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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Discriminação constrói barreiras entre homens trans e ginecologistas

Isso acontece mesmo se sabendo que a identidade de gênero é garantida para essa população no cartão do SUS e nos prontuários de atendimento

Por Mariana Rusew e Pedro Henrique da Silva

“Eu expliquei o que tinha acontecido e ele disse que não concordava e que eu deveria respeitar a opinião dele”. O relato é do estudante Matheus Serrano Fiordiluglio Bueno. Após enfrentar constrangimentos relacionados à sua identidade de gênero durante a busca por atendimento ginecológico, ele decidiu deixar o hospital antes mesmo da consulta. Apesar dos avanços nas discussões sobre diversidade e inclusão, homens trans ainda enfrentam dificuldades para obter um atendimento ginecológico adequado. O receio de sofrer discriminação, aliado ao despreparo de parte dos profissionais da saúde, faz com que muitos deixem de realizar consultas e exames preventivos essenciais, colocando a própria saúde em risco.

De acordo com o médico José Paulo de Siqueira Guida, coordenador do Ambulatório de Atendimento às vítimas de Violência Sexual do CAISM, a saúde da população trans ainda recebe pouca atenção durante a formação acadêmica dos profissionais da área. “É um tema que ainda não entrou no currículo da maioria das escolas médicas e da saúde em geral. Ainda existem muitas barreiras de acesso aos pacientes trans aos serviços”, afirmou. O médico explica que a dificuldade de acesso aos serviços de saúde contribui para que muitos profissionais tenham pouco contato com pacientes trans durante a rotina de trabalho. Como consequência, o atendimento pode ocorrer sem o preparo necessário para atender às demandas específicas dessa população.

O especialista explica que o receio de sofrer discriminação afasta homens trans das unidades de saúde. Muitos evitam procurar atendimento por medo de experiências negativas ou por conhecerem relatos de constrangimento vividos por outras pessoas. Matheus afirmou que já passou por situações que reforçam esse sentimento. Durante uma consulta ginecológica, um profissional continuou utilizando pronomes com os quais ele não se identifica mesmo após ser informado sobre sua identidade de gênero. Em outra ocasião, o estudante diz ter sido chamado pelo nome de registro durante o atendimento. “A minha experiência mais desconfortável foi quando eu nem passei pela triagem direito, porque fui destratado no guichê”.

De acordo com a Portaria n° 1.820, de 13 de agosto de 2009, do Ministério da Saúde, a adoção do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero foram garantidos a essa população no cartão do SUS e nos prontuários de atendimento. A carta é responsável por unificar e regulamentar os direitos e deveres fundamentais de toda a pessoa que utiliza os serviços de saúde no Brasil. Portanto, o respeito não deve ser baseado em crenças pessoais, mas sim na legislação. A situação pode comprometer a realização de exames preventivos. Pessoas com útero devem realizar o rastreamento do câncer de colo uterino a partir dos 25 anos. No entanto, segundo o médico, o medo do atendimento ginecológico pode levar ao adiamento desses cuidados. “Um homem trans pode evitar fazer rastreio de câncer de colo uterino ou de mama por medo”, destacou.

Estudante Matheus Serrano // Estudante Noah Valentine dos Reis // José Paulo de Siqueira Guida, Coordenador do Ambulatório de Atendimento às vítimas de Violência Sexual (Fotos: Mariana Rusew)

Além disso, pelo relatório de 2019 da UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS), o risco de infecção por HIV é 12 vezes maior para pessoas trans em relação à média verificada entre as pessoas com vida sexualmente ativa no mundo todo. Sem o acompanhamento médico adequado, a identificação e o tratamento das Infecção Sexualmente Transmissível (ISTs) é dificultada e, muitas vezes, pode agravar o quadro.

Dr. José Paulo Guida afirmou que a falta de acompanhamento médico pode aumentar os riscos relacionados à saúde reprodutiva. Ele alerta que o uso de testosterona não deve ser considerado um método contraceptivo. “É importante lembrar que ausência de menstruação não significa ausência de ovulação. A pessoa pode continuar ovulando e engravidar”, explica.

Além dos cuidados ginecológicos, o especialista ressalta a importância do acompanhamento cardiovascular durante a terapia hormonal. Segundo artigo publicado na Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, o uso prolongado da testosterona pode elevar a pressão arterial e aumentar o risco de alterações que exigem monitoramento médico periódico.

Os exames ginecológicos para homens trans também são garantidos por lei. A Portaria SAES/MS nº 1.693, publicada em 10 de maio de 2024 pelo Ministério da Saúde, alterou os sistemas do SUS para permitir que procedimentos e exames ginecológicos, obstétricos, urológicos e proctológicos sejam realizados por pacientes de qualquer sexo ou identidade de gênero. Então, homens trans com útero, mesmo que com o gênero alterado nos documentos, podem acessar os serviços ginecológicos e obstétricos no SUS.

Para Matheus Serrano, parte das dificuldades enfrentadas por homens trans está relacionada à forma como muitos profissionais ainda compreendem questões de gênero. Ele acredita que ainda existe uma visão limitada sobre a relação entre identidade de gênero e características biológicas.

Para o ginecologista, a qualificação dos profissionais é uma das principais medidas para melhorar o atendimento à população trans. Ele defende que o treinamento envolva todos os trabalhadores das instituições de saúde. “O treinamento precisa envolver toda a equipe: médicos, enfermeiros, recepção, segurança, limpeza, todos”, defendeu.

Experiências positivas mostram como um atendimento preparado pode fazer diferença para pessoas trans. O estudante Noah Valentine dos Reis Marciano conta que sua primeira experiência em um atendimento ginecológico aconteceu em um ambulatório especializado e foi marcada pelo acolhimento. “A sessão foi bem acolhedora, bem tranquila, bem respeitosa. Não tenho o que reclamar. Foi uma primeira experiência legal, porque antes eu estava meio nervoso sobre como seria, e acabou sendo tudo bem tranquilo”, lembrou.

Segundo Noah, o contato frequente com pacientes trans faz com que os profissionais compreendam melhor as demandas dessa população. Para ele, atitudes simples podem tornar o atendimento mais confortável e incentivar a busca por acompanhamento médico. O respeito à identidade dos pacientes não exige mudanças complexas. “Entender o que é ser um homem trans, entender como funciona a questão dos pronomes e do nome social é o básico e é o que faz a diferença”, afirmou.

Com um atendimento especializado, existe uma facilidade de sensibilização da equipe médica envolvida no tratamento. O médico José Paulo contou que é importante avaliarmos qual é a necessidade da comunidade: se é um posto de tratamento especializado para pessoas trans ou o treinamento da equipe médica das unidades básicas de saúde.

Orientação e edição: Adauto Molck

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