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“O Brasil é muito rico culturalmente”

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ENTREVISTA Jornalista Adriana de Barros fala do cenário musical brasileiro, recomenda seus álbuns favoritos e exalta as mulheres no mundo musical

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Por Enzo Zaros

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Adriana de Barros, jornalista e apresentadora, é de Santo André, no ABC Paulista, sempre foi fã de música e começou sua carreira de forma inusitada. “Eu só queria assistir shows de graça”, exclama. Hoje, a especialista em música e entretenimento conduz o “Mistura Cultural”, da TV Cultura, atua como editora nos canais digitais da emissora e recentemente estreou o programa “Afiadas”, com foco em mulheres do mundo musical.

A jornalista foi uma das convidadas na “Jornada do Jornalismo” da PUC-Campinas e conversou com os alunos em forma de bate-papo, com perguntas e respostas dinâmicas. Temas como a falta de reconhecimento de músicos regionais, assessoria de imprensa e até a headline do Lollapalooza foram alguns dos assuntos colocados em pauta. Pós-evento, ela conversou de forma mais aprofundada sobre sua carreira e vivências. Nesta entrevista ela fala sobre o começo de sua história com a música e o jornalismo, sobre seus álbuns favoritos e o consumo acelerado no mundo musical.

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Como iniciou sua trajetória no mundo da música e como teve essa união com o jornalismo? O que veio primeiro?
Logo que saí do ensino médio, comecei trabalhar na rádio 97FM, a primeira rádio rock de São Paulo, sediada em Santo André, minha cidade natal. Comecei atendendo ouvintes que ligavam para pedir música. Eu anotava e passava ao programador, para o programa com as mais pedidas. A partir disso, fui me envolvendo na promoção, cobertura de eventos e edição. Sempre fuçando em tudo. Em paralelo, eu tinha que prestar vestibular e aí escolhi o jornalismo para que eu pudesse aprender mais e seguir na rádio em outros departamentos. Foi dessa maneira que cheguei ao jornalismo. Na época, as universidades ainda não tinham opção de Rádio e TV.

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Qual foi a experiência mais marcante que a música já te proporcionou?
Foram várias. Pude entrevistar alguns ídolos, fazer viagens, conhecer lugares e pessoas em coberturas de eventos no Brasil e no exterior. Por ter esse extenso número de trabalhos com diversos artistas, eu tive a oportunidade de participar do Prêmio Multishow, que contém uma extensa academia formada por jornalistas culturais.

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Qual foi o entrevistado que te surpreendeu e rendeu uma entrevista que você não estava esperando?
Foram muitos. Em toda entrevista sou surpreendida e vejo como uma aula. A entrevista que me surpreende é aquela em que o entrevistado esquece que está sendo entrevistado. A pauta pode ser simples, mas a conversa vira uma reportagem por si só. É por isso que estar sempre com o gravador e a mente ligados (como você faz com seu “disco rígido musical”) é a chave para que o conteúdo inesperado surja a qualquer momento.

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Como é feito o trabalho de analisar de forma crítica um álbum/disco? Você senta para escutar e depois escreve tudo de uma vez ou vai aos poucos?
Depende do projeto em que estou envolvida. Quando é um álbum apenas, eu ouço várias vezes até desenvolver a ideia, escrevo, depois ouço de novo, de novo, de novo. Escrevo, reescrevo e, quando me dou por satisfeita, entendendo que consegui transmitir o que senti em relação ao trabalho e dou como finalizado. Em editais, eu ouço apenas uma vez, porque geralmente o volume de projetos é muito grande. Não gosto de ouvir tudo de uma vez para meu ouvido não ficar ‘viciado’, e eu, de alguma maneira, prejudicar o artista.

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Você tem a música como paixão, mas também como parte do trabalho. Qual a maior dificuldade para separar as duas coisas? O trabalho te atrapalha a curtir um som por puro lazer?
Não tem mais essa separação. Acaba sempre virando trabalho, mas sempre estou me divertindo. Pode ser que eu não use aquele conteúdo em um primeiro momento, mas ele sempre estará em minha mente para que seja usado no momento oportuno. Seja em uma cobertura, em um texto ou em uma entrevista. Eu raramente consigo ouvir uma música nova sem pensar na sua contextualização e na recepção do público.

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Como e quando surgiu a ideia do “Afiadas”? Sendo um programa que atende um nicho bem específico, qual o objetivo do programa?
Bom, o Afiadas é um programa produzido e criado pela ONErpm, que é uma distribuidora digital e eu fui convidada para apresentar. A gente gravou com as meninas, só mulheres, que trabalham nos bastidores da música. Então, a gente tem engenheira de som, produtora, iluminadora, cantora, musicista, professora de música, empresária. Todas as mulheres que fazem parte do ecossistema da música, não necessariamente em cima do palco. O programa vai ao ar toda segunda-feira, às 11 da manhã, no canal do YouTube da ONErpm, nas redes sociais da ONErpm. Eu estou muito feliz com esse programa, porque é muito legal, é muito bom ouvir as histórias das meninas e saber como elas entraram na música. E, às vezes, são pessoas que a gente não sabe que existem, né? O Afiadas dá visibilidade para essas mulheres que são importantes para que tudo aconteça, importantes para o show business. Eu me sinto muito honrada porque muito fala-se de sororidade, empatia, mas a gente vê pouco na prática, a ONErpm e o time da Yasmin e Amazonas pensa muito nisso e não só pensa como realiza. Então, é uma honra para mim apresentar, estar à frente desse programa. A gente já tem a primeira temporada pronta, que vai até dezembro, e já tô doida para gravar a segunda, espero que elas me convidem de novo.

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Afiadas’ da apresentadora coloca holofote nas mulheres do mundo da música (Foto: Enzo Zaros)

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Vivemos numa onda de popularização do TikTok e dos vídeos curtos. De que forma você enxerga o consumo acelerado dessa nova geração?
Acho desafiador. Acho ruim a maneira rasa do consumo e não ter um aprofundamento de determinado tema. No entanto, vejo como ferramentas de distribuição eficaz do conteúdo. Antes desses recursos existirem, os trabalhos tinham menos vazão.  A música não é mais consumida linearmente (do início ao fim de uma faixa ou álbum). O sucesso é determinado pela capacidade de um trecho de 15 segundos ser cativante, dançante ou emocionalmente ressonante para um vídeo. A viralização instantânea significa que uma música pode se tornar um sucesso global em semanas, mas também ser esquecida com a mesma rapidez, a menos que o artista invista pesadamente na sustentação do sucesso fora da plataforma. A longevidade da obra é o grande desafio. Ele democratiza a descoberta de música, mas desafia a longevidade da arte.

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A rotina de um jornalista já é bem corrida, como você foi parar no mundo de assessoria de imprensa? E como faz para conciliar essa tarefa tendo que cuidar do site da TV Cultura, o Mistura Cultural e do Afiadas?
Sobre eu ser assessora de imprensa, o Henrique Portugal que é tecladista do Skank, quando o Skank acabou, me convidou para fazer essa parceria, de cuidar do trabalho dele. Na época do Skank, eu entrevistei o Henrique muitas vezes, eu estava muito próxima dele, conheço a trajetória dele. Aí eu topei o desafio, para mim era um desafio, porque eu nunca tinha trabalhado do outro lado. Mas, foi legal, é legal, porque eu consigo vender as pautas do jeito que eu gostaria de receber. Então, depois do Henrique, alguns outros artistas começaram a me procurar. Agora, no momento, eu estou só com o Henrique e com o Projeto Clandestino, que é uma banda de Minas Gerais, uma banda de rock muito legal também. Não é algo que eu faça muito, justamente por conta do tempo.

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E como faz para conciliar essa tarefa tendo que cuidar do site da TV Cultura, o Mistura Cultural e do Afiadas?
O Afiadas, eu gravei, em quatro dias. Eu gravei acho que os quatro, oito, doze episódios. Como é semanal, acho que ele vai até o final do ano. O Mistura Cultural, eu faço a mesma coisa, eu gravo dois programas e também ele é semanal. Então, quando eu vejo que as coisas estão mais tranquilas na TV, aí eu consigo dividir o meu dia. Sobre o site da TV e as redes sociais, agora está me tomando bastante tempo. Mas a gente passa o dia todo em rede social, só que pra mim virou trabalho. Mas como é um trabalho que eu gosto, então nunca dá a sensação de que eu estou trabalhando, e ainda tento dividir minha manhã com um pouco de prática de esporte.

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Com alunos da PUC-Campinas Adriana recomendou rappers como FEBEM e FBC (Foto: Arquivo Pessoal)

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Agora uma curiosidade, como fã do cenário do skate, qual seu skatista favorito?
Tony Hawk. O momento mais icônico da carreira profissional dele foi em 1999, quando ele se tornou o primeiro skatista no mundo a completar a manobra “900” (duas voltas e meia no ar) em uma competição. Ele tinha 31 anos na época e essa manobra era considerada a maior do skate vertical.

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Para finalizar, quais são seus 3 álbuns favoritos da vida e por quê? E como fã de rap quais são os álbuns que você mais gosta?
Uma missão escolher apenas três porque vivemos em um país superprodutivo musicalmente, além dos álbuns internacionais que formaram minha personalidade. Vou tentar te responder com os álbuns que me vêm à mente neste momento.
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ÁLBUNS DA VIDA

The Clash – London Calling: Lançado em 1979, é um marco não apenas do punk ou do rock, mas um modelo de como a música pode ser um documento jornalístico de uma era. O Clash misturou reggae, ska, jazz e rockabilly. São meus gêneros favoritos, além do rap.

New Order – Substance: O New Order foi essencial para fundir o pós-punk com a música eletrônica e a dance music. Músicas como “Blue Monday” e “Bizarre Love Triangle” pavimentaram o caminho para a música pop moderna.

Chico Science e Nação Zumbi – Da Lama ao Caos: Não é apenas um álbum, é o manifesto do jornalismo cultural brasileiro dos anos 90, e um estudo de caso perfeito sobre identidade e regionalidade. O álbum provou que a música pode ser profundamente regional (com seus tambores de maracatu e gírias locais) e, ao mesmo tempo, ter ressonância global.

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ÁLBUNS DE RAP
Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC’s
Babylon By Gus – Black Alien
Nó na Orelha – Criolo

E atualmente o álbum que eu não paro de escutar é do rapper mineiro FBC, vulgo “padrim”, que lançou recentemente “Assaltos e Batidas”. O Brasil é um país muito rico, culturalmente, então fica difícil escolher somente 3 álbuns de rap ou até mesmo da vida.

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Ana Elisa Desiderá

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