Dentro de um sistema de cooperativa, pequenos agricultores encontraram na economia solidária um caminho ecológico e sustentável financeiramente
Por Daniel Rosa, Johnny Lima e Madu Ferreira
Luís Pires, engenheiro agrônomo e agricultor de 55 anos, cultiva legumes orgânicos na Região Metropolitana de Campinas há mais de duas décadas. Vendendo pela Rede Livres, ele recebe cerca de R$ 8 por quilo. No mercado convencional, afirmou, um atravessador pagaria aproximadamente 30% a menos.
Para Antero Carvalho Vasconcelos, de 69 anos, a diferença é ainda maior. Ele produz hortaliças orgânicas em uma horta urbana no Jardim Baronesa, em Campinas, e vende direto ao consumidor pelo projeto que batizou de Horta 3B, “bom para a mente, bom para a saúde e bom para o bolso”. Vende suas folhas por cerca de R$ 6 a unidade. Com atravessadores, recebia entre R$ 1 e R$ 1,50.

Com um sistema já consolidado de produção e distribuição em massa, pequenos produtores encontram dificuldade para entrar no varejo agrícola. A economia solidária surge como alternativa. Dentro de uma estrutura cooperativista, sem atravessadores e com fácil acesso a produtos agroecológicos e orgânicos, cultivados sem agrotóxicos, agricultores da região sobrevivem em meio à forte concorrência do mercado convencional.
Os números expõem uma diferença grande e levantam uma questão central: por que um modelo que aumenta a renda do produtor e pode baratear o alimento para o consumidor ainda ocupa espaço limitado no debate público e nas políticas econômicas?
De acordo com o Observatório Nacional da Economia Popular e Solidária, a economia solidária propõe outra forma de produzir, comercializar e consumir. No modelo convencional, há separação entre donos e trabalhadores. Na economia solidária, os próprios participantes decidem e compartilham resultados e responsabilidades.
Esse modelo se baseia em quatro princípios: a cooperação, a autogestão, a ação econômica, isto é, a atividade voltada ao sustento do grupo e não ao lucro de um dono, e a solidariedade.
Na Região Metropolitana de Campinas, uma das iniciativas é a Rede Livres, financiada pelo Sindicato dos Químicos Unificados. O projeto não tem fins lucrativos. Atua na distribuição de alimentos agroecológicos e orgânicos, elimina intermediários e busca equilibrar a remuneração ao produtor e o preço ao consumidor.

Criada em 2018, segundo Arlei Medeiros, a rede tem hoje quatro unidades em Campinas e uma na Baixada Santista. Parte das lojas funciona em parceria com outras iniciativas, como o Armazém do Campo, ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Arlei Medeiros, coordenador da Rede Livres, explicou que, no sistema comum, o produtor recebe apenas uma fração do valor pago pelo consumidor, porque cada intermediário retira sua margem. Na economia solidária da Livres, o cenário muda. “O produtor participa da definição dos preços. Não há atravessadores. O valor agregado permanece mais próximo de quem produz”, afirmou.
A rede atende, em média, 150 famílias por mês, de acordo com o coordenador. Ela movimenta uma cadeia que vai de hortaliças e frutas a processados artesanais, como queijos, pães e cafés. A cesta, vendida por cerca de R$ 50, reúne alimentos da época e não permite a escolha dos itens. O modelo facilita o escoamento e incentiva o consumo sazonal.
Luís contou que sempre trabalhou com produção orgânica e nunca lidou com a convencional. Para ele, o cultivo agroecológico vai além do sabor, porque envolve o cuidado com o solo, com o meio ambiente e com a saúde de quem consome.
Desde a criação da Rede Livres, ele integra o projeto e afirmou nunca ter cogitado sair. Segundo ele, a permanência está ligada tanto à remuneração quanto ao modelo de comercialização adotado pela rede.
“É muito mais gratificante para o produtor saber para onde o seu produto está indo e que tem esse fundo social por trás. Fica até mais saudável essa relação entre o produtor e quem comercializa, ficou muito bom esse tipo de comercialização”, disse.
A agricultura não é a única fonte de renda de Luís. Ele também atua como músico e tem dois imóveis em Campinas, que complementam os ganhos.
Antero encontrou na agricultura urbana uma forma de complementar a aposentadoria e de manter uma rotina ativa. Para ele, a venda direta é o que torna o modelo viável. Sem intermediários, afirmou, a renda chega a dobrar ou triplicar o benefício previdenciário. “Se vender para atravessador, precisa plantar em grande escala para compensar. Aqui não tem como competir com isso”, explicou.

Para Antero, a lógica do sistema tradicional, que exige grande escala para ser minimamente rentável, é o que asfixia o pequeno produtor e o força a aceitar valores que mal cobrem os custos.
Essa autonomia financeira convive com incertezas. No início deste ano, chuvas destruíram cerca de 80% de sua produção. “O que sustenta nós é a roça. O governo deveria dar mais atenção para a agricultura”, afirmou. “Isso aqui me dá mais do que meu salário, mas depende muito. Às vezes vem uma doença e muda tudo.”
As experiências dos dois agricultores mostram que a economia solidária redistribui renda ao longo da cadeia, mas não elimina as dificuldades da atividade. Luís admitiu que viver só da produção seria difícil. Segundo ele, em períodos de renda menor, seria preciso recorrer ao crédito rural para manter a atividade.
Para especialistas, esses limites refletem a estrutura do próprio sistema agrícola brasileiro. O economista Vitor Hugo Tonin, doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp e assessor do Sindicato dos Químicos Unificados, que mantém a Rede Livres, afirmou que a economia solidária ainda não compete em igualdade com o mercado convencional, beneficiado por escala e por políticas públicas consolidadas.
“O mercado convencional é todo sustentado por subsídios. Tem subsídio no crédito ao produtor, tem subsídio na circulação de mercadorias. E, por ser muito maior, ele tem mais capacidade de pressão e arranca mais subsídio e mais política pública”, afirmou Tonin.
Segundo ele, a principal fragilidade do modelo agroecológico está na escala. A falta de volume reduz a previsibilidade e dificulta a expansão. Sem escala, os produtores ficam mais vulneráveis a oscilações e adversidades, sem a rede de segurança que os grandes já possuem.
Como alternativa, Tonin apontou a necessidade de ampliar a cooperação entre os pequenos produtores, sem perder a diversidade que caracteriza a agroecologia. “Para ganhar escala, a gente precisa trabalhar mais em redes, articular esses pequenos sem impor homogeneidade entre eles. Um dos princípios da economia solidária é justamente proteger essa diversidade”, afirmou.
Ele acrescentou que mudanças estruturais dependem de decisões políticas. Para o economista, o modelo dominante no país, baseado na produção de commodities para exportação, as matérias-primas agrícolas vendidas em larga escala, como soja e milho, é resultado de décadas de incentivo público. “A fragilidade não vem da economia solidária agroecológica em si, mas da falta de apoio e da diferença em relação ao outro modelo”, afirmou.
No plano local, o poder público tem programas voltados a esse circuito, ainda fora do alcance da maioria dos pequenos produtores. Campinas coordena a agricultura urbana e periurbana pelo programa Campinas Solidária e Sustentável, instituído pela Lei Municipal 16.183/2021 e regulamentado pelo Decreto 23.389/2024, que reúne a atuação de várias secretarias. Segundo Vandecleya Moro, secretária municipal de Desenvolvimento e Assistência Social e presidente da Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional, o município apoia 212 hortas cadastradas e que, só em 2025, registrou 52 novas. O programa de mudas, o Proamhor, distribuiu mais de 217 mil mudas desde o início.
O elo com a renda do produtor é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Por ele, a prefeitura compra direto do agricultor familiar e repassa a instituições sociais. Em 2025, afirmou Moro, o PAA beneficiou 52 agricultores familiares, movimentou R$ 579 mil e entregou 58 toneladas de alimentos a 42 instituições. “O alimento fresco da agricultura familiar chega sem os intermediários do mercado convencional, mais próximo da origem”, disse a secretária.
O acesso a esse mercado público, porém, esbarra na documentação. O PAA exige a CAF, o Cadastro da Agricultura Familiar, voltado ao produtor rural. “Devido às exigências federais, o agricultor urbano nem sempre consegue se cadastrar”, afirmou a secretária, que disse haver expectativa de um documento correlato para a agricultura urbana. É a mesma barreira de escala que Tonin aponta no mercado, agora no balcão do Estado. O pequeno produtor urbano, que vende na feira ou pela rede solidária, fica à margem da compra pública que poderia ampliar sua renda.

A agricultura familiar não é um setor marginal. Pelo Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, ela responde por 76,8% dos estabelecimentos agropecuários do país e por 67% das pessoas ocupadas no campo, embora gere 23% do valor bruto da produção. Os números mostram um setor que emprega muito e fatura pouco em relação ao agronegócio de exportação.

Para Antero, a experiência vai além dos números. Ele define o próprio trabalho como “um pingo d’água no oceano”, mas acredita que representa uma alternativa real de vida e de consumo. Para ele, a horta é, acima de tudo, um exercício de liberdade, em que o lucro é o meio para viver com tranquilidade, e não um fim em si.















