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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Vulnerabilidade social é mais intensa entre jovens em Americana

Historiador aponta que desigualdade tem raízes históricas e reflete em impactos sociais e econômicos

Por Ana Elisa Desiderá

Em Americana, cidade com população estimada em 247.571 habitantes em 2025, a vulnerabilidade social é mais intensa entre os jovens. Segundo dados da Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único, o município registra, até o mês de maio, 39.296 pessoas cadastradas em 2026.

O dado mais preocupante está na evolução do número de crianças e adolescentes de 7 a 15 anos, que eram 4.878 em 2020 e chegaram a 7.424 em 2026, um aumento de 52% em seis anos. Somando a faixa de 0 a 17 anos, o total de crianças e adolescentes vulneráveis é de 13.999.

Para a socióloga Camilla Marcondes Massaro, pesquisadora do Observatório PUC-Campinas, o aumento no Cadastro Único está ligado aos reflexos da pandemia e ao custo de vida, mas deve ser entendido para além do repasse financeiro.


O CadÚnico é o principal banco de dados do Governo Federal usado para identificar e mapear as famílias de baixa renda no Brasil. A ferramenta funciona como uma “porta de entrada” para a concessão de benefícios sociais.


Ela argumenta que o Cadastro Único funciona, na verdade, uma porta de entrada para a cidadania. “Trata-se de um cadastro através do qual as pessoas podem acessar direitos sociais no formato do que se chamam de benefícios, mas são direitos de ter, minimamente, acesso a recursos que possam possibilitar esse desenvolvimento social”, aponta.

A pesquisadora alerta que a desigualdade em Americana abrange questões como o acesso ao território e à dignidade. Em 2025, dados da Prefeitura mostram que 34% das famílias vivem em pobreza (até R$ 218 per capita) e 45% têm renda acima de meio salário-mínimo, mas ainda não alcançam autonomia.


“A vulnerabilidade não se refere só à falta de recursos financeiros e econômicos. Não estamos falando só de falta de dinheiro. Estamos falando de falta de acesso a todos os tipos de direito, como à cultura, esporte, lazer, à própria segurança de saber que os seus direitos, as suas necessidades serão respeitadas”.

Camilla Marcondes Massaro, socióloga e pesquisadora do Observatório PUC-Campin


Esse cenário impacta diretamente a saúde pública. Massaro pontua que a carência de infraestrutura básica, como coleta de lixo e saneamento, promove um ciclo desigual que compromete o desenvolvimento físico e cognitivo infantil.

CIDADE FRAGMENTADA
A distribuição geográfica da vulnerabilidade social em Americana revela uma cidade fragmentada. As inscrições no CadÚnico mostram que a região do São Jerônimo concentra o maior volume de famílias no CadÚnico, 3.203, seguida pela Cidade Jardim/Jardim Alvorada, com 2.610 e Praia Azul, que soma 2.252 cadastros. Em contrapartida, a região Central registra apenas 326 famílias.

Para o arquiteto e urbanista americanense Victor Chinaglia, essa divisão é fruto de decisões que priorizam o mercado em detrimento do social. Ele aponta que o zoneamento, ao criar as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), acaba institucionalizando uma separação de classes.

“O que ‘estraga’ a cidade não são os bairros mais populares, o que ‘estraga’ a cidade são as áreas que excluem a população que não tem recurso. O que estraga a cidade é ter várias cidades no mesmo território, isso representa um ‘apartheid urbano’”.

Chinaglia ressalta que a precariedade em ocupações como o Monte Verde, onde vivem 2.000 famílias sem infraestrutura, não é uma falha técnica, mas uma opção política de “esconder os pobres no meio do canavial”.

O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), calculado pela Fundação SEADE com base no Censo IBGE 2022, corrobora para essa análise, visto que enquanto 172.302 pessoas viviam em áreas de “Muito Baixa Vulnerabilidade”, 10.038 indivíduos estão em áreas de “Alta” ou “Muito Alta” vulnerabilidade, marcadas pela precariedade de saneamento e serviços.

Para a socióloga, o IPVS é um indicador que mede além da renda, captando a capacidade do território de oferecer ou negar dignidade. Segundo ela, as áreas classificadas vulneráveis são aquelas onde a criança sofre “violação de diversos direitos”.

CARIOBA FOI UM MARCO
Na visão de André Maia, historiador e presidente do Instituto 12 de novembro, entidade dedicada à pesquisa e preservação da memória histórica de Americana, a desigualdade social no município não é um fenômeno acidental, mas um pilar que remonta à própria formação do município. Segundo Maia, a história da cidade está ligada à reinauguração da fábrica de tecidos Carioba, em 1902, pela família Müller.

Ele indica que esse evento não foi importante apenas para a economia do município, mas colaborou para decisão política focada na arrecadação tributária, requisito essencial para que o vilarejo conquistasse sua emancipação de Campinas em 1924.

Embora oferecesse casas com água e energia elétrica, o sistema era uma forma sofisticada de exploração da mão de obra. Os trabalhadores enfrentavam jornadas de 13 horas, vivendo sob um regime de “troca e dependência”. A fábrica provia a infraestrutura básica em troca de controle social.

Tal influência estendia-se à educação. Em 1913, de acordo com o pesquisador, a empresa entregou um prédio à Prefeitura de Campinas para a implantação de um grupo escolar. Maia descreve que, embora a gestão fosse pública, a escola servia aos interesses do polo industrial, consolidando a ideia de que a formação da infância estava vinculada à utilidade produtiva.

A desigualdade poderia ser verificada dentro das salas de aula. Maia resgata um relato do Senhor Osvaldo Passiuli, aluno do antigo Grupo Escolar, onde hoje funciona a Biblioteca Municipal, entre 1939 e 1940, que ilustra como a distinção social podia ser verifica entre as crianças.

“A professora falava: ‘Os que estão de sapatinho e meia sentem aqui na primeira fileira. Os que estão só de sapatinho sentem na fileira de trás. Os que estão sem sapatinho e meia ficam lá na terceira fileira’. Ela estava montando um negócio para eles tirarem uma foto. As pessoas conviviam, mas a distinção sempre esteve posta”.

Imagem aérea das fábricas de Carioba, em Americana (SP) (Foto: acervo pessoal/André Maia)

O homem que contou a história à Maia ainda procura pelo registro fotográfico, mas segundo ele, este relato é a prova de que, mesmo em um ambiente de convivência, a hierarquia social baseada na posse material era um fato pedagógico.

Se a segregação era simbólica na década de 1940, ela tornou-se geográfica entre 1972 e 1982. Sob o impulso de grandes multinacionais trazidas pela administração de Abdo Najar, como a Goodyear, Americana viveu um crescimento industrial. Em dez anos, a população dobrou, saltando de cerca de 60 mil para 120 mil habitantes

Este é, na visão de Maia, um período responsável pela configuração da desigualdade que se encontra em Americana atualmente. O planejamento habitacional não acompanhou a massa de trabalhadores que chegava em busca de emprego, resultando no surgimento das primeiras favelas e ocupações.

Somente a partir dos anos 1970, sob as administrações de Ralph Biase e Waldemar Tebaldi, que o poder público começou a estruturar uma rede de educação infantil para tentar conter a demanda reprimida deixada pela explosão demográfica. Criou-se um sistema educacional focado na infância que perduraria até meados de 2004, tentando mitigar o vácuo de direitos básicos que a rápida industrialização havia gerado.

Hoje, quando os dados apontam que a faixa de 7 a 15 anos no CadÚnico cresceu 52% desde 2020, Maia sugere que estamos olhando para o reflexo contemporâneo de um processo de exclusão que começou com a “terceira fileira” de alunos descalços e se consolidou na falta de solo urbanizado para os operários do século passado.

Leia mais:

2 – Educação em Americana ainda reflete desigualdades sociaispor Letícia Bordinhon

3 – Informalidade no trabalho compromete o futuro escolar das criançaspor Giovana Gazzetta

4 – Americana estrutura plano para reduzir desigualdade na infância – por Vitória Sadakane

5 – Da vulnerabilidade à esperança: iniciativas que transformampor Maria Fernanda Esmeriz

Desigualdade Social em Americana é um projeto das alunas de jornalismo da PUC-Campinas que investiga como a vulnerabilidade social molda a vida de crianças e adolescentes no município. É um retrato do legado histórico da cidade à esperança que mora na própria comunidade, algumas vezes ofuscada por dores e iluminada pelas iniciativas daqueles que acreditam.

Orientação: Adauto Molck

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