitantes. 

Com apenas um geriatra para cada 10 mil idosos, Brasil enfrenta “apagão” na especialidade (Foto: Duda Fortes/ Agência RBS) 

A geriatra Andréa Figuerêdo explica a importância do acompanhamento com um especialista, garantindo que consultar apenas com um clínico geral não é suficiente. “O clínico está focado em ver um conjunto de sintomas e tentar encaixar em uma doença, seguindo um raciocínio mais protocolar. Na geriatria, a gente precisa olhar o paciente como um todo, fazer essa abordagem ampla, individualizada, considerando todo o contexto que o paciente vive. Essa abordagem permite diferenciar o que é esperado no envelhecimento de patologias que exigem intervenção imediata”, esclarece. 

A especialista conta que é comum confundir sintomas de alguma patologia com algo “normal da idade”, o que atrasa o diagnóstico. Figuerêdo exemplifica a questão: “As pessoas encaram o esquecimento como algo normal e quando chegam para o consultório já estão com uma fase de demência propriamente dita. É muito importante que se procure ajuda o quanto antes para que a gente consiga fazer essa prevenção e evitar uma complicação mais séria”, comenta. Sem o olhar treinado de um geriatra, esses sinais de alerta passam despercebidos, permitindo que a enfermidade avance sem qualquer controle. 

No entanto, apesar da importância descrita pela especialista, muitos idosos não veem uma necessidade real de consultas com geriatras. Carlos Eduardo da Silva, de 77 anos, afirma já ter se consultado com um médico da área, mas que acha desnecessário. “Eu fui uma vez no geriatra, uma consulta de rotina. Achei ele muito mais suave, fez uma série de perguntas e me liberou. Mas, sinceramente, eu não gostei, prefiro ir ao clínico”, conta. 

Andréa Figueiredo explica que realmente há uma diferença entre a abordagem de um geriatra e de um clínico. “O geriatra tem a especialização em idoso, sobre o envelhecimento humano, sobre as doenças mais prevalentes, o que difere na abordagem. O idoso não é um adulto que envelheceu, ele tem as peculiaridades. Na geriatria, a gente vê o indivíduo, a família, incluindo também a equipe multidisciplinar, ou seja, uma avaliação muito mais ampla e mais completa do que a abordagem de um clínico geral”, informa. 

O diagnóstico tardio influencia diretamente na qualidade de vida dos idosos, e a falta de acompanhamento geriátrico é um dos principais fatores que atrasam a identificação de uma patologia nessa faixa etária, como relata a geriatra. “O acompanhamento geriátrico regular e precoce já identifica o problema, a gente já trata o quanto antes e minimiza as complicações e a progressão da doença. A ausência desse acompanhamento faz com que as pessoas não diagnostiquem uma doença degenerativa como Alzheimer”, explica. 

Lúcia Santos é cuidadora de idosos há 20 anos e observa diariamente o impacto desses atrasos. Ela relata que a principal dificuldade dos idosos é a perda da independência para tarefas simples. “Acredito que o diagnóstico tardio transforma cuidados básicos em rotinas complexas de suporte, reduzindo o bem-estar e a independência”, afirma. Para ela, a detecção precoce traria mais dignidade e menos sofrimento para o idoso e para quem cuida. 

Idair Campos Lima, de 82 anos, conta sua experiência com a geriatria, e afirma que o atendimento foi essencial para um diagnóstico precoce que elevou sua qualidade de vida. “Eu achava que o cansaço que eu sentia era só o peso dos anos chegando”, relata. Somente após uma consulta especializada foi identificado que o sintoma era, na realidade, uma condição cardíaca tratável. “Se eu tivesse esperado mais, talvez não estivesse aqui para contar”, desabafa o aposentado sobre o perigo de normalizar o mal-estar. 

No entanto, idosos não terem o costume de se consultarem com geriatras não é um problema originado apenas da população, mas vem, principalmente, da falta de profissionais na área. Dados do Conselho Federal de Medicina, apontam que o Brasil enfrenta um apagão da especialidade. Segundo o IBGE, em regiões como Campinas, onde o índice de envelhecimento é superior à média nacional, “a demanda é urgente, pois o déficit deixa a população vulnerável a tratamentos tardios e ineficazes”, reforça a médica.  

Essa escassez sobrecarrega o sistema de saúde e aumenta os custos com internações que poderiam ser evitadas com manejo preventivo. Diagnosticar tardiamente custa caro ao país e, principalmente, às famílias, que enfrentam uma sobrecarga emocional e financeira repentina, de acordo com a geriatra. 

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Eloah Dias

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