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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Expansão dos data centers pressiona recursos hídricos na Região de Campinas 

Uso de tecnologias que consomem milhões de litros de água e a falta de transparência sobre os impactos reais acendem o alerta para o estresse hídrico 

Por Giovana Gazzetta e Julia Ferreira

A cada interação com a inteligência artificial, uma engrenagem física entra em ação a quilômetros de distância. Data centers são estruturas que abrigam servidores e processadores responsáveis pelo armazenamento e processamento de mais de 2,5 milhões de terabytes de dados por dia, que demandam um funcionamento contínuo, geram calor constantemente e dependem de sistemas de resfriamento que operam sem interrupção. 

Fernando Caneppele, especialista na área energética e professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP), avalia que a principal preocupação hoje é a velocidade desacompanhada de planejamento. “A fila de conexão cresce mais rápido que a expansão de geração e transmissão. Preocupa também a volta de fontes fósseis (e gás) para suprir demanda imediata, o estresse hídrico e a concentração geográfica criando ilhas de sobrecarga.” 

Os investimentos bilionários anunciados para a construção de data centers em Hortolândia e Sumaré colocaram a Região Metropolitana de Campinas no centro da corrida pela inteligência artificial no país. A Microsoft prevê investir R$ 14,7 bilhões no Brasil até 2027, enquanto a Ascenty anunciou um complexo voltado exclusivamente para IA estimado em R$ 30 bilhões. Os empreendimentos não só reforçam a posição da região como um dos principais polos de infraestrutura digital da América Latina, como também levantam questionamentos sobre seus impactos em uma área que convive há décadas com restrições hídricas. 

Os números ajudam a dimensionar a escala dessa expansão. Segundo levantamento da consultoria Binswanger (2025), Campinas e Barueri concentram cerca de 30 data centers e 302 megawatts (MW) de capacidade instalada, com projeção de alcançar 487 MW nos próximos anos. Para efeito de comparação, um data center médio pode consumir cerca de 2 milhões de litros de água por dia para resfriamento, o que equivale ao consumo de 6500 residências. Já os de maior porte, chamados de hyperscale, podem chegar a usar de 11 a 20 milhões de litros por dia. 

Na avaliação do professor Daniel Cordeiro, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e pesquisador principal do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cidades Carbono Neutro, a crescente demanda por processamento de inteligência artificial tem transformado os data centers em uma das infraestruturas mais estratégicas da economia digital.  

O avanço desses empreendimentos na região acompanha uma tendência mundial de expansão da infraestrutura digital. Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), publicado em abril de 2026, aponta que cinco grandes empresas de tecnologia ultrapassaram US$ 400 bilhões em gastos de capital em 2025. A previsão é de crescimento superior a 75% em 2026, com grande parte desses investimentos destinada à expansão de data centers. O Federal Reserve dos EUA registrou que as empresas já anunciaram mais de 1,5 trilhão de dólares em projetos de desenvolvimento dessa infraestrutura no mundo. Cordeiro resume: “O digital não é virtual. Precisamos de muitos equipamentos físicos para fazer tudo funcionar.”  

A infraestrutura física por trás da IA 

Para muitos, a inteligência artificial é equivalente a um software, uma janela no celular ou uma resposta que aparece na tela, mas o que permanece invisível é uma estrutura colossal que viabiliza cada interação. Cordeiro ressalta que “isso exige um grande prédio (do tamanho de prédios industriais) para armazenar os computadores, os sistemas de comunicação, os sistemas de refrigeração, subestações de energia etc. Hoje, grandes data centers são complexos industriais que ocupam áreas equivalentes a vários campos de futebol.” 
 
A demanda por esses complexos cresce de forma acelerada, especialmente com a popularização da IA generativa. “Os custos dos serviços tradicionais estavam prioritariamente ligados aos custos de armazenamento e transmissão de dados, enquanto os custos de ferramentas de IA estão ligados aos custos de processamento de muitas operações matemáticas em tempo real”, complementa Cordeiro. 
 
O treinamento de um único modelo moderno ilustra essa dimensão. Esse tipo de computação exige servidores mais potentes, de alto custo e consumo energético muito superior ao da infraestrutura digital tradicional. Treinar e operar modelos de IA generativa exige o uso simultâneo de milhares de computadores por longos períodos. Em alguns casos, o treinamento de um único modelo pode durar meses de processamento ininterrupto. Em discurso público, em 2024, Mark Zuckerberg chegou a mencionar o uso de mais de 100 mil GPUs para treinar o Llama 4, a última versão do modelo da Meta.  
 
Sistemas de resfriamento 
 
Caneppele  afirma que “praticamente toda a eletricidade que entra vira calor nos chips, e esse calor precisa ser removido continuamente para manter os servidores em faixa segura — entre 18 e 27°C. É energia gasta para ‘desfazer’ o calor, não para computar”. O sistema de resfriamento é a parte mais crítica de todo o processo. “Em caso de falha, o aquecimento dentro da data hall aumenta exponencialmente, fazendo com que os servidores se desliguem por sobretemperatura”, explica o engenheiro elétrico, Marcos Ciorlin. 

Todo esse aparato de resfriamento não é barato em energia. Segundo Ciorlin, os equipamentos de refrigeração, em funcionamento conjunto, consomem entre 25% e 35% de toda a energia de um data center.  Com o avanço da IA, o cenário torna-se mais alarmante. “Os data centers do tipo Hyperscale antes da IA consumiam cerca de 5-10kW por rack, já os data centers que rodam processamento de IA consomem de 50-80kW por rack. O principal motivo é que servidores de IA utilizam muitas GPUs (Unidade de Processamento Gráfica), num único rack, e sua capacidade de processamento é muito maior, logo, quanto mais concentração de processamento, mais energia gasta e mais calor é liberado por metro quadrado”, afirma o engenheiro. 
Cordeiro destaca que o elevado consumo hídrico dos data centers tem se tornado uma preocupação crescente em diferentes países, especialmente diante da expansão da inteligência artificial e da necessidade constante de resfriamento dos equipamentos. 

Por outro lado, Marcos Ciorlin afirma que parte do setor tem adotado tecnologias mais eficientes para reduzir o consumo hídrico dos sistemas de resfriamento. Segundo ele, indicadores como o Water Usage Effectiveness (WUE) permitem monitorar a quantidade de água utilizada em relação ao consumo energético dos equipamentos de TI, contribuindo para o controle dos impactos ambientais.  

CAG – Central de água gelada com 3 Chillers e 1 tanque de termoacumulação de água gelada utilizada para resfriar servidores em um data center (Foto: Giovana Gazzetta) 


No entanto, o uso de água continua presente em parte dos empreendimentos. A quantidade consumida varia de acordo com o sistema de resfriamento adotado por cada operação. Sistemas de circuito fechado com condensação a ar, considerados padrão em muitos data centers brasileiros, apresentam demandas hídricas diferentes das observadas em estruturas que utilizam torres evaporativas.  
 
A discussão ganha relevância diante dos projetos previstos para a Região Metropolitana de Campinas. Em material apresentado à comunidade local, a Microsoft informou que espera utilizar torres evaporativas em cerca de 10% do período de operação, acionando o sistema apenas quando as temperaturas ultrapassarem 29,4°C. Entretanto, levantamento realizado pelo Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, a pedido da Folha de S.Paulo, aponta que a temperatura máxima diária superou esse patamar em 44,48% dos dias monitorados nos últimos 30 anos. 

Bacias do PCJ e o estresse hídrico 

Rio Piracicaba integra as Bacias PCJ, responsáveis pelo abastecimento de milhões de pessoas na Região Metropolitana de Campinas (Foto: Giovana Gazzetta) 


 
A Região Metropolitana de Campinas está inserida nas Bacias Hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), uma área de estresse hídrico crônico desde os anos 1980. A chegada de grandes empreendimentos de alto consumo reacende um debate que a região conhece bem. Para Murilo Ferreira de Santanna, do Consórcio PCJ, o processo regulatório existe justamente para arbitrar esse equilíbrio. 

Apesar da preocupação recorrente com o uso da água, Santanna explica que as compensações ambientais sempre serão definidas durante o período de aprovação do empreendimento. “Elas são definidas mediante o tamanho do empreendimento e de seu impacto ambiental e à disponibilidade hídrica. Podem ser solicitadas ações práticas desde recomposição florestal e tratamento de água e esgoto, mas também obras e ações de sensibilização. Mas essa definição do que será feito, deverá ser definido pelos Comitês de bacias”, compartilha. 

O assessor ainda afirma que existem normas que regulamentam que a preferência sempre será destinar a água para a população. “Segundo a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/1997), no seu artigo primeiro, parágrafo terceiro, em caso de escassez hídrica a prioridade de uso da água será para o consumo humano e dessedentação de animais.” 

Sem dados públicos verificáveis sobre cada empreendimento, não há como confirmar de forma independente quais sistemas de resfriamento estão sendo adotados na região e nem qual é o consumo hídrico real de cada instalação. BRK e SABESP foram consultadas, mas não retornaram até o fechamento desta reportagem. Ao recorrer à Lei de Acesso à Informação (LAI) eles informaram que não possuem competência regulatória sob os serviços de saneamento prestados no município de Sumaré e não têm acesso aos dados dos anos anteriores ao ano de 2024.  
 
Qual a saída? 

O professor Caneppele afirma que hoje o gargalo migrou para alimentar, disponibilidade de potência na rede e conexão. “Com racks de IA passando de dezenas de kW, o desafio não é mais só dissipar calor, é conseguir o MW na tomada. A refrigeração virou problema de engenharia (resolvido com líquido); a energia virou problema de infraestrutura e prazo”. Além disso, complementa que as energias renováveis não são suficientes para resolver todos os problemas ambientais apresentada pelos data centers. Usar energia renovável sem reduzir o desperdício, alerta ele, é “descarbonizar o desperdício, não eliminá-lo”. 

Segundo ele, o processo cobre o carbono operacional, mas deixa de fora a água (refrigeração evaporativa consome volumes enormes), uso do solo, carbono embutido em construção e hardware, e o problema de simultaneidade, data center opera 24 horas por sete dias, o sol e o vento não. “Sem armazenamento ou contratos firmes, “100% renovável” muitas vezes é compensação contábil, não suprimento real hora a hora”, compartilha. 

A saída para Daniel Cordeiro está relacionada à IA Frugal, que busca maximizar desenvolvimento utilizando o mínimo de computadores, energia e dados. “Em vez de usarmos LLMs gigantescos e genéricos para tudo, passamos a adotar modelos compactos e especializados”, sugere. 

Orientação: Profa. Rose Bras

Edição: Murilo Sacardi