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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Sem regra para reembolso, home office transfere custos a trabalhadores 

Gastos antes ligados ao escritório, como luz, internet e equipamentos, passaram a fazer parte da rotina financeira de trabalhadores remotos 

Por Bianca Freitas, Gabriela Moda e Maria Luísa Faustino 

O trabalho remoto perdeu força no Brasil nos últimos anos, atingindo 7,9% dos trabalhadores em 2024, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A PNAD é o principal levantamento sobre o mercado de trabalho no país. O percentual considera um universo de 82,9 milhões de ocupados, que exclui servidores públicos e trabalhadores domésticos. Enquanto empresas intensificam o retorno ao modelo presencial, profissionais que permaneceram em home office continuam arcando com despesas que antes eram custeadas pelos empregadores, como energia elétrica, internet, mobiliário e equipamentos.

Ao mesmo tempo, o número de empresas que oferecem auxílio para o trabalho remoto caiu de 45% em 2021 para pouco mais de 27% em 2024, segundo o levantamento Planeta Firma 2025, da Leme Consultoria e da Swile, evidenciando uma transferência gradual desses custos para o orçamento dos trabalhadores.

Mesmo com a redução do número de trabalhadores em home office nos últimos anos, o modelo deixou de ser uma solução temporária e passou a integrar a rotina de milhares de profissionais. Nesse cenário, a responsabilidade pelos custos do trabalho remoto continua sendo uma das principais lacunas da modalidade. A Lei nº 14.442/2022, conhecida como Lei do Trabalho Remoto, regulamenta o teletrabalho no Brasil e determina que o contrato de trabalho deve estabelecer quem será responsável pelas despesas com equipamentos, infraestrutura e demais custos necessários à atividade. No entanto, a legislação não fixa um valor mínimo para reembolso, abrindo espaço para acordos distintos entre empresas e trabalhadores.

Na prática, isso significa que despesas como energia elétrica, internet de alta velocidade, mobiliário ergonômico e manutenção de equipamentos podem ser assumidas parcial ou totalmente pelos próprios funcionários. Para o economista Luiz Felipe Portelinha, mestre e doutorando em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), esse cenário representa uma mudança na distribuição dos custos da atividade produtiva. “Todos os custos relacionados ao trabalho e à manutenção dessa pessoa no trabalho passam para ela. A energia é você quem paga, a internet é você quem paga. É uma transferência total de custos”, afirma.

Para o economista Luiz Felipe Portelinha, parte dos custos operacionais antes assumidos pelas empresas foi transferida ao orçamento dos trabalhadores com a expansão do home office (Foto: Maria Luísa Faustino)
Marília Coimbra trabalha em regime híbrido e afirma que precisou absorver despesas com energia elétrica e equipamentos para manter a rotina de trabalho em casa (Foto: Arquivo pessoal)

Marília Coimbra, coordenadora de redação, faz parte desse grupo de trabalhadores que absorveu parte dos custos do trabalho remoto. Em regime híbrido, com quatro dias de trabalho em casa e um no escritório, ela nunca recebeu auxílio home office e utiliza equipamentos próprios para desempenhar suas atividades. O aumento na conta de energia elétrica foi um dos primeiros impactos percebidos, mas, segundo ela, os gastos vão além das despesas mensais. “O computador que eu tenho aqui e uso para trabalhar é meu. Hoje sinto necessidade de trocar o equipamento, mas um modelo que atenda às demandas do meu trabalho custa entre R$ 4,5 mil e R$ 5 mil”, relata.

A profissional também avalia que a ausência de qualquer tipo de auxílio acaba transferindo integralmente esses custos para o trabalhador. Além do investimento em equipamentos, ela afirma que a conta de energia elétrica aumentou desde que passou a trabalhar quatro dias por semana em casa, mantendo computador, iluminação e, em dias mais quentes, o ar-condicionado ligados durante toda a jornada. Apesar disso, diz que o impacto financeiro nem sempre é percebido no dia a dia. “Quem está em home office não fica pensando o tempo todo que está gastando mais para trabalhar. Mas, quando você coloca as coisas na balança, coloca tudo no papel, vê que o home office pesa, sim, na conta final do mês”, afirma.

A experiência do analista de segurança de software Lucas Blasquez mostra que, mesmo quando existe ajuda de custo, ela nem sempre acompanha as despesas do trabalho remoto. Durante a pandemia, ele recebia R$ 180 mensais da empresa para auxiliar no pagamento de gastos relacionados ao home office. Com o fim do benefício, no entanto, o custo permaneceu. Hoje, ele estima que continua desembolsando aproximadamente esse valor para manter a rotina de trabalho em casa. “O benefício ajudava a pagar a internet, mas estava longe de cobrir todas as despesas do expediente”, afirma.

Mesmo quando recebia auxílio home office, Lucas Blasquez afirma que o valor não era suficiente para cobrir todas as despesas do trabalho remoto (Foto: Bianca Freitas)

Segundo Lucas, além de contas como energia elétrica e internet, o home office gera gastos que passam despercebidos no dia a dia, como o consumo de água, produtos de limpeza e o desgaste de móveis e equipamentos. “Você acaba utilizando toda a estrutura da casa para trabalhar. São despesas pequenas quando vistas separadamente, mas que, somadas no fim do mês, fazem diferença no orçamento”, diz.

O caso de Lucas também levanta outra questão: quando havia auxílio, ele não cobria a despesa, e, quando o benefício acabou, o custo permaneceu com o trabalhador. Como a lei não fixa um piso para o reembolso, trabalhadores de diferentes empresas convivem com realidades bastante distintas, desde o auxílio mensal até a ausência de qualquer compensação.

Do lado das empresas, a leitura é outra. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) sustenta que o home office, quando bem planejado, reduz custos para os dois lados da relação de trabalho. Para a entidade, o trabalhador economiza com transporte, alimentação e vestuário, enquanto a empresa diminui gastos com energia e aluguel ao manter estruturas físicas menores. A federação pondera ainda que a responsabilidade pelas despesas do trabalho remoto, incluindo a aquisição, a manutenção e o fornecimento de equipamentos, é matéria de contrato, e que o reembolso de gastos arcados pelo empregado deve constar expressamente do acordo firmado entre as partes.

Afinal, quanto custa trabalhar de casa?

Embora seja comum associar o home office ao aumento das contas de energia elétrica e internet, o impacto financeiro da modalidade vai além das despesas mensais. Os trabalhadores ouvidos pela reportagem relataram gastos mensais que vão de cerca de R$ 180 a perto de R$ 400 para manter a rotina de trabalho em casa, sem considerar investimentos maiores, como a compra de computadores e mobiliário.

Segundo Portelinha, o trabalho remoto transferiu para os trabalhadores uma série de despesas que antes faziam parte da estrutura operacional das empresas. Isso inclui a compra de computadores, cadeiras ergonômicas, mesas, monitores, periféricos e, em alguns casos, reformas e adequações do espaço. “Não é só a conta de luz. Há custos com infraestrutura, equipamentos e manutenção do ambiente de trabalho. Tudo isso passa a ser responsabilidade do trabalhador”, explica.

Na prática, o peso dessa conta varia conforme o tipo de atividade, a política adotada por cada empresa e a estrutura já disponível na residência do trabalhador. Ainda assim, os relatos ouvidos pela reportagem mostram que, mesmo quando existe ajuda de custo, ela nem sempre é suficiente para cobrir os gastos necessários para manter uma estação de trabalho adequada dentro de casa.

Embora o retorno ao trabalho presencial tenha reduzido o número de profissionais em home office no país, o modelo permanece consolidado em diversos setores da economia, especialmente nas áreas de tecnologia, comunicação e serviços. Para os trabalhadores que seguem em regime remoto ou híbrido, a conta do expediente continua incluindo despesas que, antes da pandemia, faziam parte da estrutura das empresas.

Sem uma definição legal sobre valores mínimos para o reembolso desses gastos, a responsabilidade pelo custeio do trabalho remoto permanece condicionada ao que é estabelecido entre empresa e empregado. Isso faz com que profissionais em situações semelhantes convivam com realidades distintas: alguns recebem auxílio financeiro, outros utilizam equipamentos fornecidos pelas empresas e outros arcam integralmente com os custos para manter o trabalho funcionando dentro de casa.

O alcance dessa transferência, no entanto, é objeto de disputa. Para o setor empresarial, representado pela FecomercioSP, o trabalho em casa também alivia o bolso do trabalhador, que deixa de gastar com deslocamento e refeições fora de casa, de modo que parte do aumento das contas domésticas seria compensada por essas economias. Entendimento semelhante já apareceu na Justiça do Trabalho, em decisões que negaram o direito ao ressarcimento de pequenos acréscimos de energia e água sob o argumento de que eles são equilibrados pela ausência de transporte. O contraponto não anula o problema relatado pelos trabalhadores, mas mostra que a divisão da conta do home office permanece em aberto.

Mais do que uma mudança no local de trabalho, o home office alterou a forma como os custos da atividade profissional são distribuídos. Enquanto as empresas reduzem parte de suas despesas operacionais, trabalhadores em regime remoto ou híbrido passaram a incorporar esses gastos ao orçamento doméstico, tornando visível um custo que, durante anos, permaneceu praticamente invisível.

Orientação: Profº Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves