Dieese aponta que 638 municípios não têm agências bancárias, como acontece em Lindóia que tem sete mil habitantes
Por Maria Fernanda Esmeriz e Vitória Sadakane
Das 35 agências bancárias que funcionavam na região central de Campinas, considerando os cinco maiores bancos do país (Bradesco, Santander, Itaú, Banco do Brasil e Caixa), restam hoje apenas 12. No município, o número de unidades caiu de 224 para 128 entre 2019 e 2025, redução de 42,9%, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
De acordo com Paulo César Adani, professor de Economia da PUC-Campinas e ex-bancário com 30 anos de experiência no setor, o processo não se restringe a Campinas. No Brasil, com base em informações do Banco Central, o total de agências passou de 23 mil para 14 mil em dez anos.
Para Adani, a explicação para esse movimento está nos investimentos que o setor financeiro tem feito em tecnologia. “O sistema financeiro é um dos setores que mais investe nessa área no Brasil, ao lado do agronegócio. Com isso, operações que antes eram realizadas por funcionários nas agências passaram a ser feitas pelos próprios clientes, por meio de aplicativos e serviços digitais”, afirma.

Transformação do atendimento
A pandemia de Covid-19 e a implementação do Pix aceleraram a transformação digital do setor bancário. Segundo Lourival Rodrigues da Silva, presidente do Sindicato dos Bancários de Campinas e Região, entidade que representa trabalhadores de 37 municípios, mudanças previstas para ocorrer ao longo de uma década foram antecipadas e colocadas em prática em poucos anos.
O fechamento das agências ocorre em um contexto de crescimento dos resultados das instituições financeiras. De acordo com o sindicalista, a redução das unidades físicas não está relacionada a dificuldades financeiras, mas à busca por redução de custos, já que o atendimento digital é mais barato do que manter estruturas presenciais.
Para o sindicato, essa mudança traz desafios para parte da população, especialmente para pessoas com menor familiaridade com a tecnologia, que podem enfrentar dificuldades para acessar serviços bancários e se tornam mais vulneráveis a golpes virtuais. “Para algumas pessoas mais velhas, não adianta receber uma explicação rápida ali na hora, porque elas não conseguem assimilar esse processo com facilidade. O que o sindicato defende é que os bancos entendam que essas pessoas têm o direito de ser atendidas presencialmente”, defende.
Outro problema apontado por Silva é a distância até a agência mais próxima após o encerramento das atividades de uma unidade. Segundo ele, há casos em que os clientes precisam percorrer dezenas de quilômetros para receber atendimento presencial. Além disso, os bancos costumam comunicar os fechamentos com apenas 15 ou 20 dias de antecedência, geralmente por meio de avisos afixados nas próprias agências.

Sem agência, maior deslocamento
Os dados do Dieese mostram que 638 municípios atualmente não possuem nenhuma agência. Uma delas é Lindóia, cidade de cerca de 7 mil habitantes localizada a 60 quilômetros de Campinas. Morador do município há 35 anos, o motorista Marcos Faria revela os impactos da mudança na rotina da população. “O dia a dia da população ficou muito difícil. Temos que nos deslocar para outras cidades para receber aposentadorias e outros benefícios”, relata.
Marcos Faria conta que prefere não utilizar aplicativos bancários por receio de fraudes e afirma que a necessidade de viajar para cidades vizinhas é um dos principais transtornos enfrentados pelos moradores.
Para ele, mesmo uma estrutura básica de atendimento já ajudaria a amenizar o problema. “Lindóia necessita sim de agências físicas, nem que seja um ponto de atendimento com alguém para instruir as pessoas, com caixa eletrônico no local para pagar boletos, sacar dinheiro, fazer depósito, sem ter que se deslocar para fazer essas atividades simples.”
Nova realidade
O fechamento das agências também impacta os bancários. Quando uma unidade encerra as atividades, parte dos funcionários é realocada, mas nem sempre há vagas para todos. De acordo com Lourival Rodrigues da Silva, a decisão sobre quem permanece ou é desligado leva em consideração critérios como desempenho e rentabilidade, sem considerar fatores como tempo de casa ou perfil do funcionário. “Nesse sistema, tudo acaba sendo tratado como número”, afirma.
As agências que continuam em funcionamento passam a absorver uma demanda maior, o que pode resultar em mais filas e sobrecarga. O perfil do trabalho também mudou. O gerente, que antes tinha mais autonomia para tomar decisões e acompanhar os clientes, passou a atuar principalmente na venda de produtos definidos pelo banco para o cumprimento de metas.
A tecnologia foi apresentada ao setor como uma forma de tornar o trabalho menos desgastante. Na prática, porém, os bancários avaliam que isso não aconteceu. “Não houve melhora na qualidade do trabalho, nem diminuição das tarefas”, diz o presidente do sindicato.
Ele também destaca os impactos econômicos do fechamento das agências para as cidades. Quando uma unidade encerra as atividades em uma área de grande circulação, os efeitos vão além dos correntistas e atingem também o comércio e os serviços do entorno.
Avanço das cooperativas
Nem todos os bancos têm reduzido suas agências no mesmo ritmo. Os bancos privados estão à frente desse processo, enquanto os públicos mantêm uma presença maior nas cidades.
Silva diz que os bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal, “exercem um papel social importante e adotam uma postura diferente, com o fechamento de poucas agências. O Banco do Brasil, por sua vez, está em um meio-termo: tenta acompanhar o movimento dos bancos privados, mas sem avançar na mesma velocidade.”
Com o fechamento de agências, as cooperativas de crédito vêm ganhando espaço. Em alguns municípios, elas passaram a ocupar imóveis que antes abrigavam bancos tradicionais. Diferentemente dos bancos, as cooperativas pertencem aos próprios associados, que são ao mesmo tempo clientes e donos da instituição. Os resultados obtidos são compartilhados entre os cooperados.
Segundo Silva, um dos principais atrativos das cooperativas é a manutenção do atendimento presencial. “O diferencial das cooperativas está na manutenção do atendimento presencial. O cliente ainda pode ir até uma agência e ser atendido por uma pessoa”, destaca.
Em algumas cidades da região de Campinas, o número de cooperativas de crédito já é maior do que o de agências bancárias tradicionais.
Projetos para o futuro
No dia 11 de maio, Lourival Rodrigues da Silva se reuniu com o vereador Gustavo Petta, de Campinas, para discutir o tema. O sindicato defende que a manutenção das agências físicas seja considerada no projeto municipal de revitalização do centro da cidade. Além disso, busca diálogo com os poderes Legislativo e Judiciário para discutir formas de regulamentar o fechamento dessas unidades.
Na avaliação do bancário, se a tendência atual continuar, as cidades maiores poderão contar com apenas uma agência de cada instituição financeira, enquanto os municípios menores ficarão sem atendimento presencial. “Os bancos operam por meio de uma concessão pública e têm um papel social a cumprir com a população. Isso não vem sendo feito”, conclui
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Murilo Sacardi















