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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Feminicídio deixa marcas permanentes nas famílias de Campinas 

Aumento de casos deixa dor, silêncio e reconstrução, marcando a vida de quem fica desamparado após o assassinato de mulheres na cidade

Por: Danilo Real e Lorena Bonfá

O feminicídio não termina na morte da vítima. A Região Metropolitana de Campinas tem registrado números crescentes desse tipo de crime ao longo dos oito anos. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as consequências dos atos de feminicídio se estendem para famílias inteiras que precisam lidar com o luto, traumas psicológicos e mudanças bruscas na rotina.

Em Campinas, o cenário acompanha uma tendência mais ampla. Segundo o Sisnov (Sistema de Notificação de Violência em Campinas), entre os anos de 2019 e 2024, a cada 100 notificações de violência na cidade, 69 acontecem com mulheres (sendo 36 mulheres brancas e 33 pretas ou pardas), o que evidencia a disparidade entre os gêneros.

Proporção de vítimas de violência segundo raça/cor e sexo de residentes de Campinas-SP entre os anos de 2019 e 2024

(Fonte: Sisnov)

Em Campinas, o aumento dos casos pressiona os serviços públicos. A secretária adjunta da Secretaria de Políticas para as Mulheres de Campinas, Grazielle Coutinho, comentou sobre a importância do apoio às vítimas. “Além do acolhimento à vítima, é fundamental oferecer suporte às famílias, principalmente aos filhos que muitas vezes também são vítimas indiretas dessa violência. Os acompanhamentos psicológico, social e jurídico são essenciais para a reconstrução dessas vidas. O principal obstáculo ainda é o medo. Medo de denunciar, medo das ameaças, da dependência financeira, do julgamento da sociedade e muitas vezes a falta de apoio familiar. Além disso, muitas mulheres nem conseguem identificar que estão vivendo um ciclo de violência.”

Grazielle Coutinho luta pela causa das mulheres na Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres (Foto: Danilo Real)

Entre 2018 e 2025, o município de Campinas registrou 57 casos de feminicídio, evidenciando que a violência de gênero segue como um problema estrutural na região. Na maioria dos casos, o feminicídio acontece no ambiente doméstico. Segundo pesquisa do SISNOV, os principais autores das violências notificadas em Campinas foram os cônjuges ou ex-cônjuges, totalizando 2.872 registros (42,1% dos casos). Isso faz com que o impacto seja ainda mais profundo, pois o local que deveria ser seguro se torna o cenário da violência.

Segundo dados do Sisnov, a violência física lidera entre as formas denunciadas no período de 2019 a 2024, seguida pela tentativa de suicídio, violência sexual e violência psicológica.

Total de notificações de violência contra mulheres residentes de Campinas-SP, por tipo de violência e ano de notificação entre os anos de 2019 e 2024 (Fonte: Sisnov)

Além da perda, muitas famílias precisam lidar com mudanças imediatas, como assumir a guarda de crianças, reorganizar a renda da casa ou até deixar o local onde viviam. Segundo o Instituto Maria da Penha, crianças que perdem suas mães para a violência de gênero apresentam maior risco de desenvolver traumas psicológicos e dificuldades sociais.

O luto em casos de feminicídio costuma ser complexo. Isso porque vem acompanhado de revolta, culpa e, muitas vezes, exposição pública. Além disso, conforme aponta o Conselho Nacional de Justiça, a duração dos processos judiciais faz com que familiares revivam constantemente o episódio, dificultando a elaboração do luto.

Isadora Balem é advogada especialista em advocacia para mulheres e avalia a eficácia das leis para as famílias das vítimas. “A legislação Maria da Penha está sempre em constante evolução e aprimoramento. Recentemente, por exemplo, tivemos a introdução do vicaricídio, tanto no Código Penal, como também na Lei Maria da Penha. Isso é um instrumento que é uma manobra, feita por homens, que praticam agressão na frente dos filhos, e contra os próprios filhos para atingir a mulher. E exige essa intenção específica que já foi mapeada pelas autoridades como recorrente nos casos de violência contra a mulher.”, afirmou.

Para a advogada, são necessárias mais políticas de conscientização para fortalecer as mulheres que sofrem violência. “Precisamos fazer um trabalho de conscientização e de informação para que a sociedade faça movimentos de fortalecer a decisão dessa mulher de sair de um relacionamento abusivo e procure ajuda, para que assim as instituições possam ampará-las nesses momentos”, disse.

A especialista diz que é necessário que as mulheres tenham plena consciência sobre o que é a violência contra a mulher. “Elas precisam saber quando estão inseridas num ciclo de violência, para que saibam o que fazer; é necessário que todos saibam que não existe um perfil de vítima, um perfil de agressor. Todos precisam compreender as dinâmicas de abusividade e poder envolvidas na violência, e que não é tão simples romper um ciclo, para que não julguem essa mulher, porque o julgamento da sociedade faz com que muitas mulheres desistam de denunciar”, contou.

Isadora Balem também julga o caminho percorrido por mulheres em situação de violência frente à justiça. “Muitas vezes elas precisam percorrer caminhos muito longos da justiça, que ao invés de facilitar a resolução dos problemas, dificulta. Poderia simplificar em um único processo a discussão da violência e a resolução das questões inerentes ao divórcio, à guarda, e à pensão dos filhos”, finalizou.

Para muitas famílias, manter viva a memória das vítimas é uma forma de enfrentamento. De acordo com o Instituto Maria da Penha, iniciativas de memória e conscientização têm papel importante na transformação do luto em ação social. Essas ações também contribuem para dar visibilidade ao problema e evitar que os casos sejam reduzidos a estatísticas.

Rebeca Cristina é ativista pelo direito das mulheres na cidade de Campinas e afirma que a maior dificuldade que as mulheres que vivenciam situações de violência possui é a falta de conhecimento sobre seus direitos e o medo. “Elas não conhecem os mecanismos para denunciar, nem os equipamentos onde elas podem pedir ajuda e muitas vezes são distantes. Também há muito constrangimento, o que é compreensível, mas precisamos quebrar essa barreira.”, contou.

Para a ativista, a melhor forma de combater a violência contra a mulher é com o acolhimento e informação. “Precisamos ajudar principalmente acolhendo, nunca duvidando da denúncia da vítima. Campinas tem duas delegacias da mulher, uma delas é 24h. Além disso, também conta com programas de acolhimento como Centro de Referência e Apoio à Mulher, o Ceamo, que pode encaminhar para outras políticas como Casas Abrigo ou Seguro Aluguel.

Orientação:Profa. Rose Bars

Edição: Gabriel Rosa