Em agosto de 2025, o município prometeu transformar parte da Coudelaria em parque tecnológico de defesa e segurança. Quase um ano depois, a própria Prefeitura admite que não há recursos definidos.
Por: Diego Linardo, Henrique Alves e Kauan Panontin
Aos 24 anos, Victor Della Noce concluiu o curso de Engenharia Eletrônica na PUC-Campinas e procura uma vaga à altura do que estudou. Quando soube que Campinas vai abrigar um polo de defesa e segurança, com promessa de empregos qualificados, anotou o nome do projeto. Por enquanto, diz, é só promessa. “Eu acompanhei o lançamento do projeto poucos meses antes de me formar, com a expectativa de que poderia ser o meu primeiro passo. Mas, até agora, ninguém sabe quando as contratações começam ou quais empresas realmente vêm para cá”, contou.
A promessa que Victor acompanha tem data e endereço. Em 11 de agosto de 2025, a Prefeitura de Campinas, o Exército Brasileiro e o Governo do Estado de São Paulo assinaram um memorando de entendimento, acordo inicial que registra intenções antes de qualquer obrigação, para criar um parque tecnológico voltado à defesa e à segurança.
O futuro Centro de Ciência e Tecnologia do Exército deve ocupar cerca de 200 mil metros quadrados da Coudelaria, área que a Força já possui na divisa entre Campinas e Valinhos. O documento foi assinado pelo prefeito Dário Saadi, pelo general Achilles Furlan Neto, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército, e pelo secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan.
A ideia é que o parque atraia empresas, instale laboratórios e áreas de teste e aproxime três mundos que costumam andar separados, a indústria, as Forças Armadas e a universidade, arranjo que o Exército chama de tríplice hélice. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, portarias da Força criaram o Núcleo do Parque Tecnológico de Defesa e Segurança, com a tarefa, por ora, apenas de estruturar o futuro parque.
O anúncio veio cercado de superlativos. Na cerimônia, o governador Tarcísio de Freitas tratou a iniciativa como um marco para a cidade.
“Nada melhor do que uma cidade estruturada e vocacionada para educação, ciência e tecnologia como Campinas para sediar esse projeto. Tenho certeza de que essa iniciativa vai fazer muita diferença na nossa cidade”, afirma o governador.
O que o anúncio não trouxe foi dinheiro carimbado. Questionada sobre o investimento público previsto, a Prefeitura respondeu que o projeto está em “fase de estudos técnicos, institucionais e jurídicos” e afirmou que “não há, até o momento, definição de aporte direto de recursos públicos municipais”.
O acordo tem prazo de cinco anos, mas o prazo vale para os estudos, não para a construção. Não há cronograma de obra, não há orçamento fechado e nenhum dos três entes assumiu um número de empregos.
Parte da expectativa em torno do polo vem do EDGE Group, conglomerado de defesa dos Emirados Árabes Unidos que anunciou investimentos bilionários no Brasil. Convém separar o que é Campinas do que não é. As fábricas do grupo, como a da SIATT, de sistemas de alta tecnologia, e a da Condor, ficam em outras cidades de São Paulo.
A ligação do EDGE com Campinas se resume, até agora, à intenção de firmar uma parceria acadêmica com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Segundo a assessoria da universidade, ainda não foram divulgadas informações oficiais sobre a intenção de cooperação entre a Unicamp e o EDGE Group.
No país, o setor vive um momento de alta. Em 2025, a indústria de defesa brasileira somou US$ 3,1 bilhões em autorizações de exportação, recorde histórico, segundo o Ministério da Defesa. O valor ficou 74% acima de 2024 (US$ 1,78 bilhão) e superou em mais de duas vezes o de 2023 (US$ 1,45 bilhão). Cerca de 80 empresas brasileiras exportam produtos de defesa para perto de 140 países.

Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em novembro de 2025, ajuda a medir o que está em jogo. Pelo Simulador de Impacto Socioeconômico do Observatório Nacional da Indústria, se o Brasil produzisse cerca de um terço dos produtos de defesa e segurança que hoje importa, poderia gerar 226 mil empregos diretos e indiretos e arrecadar R$ 9,9 bilhões em tributos.
O país importa, em média, R$ 70,8 bilhões por ano nesses produtos. Esse total de empregos é uma projeção, um cenário hipotético de substituição de importações, não vagas que já existem. Boa parte desses itens é de uso dual, ou seja, serve tanto a fins militares quanto civis, caso de áreas como telecomunicações e eletrônica.

A reportagem entrou em contato com a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE) para levantar o número de empresas associadas que operam na Região Metropolitana de Campinas, bem como o salário médio do setor em comparação com a média da indústria. No entanto, não houve retorno com os dados solicitados até o fechamento desta edição.
A escolha da cidade não foi acaso. Campinas reúne um dos maiores conjuntos de ciência e tecnologia do país, e o Exército já mantém projetos com a Unicamp, com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) e com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Os reitores da USP, da Unesp e da Unicamp e o diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) participaram da assinatura.
Quando o poder público fala em “empregos qualificados”, fala de vagas como as de técnicos em eletrônica e engenheiros. Levantamentos de sites de vagas, como Indeed e Portal Salário, apontam salários de cerca de R$ 2,6 mil a R$ 4,9 mil para técnicos e de R$ 8 mil a R$ 20 mil para engenheiros e profissionais de pesquisa e desenvolvimento.
Diante dessas projeções, resta a pergunta essencial que norteia qualquer reportagem econômica: afinal, quem ganha e quem arca com os riscos dessa operação? No lado dos ganhos, despontam de imediato o governo estadual e a prefeitura, que conseguiram transformar um terreno militar em um forte anúncio de desenvolvimento regional. O Exército também sai beneficiado, pois expande sua presença no maior polo de pesquisa do país sem a necessidade de investir na compra de terras.
A lista de potenciais ganhadores inclui ainda a Unicamp e os institutos de pesquisa locais, animados com a perspectiva de novos projetos, além das empresas privadas que poderão se instalar na área assim que for lançado o chamamento público, etapa formal em que o poder público convida os interessados a apresentarem suas propostas.
Por outro lado, a balança dos riscos pesa sobre o município e seus habitantes. A administração municipal assume o perigo de aportar recursos públicos em obras de infraestrutura sem nenhuma garantia de retorno financeiro.
Para a população, o risco se traduz em uma disputa orçamentária, uma vez que a destinação de verbas para o setor de defesa concorre diretamente com investimentos urgentes em áreas prioritárias, como saúde, educação e moradia.
Para analisar a viabilidade desse cenário, a reportagem ouviu o economista Leonardo Tancredo, de 29 anos. Para ele, o projeto carece de garantias claras. “Sem uma orçamento definido, fica difícil de evoluir o projeto justamente pela ausência dos três pontos principais de qualquer projeto: Quem paga? Porque paga? E como paga?”, questiona Tancredo.
“Do ponto de vista econômico, o município assume um risco alto ao antecipar investimentos em infraestrutura sem contrapartidas amarradas. O que Campinas ganha de concreto, e em quanto tempo? Um planejamento transparente, é vital para evitar que o dinheiro público financie uma estrutura que demore décadas para dar retorno à cidade, enquanto outras demandas sociais urgentes ficam na fila”, alerta o economista.
Enquanto o debate institucional não sai do papel, a cobrança por respostas reais continua na base trabalhadora.
Victor, o engenheiro recém-formado, resume o impasse de quem aguarda o desfecho do projeto: “Não dá para pagar as contas com base em promessas ou de intenções. Por isso, tive que deixar de lado a vontade de trabalhar no projeto, enquanto o polo não apresenta prazos e vagas reais”.
Créditos Foto: Fernanda Sunega – Divulgação Prefeitura de Campinas
Orientação: Profª Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves















