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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Brasil movimenta mais de R$ 20 bilhões por ano no mercado fitness  

Campinas está entre as cidades com maior concentração de centros de atividades físicas no país 

Por Mariana Camparotto e Julia Ahualli Pires Morgado

Rafael Merkes Lucatelli, estudante de Publicidade, voltou à academia há seis meses em busca de satisfação com o corpo e de uma vida mais saudável. A decisão acompanha um movimento mais amplo no Brasil. Segundo a 4ª edição do Panorama Setorial da Fitness Brasil, as academias aparecem como o principal local de prática de atividade física entre os entrevistados, citadas por 28% dos praticantes. No levantamento, a musculação também se destaca entre as modalidades mais praticadas, com 26% das respostas.  

Em uma reportagem publicada em maio de 2026, a revista Forbes Money afirmou que o mercado fitness no Brasil movimenta mais de R$ 20 bilhões por ano. A força do setor também aparece no número de estabelecimentos, sendo que o Brasil é o segundo país com mais academias no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, de acordo com a Fitness Brasil

O Panorama Setorial também aponta que o número de centros de atividades físicas quase triplicou em dez anos, passando de 22.581 CNPJs ativos em 2015 para 62.718 em julho de 2025. Campinas é uma parte expressiva desse número, já que o levantamento colocou o município entre as cidades com maior concentração de centros de atividades físicas no país. De acordo com dados do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), em abril de 2026, o município possuía 895 academias cadastradas na categoria “Atividades de condicionamento físico” (CNAE 9313-1/00), que inclui estabelecimentos como academias de musculação, crossfit e pilates.  

Desde maio de 2023, até abril deste ano Campinas teve um aumento de 27,3% na quantidade de CNPJs cadastrados no setor Fitness. 
Crédito: Imagem gerada por IA/Claude.AI Design 

A evolução mensal dos registros mostra que o setor manteve tendência de crescimento ao longo dos últimos três anos. Em maio de 2023, Campinas tinha 703 CNPJs cadastrados nessa atividade; em abril de 2026, o número chegou a 895, o que representa alta de 27,3% no período. Apesar de oscilações pontuais, como a queda registrada em agosto de 2023, a curva indica avanço contínuo na abertura ou manutenção de empresas ligadas ao condicionamento físico, reforçando a presença do mercado fitness na cidade. 

Essa percepção não fica apenas nos números. A fisioterapeuta e proprietária da Vittamov Fisioterapia Pilates, Patrícia Aparecida Medeiros dos Santos, afirma que percebeu aumento na procura nos últimos anos. Para ela, a mudança está ligada à forma como as pessoas passaram a encarar a atividade física. “Antigamente o pessoal tratava muito a questão de dores, prevenção, muito com remédio, e hoje o pessoal está descobrindo a importância da atividade física”, relata. Mesmo diante do aumento de espaços oferecendo serviços semelhantes, Patrícia afirma não enxergar o cenário apenas como concorrência, já que “tem público para atender” e há diferentes propostas de trabalho no setor.  

Mais do que uma expansão econômica, o avanço do mercado fitness também revela uma mudança de comportamento. Para o personal trainer Igor Sanches Stefanini, da Loud Fit Amoreiras, a procura por acompanhamento profissional cresceu principalmente após a pandemia, quando as pessoas passaram a buscar mais cuidado com a saúde, constância nos treinos e melhora nos hábitos alimentares. Segundo ele, muitos alunos ainda começam motivados pela estética, mas acabam percebendo outros benefícios da musculação, como melhora do sono, mais disposição, fortalecimento muscular e qualidade de vida. 

A experiência de Rafael Merkes Lucatelli mostra esse deslocamento. Embora tenha voltado à academia por insatisfação com o físico, ele afirma que os efeitos foram além da aparência. O estudante relata melhora na disposição para trabalhar, sensação de bem-estar e até um impacto positivo na saúde mental. Para ele, a academia se tornou uma “válvula de escape” diante da rotina de trabalho e faculdade. 

Esse movimento também aparece na rotina de Amanda Cristina Clemente, que começou a frequentar a academia há um ano motivada pela melhora da saúde. Hoje, ela treina cinco vezes por semana e afirma que a maior dificuldade no início foi manter a disciplina. Para Amanda, a academia passou a representar “disciplina e foco”, além de trazer mudanças físicas e mentais. 

A busca por atividade física, no entanto, não se restringe aos mais jovens. Patrícia afirma que o aumento da procura ocorreu em diferentes faixas etárias, mas destaca o crescimento do público idoso, que passou a buscar o pilates e outras modalidades para prevenir quedas, reduzir dores e preservar a qualidade de vida.  

A médica Mayumi Cavalcante Hashiguchi, especialista em qualidade de vida e pós-graduada em nutrologia esportiva, também observa essa mudança entre pacientes mais velhos. Segundo ela, as pessoas estão cada vez mais preocupadas em melhorar a qualidade de vida, especialmente os idosos, que buscam manter autonomia e disposição para atividades simples do cotidiano, como brincar com os netos. 

Para Mayumi, a pandemia também contribuiu para alterar a relação da população com a saúde. O período de isolamento, segundo a médica, fez com que muitas pessoas passassem a valorizar mais a prevenção de doenças, a alimentação equilibrada, a saúde mental e a prática regular de exercícios físicos. A médica afirma que a atividade física ajuda na prevenção de obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e também contribui para a melhora do sono, do humor e da disposição. 

A musculação, nesse contexto, aparece como uma das práticas associadas não apenas ao ganho estético, mas também ao equilíbrio entre corpo e mente. Mayumi explica que o exercício contribui para a redução da ansiedade e do estresse ao estimular a liberação de hormônios ligados ao bem-estar, como a endorfina. Para ela, uma rotina saudável precisa ser construída de forma gradual e adaptada ao estilo de vida de cada pessoa, com a escolha de uma atividade prazerosa e acompanhamento profissional para evitar lesões e garantir segurança. 

Profissionais acompanham expansão do setor 

O crescimento da procura por academias, estúdios e acompanhamento especializado também movimenta a formação e a atuação de profissionais ligados ao setor. Segundo a 4ª edição do Panorama Setorial da Fitness Brasil, o país reúne mais de 890 mil alunos em cursos de Nutrição, Fisioterapia e Educação Física. Ao todo, são mais de 1,27 milhão de profissionais registrados nos conselhos das três áreas (CFN, COFFITO e CONFEF), o que reforça a dimensão técnica da indústria fitness brasileira. 

No recorte dos profissionais de Educação Física, São Paulo aparece como o principal polo do país. De acordo com dados do CONFEF reunidos pelo Panorama Setorial, o estado somava 203.058 registros em 2025, quase 30% do total nacional. O número coloca São Paulo à frente de Rio de Janeiro, com 68.629 profissionais, e Minas Gerais, com 57.033, consolidando o Sudeste como a região de maior concentração de trabalhadores da área. 

A concentração paulista também aparece quando o dado é analisado em relação à população. São Paulo registra 4,4 profissionais de Educação Física para cada mil habitantes, índice acima da média de diversos estados brasileiros e atrás apenas do Distrito Federal, que lidera o ranking nacional com 6,6 profissionais por mil habitantes. Na prática, essa expansão aumenta a importância do acompanhamento qualificado. Para Igor Merkes Lucatelli, muitas pessoas acima dos 40 anos procuram o personal trainer justamente por buscarem mais segurança e eficiência no treino. 

Estilo de vida fitness também movimenta o comércio 

A expansão do mercado fitness também ultrapassa as academias e chega ao consumo de produtos associados ao desempenho, à estética e ao bem-estar. Entre os praticantes ouvidos pelo Panorama Setorial da Fitness Brasil, 91% afirmaram consumir suplementos, embora apenas 36% tenham acompanhamento nutricional. O dado revela a força do consumo ligado ao universo fitness, mas também aponta uma contradição: muitos consumidores recorrem a produtos de suplementação sem orientação profissional especializada. 

Esse comportamento ajuda a explicar o crescimento de segmentos como suplementos, alimentos funcionais, roupas esportivas e acessórios. Segundo levantamento reunido pela Nuvemshop, relatado em uma matéria da Central do Varejo, pequenas e médias empresas do varejo online faturaram R$ 160 milhões com itens fitness em 2024, resultado 88% superior ao registrado no ano anterior.  No mesmo período, mais de 1,5 milhão de produtos do segmento foram vendidos, crescimento de 98% em relação a 2023. Entre os itens mais procurados aparecem creatina, granola, produtos de pré-treino, suplementos e roupas de academia. 

A creatina se destaca nesse cenário. De acordo com esse mesmo levantamento, as vendas do produto cresceram 346% em um ano, saltando de cerca de 68 mil para mais de 300 mil unidades comercializadas. O avanço mostra que o estilo de vida fitness deixou de movimentar apenas mensalidades de academias e passou a impulsionar uma cadeia de consumo mais ampla, que envolve saúde, alimentação, estética, moda e presença digital. 

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Murilo Sacardi