Campanha Junho Vermelho reforça importância das doações e ações para abastecer reservas
Por Leonardo Oliveira
Os estoques de sangue dos tipos negativos estão abaixo do ideal no Centro de Hematologia e Hemoterapia (Hemocentro) da Unicamp, responsável pelo atendimento de cerca de sete milhões de pessoas na região de Campinas. O alerta ocorre durante a campanha Junho Vermelho, que busca incentivar a doação de sangue em todo o país.
De acordo com o Hemocentro da Unicamp, os estoques dos tipos sanguíneos positivos estão, neste momento, em níveis considerados adequados, com cerca de cinco dias de reserva, patamar considerado seguro para o funcionamento da rede hospitalar. No entanto, essa estabilidade depende da continuidade das doações. Para o médico responsável pela coleta do Hemocentro, Eduardo Baungartner, a situação exige monitoramento constante. “Os estoques hoje estão equilibrados para os tipos positivos, mas essa é uma condição muito sensível”, afirma. “Se houver uma queda nas doações, mesmo que por um curto período, esse nível já começa a diminuir rapidamente. Por isso, a manutenção precisa ser constante e depende do engajamento da população.”
A situação é mais preocupante em relação aos tipos sanguíneos negativos. Segundo o Hemocentro, os estoques de O negativo, A negativo, B negativo e AB negativo estão abaixo do nível considerado ideal, com menos de três dias de reserva. Essa condição exige atenção, pois pode comprometer o abastecimento dos hospitais e levar à adoção de critérios mais rigorosos para o uso das bolsas de sangue.
Segundo o médico responsável pela coleta do Hemocentro, quando os estoques atingem níveis críticos, procedimentos eletivos podem ser adiados para priorizar pacientes em situações de urgência e emergência. “Quando os estoques de sangue ficam muito baixos, principalmente dos tipos negativos, pode ser necessário fazer uma gestão mais restritiva dessas bolsas. Isso pode levar, por exemplo, ao adiamento de cirurgias eletivas, priorizando sempre os casos de urgência e emergência, onde o sangue é indispensável para salvar vidas”, explica.
Entre os tipos com maior necessidade estão o O negativo e o B negativo. O O negativo, conhecido como doador universal de hemácias, pode ser utilizado em situações emergenciais quando não há tempo para identificar o tipo sanguíneo do paciente. Como esses grupos são menos frequentes na população, a reposição dos estoques torna-se ainda mais desafiadora.
Segundo o Hemocentro, as estratégias para ampliar o número de doadores incluem o contato direto com pessoas já cadastradas e ações de conscientização em diferentes meios de comunicação. “Utilizamos diversas formas de mobilização, como ligações [telefônicas], mensagens e campanhas na mídia, justamente para alcançar mais pessoas e trazer novos doadores, especialmente daqueles tipos que estão em maior falta”, afirma Baungartner.

O médico explica que fatores sazonais também afetam diretamente os estoques. Durante as férias escolares, os feriados prolongados e os meses de temperaturas mais baixas, o número de doações costuma diminuir, exigindo que o Hemocentro intensifique as ações de conscientização e mobilização da população. “O frio e as férias acabam afastando as pessoas dos hemocentros. Por isso, já sabemos que nesses períodos precisamos intensificar as ações e conscientizar ainda mais a população sobre a importância de manter as doações em dia”, afirma.
O processo de doação, segundo o especialista, é simples, seguro e dura, em média, entre 40 minutos a uma hora. Nesse período, o voluntário realiza o cadastro, passa por triagem clínica e por uma entrevista sigilosa antes da coleta. Após a doação, o sangue é submetido a exames laboratoriais e à separação de seus componentes, como hemácias, plasma e plaquetas, garantindo a segurança de quem irá recebê-lo. Somente depois dessas etapas o material é liberado para uso, processo que leva cerca de 48 horas.
A manutenção de estoques adequados de sangue é fundamental para garantir o funcionamento da rede hospitalar. As bolsas são utilizadas em diferentes situações, como cirurgias, atendimentos de urgência e emergência, traumas graves, tratamentos oncológicos, transplantes e complicações obstétricas. Quando há redução nas reservas, hospitais podem enfrentar dificuldades para atender a demanda e priorizar os casos mais graves, comprometendo a capacidade de resposta do sistema de saúde.
Índice ideal
Apesar das campanhas de conscientização, o Brasil ainda está abaixo do índice considerado ideal de doadores de sangue. Segundo o Ministério da Saúde, entre 2% e 3% da população deveria doar sangue regularmente para garantir o abastecimento dos hemocentros. No entanto, o percentual de doadores permanece inferior ao recomendado, reforçando a necessidade de ações permanentes de mobilização e conscientização. “Mais do que aumentar o número de doadores, nosso desafio é fidelizar essas pessoas, transformando a doação em um hábito. O doador de repetição é fundamental para garantir a estabilidade dos estoques ao longo do tempo”, afirma o responsável pelo Hemocentro.
Entre os pacientes que dependeram dos estoques de sangue está Antonella, que precisou de transfusão poucos dias após o nascimento. Durante a gestação, a família descobriu que a bebê tinha um tumor abdominal, posteriormente diagnosticado como um teratoma imaturo de grau III. Nascida no Hospital Madre Theodora, em Campinas, ela foi transferida para o Centro Infantil Boldrini, onde passou por uma cirurgia aos 16 dias de vida e recebeu transfusão de sangue durante o procedimento.
Segundo a mãe, Aline Moretti, a mobilização promovida pelo motoclube adventista liderado por Christian Furtado foi importante para conscientizar a população e incentivar novas doações. “Eles ajudaram a repor o estoque e a incentivar novas doações para outras crianças que também possam precisar”, afirma.
Com os estoques dos tipos sanguíneos negativos em nível de alerta, o Hemocentro da Unicamp reforça que a doação regular é fundamental para garantir o atendimento de pacientes que dependem de transfusões em cirurgias, emergências e tratamentos de saúde. Mais do que um gesto de solidariedade, doar sangue é uma forma de manter a rede hospitalar preparada para salvar vidas todos os dias.
Serviço
As doações de sangue podem ser realizadas no Hemocentro da Unicamp, localizado na rua Carlos Chagas, nº 480, na Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, em Barão Geraldo. O atendimento acontece de segunda a sábado, incluindo feriados, das 7h30 às 15h.
Podem doar sangue pessoas em boas condições de saúde, com peso mínimo de 50 quilos e idade entre 16 e 69 anos. Menores de 18 anos devem estar acompanhados e apresentar autorização do responsável legal.
No momento da doação é necessário apresentar um documento oficial, com foto. O agendamento pode ser feito pelo site do Hemocentro da Unicamp, embora a unidade também realize atendimentos conforme a disponibilidade.
Orientação: Profa. Ciça Toledo
Edição: Murilo Sacardi















