Cidade antes reconhecida como polo cinematográfico no País, hoje enfrenta um desafio cultural contra à alta demanda de salas nos shoppings
Por Pedro Spada e Felipe Tonelo
Campinas, no Século XX, foi um dos pontos precursores para o aumento de interesse pelo audiovisual e na produção de longas-metragens no Brasil, carregando o peso de ser a cidade onde o primeiro filme lançado em solo brasileiro nasceu, o João da Mata (1923), dirigido por Amilar Alves.
Com a falta desse entretenimento na cidade, Campinas viu um aumento excessivo de salas em locais de lazer privado, objetivamente em shopping centers, onde se encontram a maioria dos cinemas do município nos dias de hoje. Em 2025, a Prefeitura discutiu sobre a abertura de uma sala pública no centro, o que sugere um reconhecimento institucional de uma carência histórica. O projeto Cinecamp, criado pelo vereador Wagner Romão (PT), segue em avaliação pela Câmara.
Para o diretor do curso de Cinema da PUC-Campinas, Caio Lazaneo, essa mudança não ocorreu de forma isolada, mas faz parte de uma transformação mais ampla da experiência cinematográfica. “Todo um sistema engendrado para que este fenômeno que se chamou sociedade de espetáculo, a sala de cinema no shopping, seja este lugar final deste ritual. É lá o grande templo em meio a uma praça de alimentação lotada de fast-foods e outras experiências muito efêmeras com aquilo que é uma produção cultural.”
A realidade de Campinas acompanha uma tendência observada em grande parte do país. Lazaneo ainda pontua que poucas cidades brasileiras mantêm uma quantidade significativa de cinemas de rua, mesmo entre as capitais com tradição audiovisual, como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. “Cidades com um número razoável de cinemas de rua, que são muito poucos, até pela proporção, tamanho das cidades, mas a gente vai encontrar aí pouquíssimas capitais com uma forte cultura audiovisual.”
Campinas chegou a ter aproximadamente 28 cinemas de rua ao longo de sua história, sendo que cerca de 13 funcionavam simultaneamente nas décadas de 1950 e 1960, período considerado o auge da exibição cinematográfica da cidade. A maior concentração estava no centro da cidade, hoje, esses locais foram substituídos por redes de varejo ou foram simplesmente demolidos.
A última sala de cinema de rua de Campinas foi fechada em fevereiro de 2009. Inaugurado em 1983, o Cine Paradiso (que fez parte da história cultural de Campinas) teve que fechar as portas devido à dificuldades financeiras e falta de incentivo da prefeitura, segundo o sócio-fundador Hélcio Henrique.

O audiovisual campineiro, nos dias de hoje, se tornou dependente das Universidades, do Museu de Imagem e Som (MIS) e de projetos independentes para divulgação. No MIS, temos a sala Glauber Rocha, que se tornou uma das poucas referências de cineclubes ainda existentes na cidade, e o Sesc Campinas, que recorrentemente realiza eventos com foco no audiovisual produzidos na região.
Orestes Toledo, curador e diretor do MIS, conta com carinho as memórias e a relevância sociocultural que as salas de cinema de rua traziam: “O cinema era um lazer popular. E, portanto, desde pequeno, a minha família sempre me levava ao cinema. Domingo, às duas horas da tarde, voltava do cinema centenas de crianças, praticamente só meninos.”
Segundo ele, o desaparecimento dos cinemas de rua também causaram um afunilamento nos tipos de filmes consumidos: “A importância da sala de rua é, primeiro, pela acessibilidade e por ser um preço menor. Em segundo lugar, é por não ter uma hegemonia tão absoluta do cinema estadunidense, principalmente de um tipo só. Embora tivesse 60% estadunidense, tinha italiano, tinha francês, tinha espanhol e brasileiro.”

Apesar de criticar a aglomeração das salas de cinema em shoppings center, Toledo conta que o audiovisual se altera conforme o tempo, e que isso é um processo natural: “Eu penso que não tem nostalgia. Porque para existir esse tipo de cinema, teria que existir aquele tipo de época. Estou falando de uma outra época. A gente vai vivendo cada época e fazendo o que é possível em cada época. A gente não vai no mundo ideal. Então, a arte expressa isso”.
Beto Limberger, cineasta campineiro, conta como os streamings são parte de um outro problema, ir ao cinema no pós-pandemia: “O streaming é apenas uma parte dos múltiplos fatores que impactaram a relação das pessoas com o cinema, e algumas vezes com a cultura no geral. O período de pandemia afetou profundamente o setor cultural, que foi o primeiro a parar e o último a retomar as atividades. Assim, mesmo após tanto tempo, o setor ainda sofre para conseguir restabelecer os mesmos padrões de público.”
Para Limberger, o ato de ir ao cinema e consumir a sétima arte de maneira tradicional é algo indiscutível: “Importante ressaltar que ver um filme sozinho, com poucas pessoas, em uma tela pequena não substitui a experiência de ver um filme no cinema, local no qual a experiência ganha novas camadas, com reações de outras pessoas, possibilitando novas interpretações e reflexões.”
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Murilo Sacardi















