Reportagens Saúde

Padrões irreais expostos nas redes sociais afetam saúde mental de jovens

Algoritmos identificam fragilidades emocionais e intensificam comparação e insatisfação entre adolescentes e adultos de 12 a 30 anos

Por Helena Frazatto e Mariana Carrer

Entender o que move o algoritmo, é o primeiro passo para entender a armadilha das redes sociais. Segundo Victor Kraide, professor de Mídias Digitais da PUC-Campinas e especialista em tecnologia, o algoritmo funciona como um DJ de festa que nunca dorme. “Ele não toca o que você pede, mas o que ele percebe que faz você ficar na pista. Ele analisa tudo, quanto tempo você parou numa foto, se leu a legenda ou se pulou o vídeo nos primeiros dois segundos”, descreve. 

De acordo com Kraide, o algoritmo não lê pensamentos, mas sim o seu sistema nervoso. Ele rastreia o chamado dwell time – aquele tempo que você trava a tela em algo – e até a hesitação do seu dedo no scroll. “Se você está mal e gasta mais tempo vendo conteúdos melancólicos, ele entende que aquilo te segura e entrega mais do mesmo. Assim, esse sistema acaba mapeando suas fraquezas emocionais antes mesmo de você perceber que está vulnerável”, explica.

Para Sabrina Amaral, psicóloga especialista em neurociência do comportamento humano e pós-graduanda em terapia cognitiva comportamental pela PUC-Paraná, o algoritmo não vende só estética, vende a ideia de que, para ser aceito, desejado ou suficiente, é preciso caber naquele molde. “A pessoa passa a se olhar com os olhos do outro, medindo o próprio valor pela aparência, pelo engajamento e pela proximidade com um padrão quase sempre editado e irreal”, afirma.

O professor Kraide acrescenta que a transparência sobre como tudo isso funciona é considerada insuficiente por muitos especialistas e órgãos reguladores. No entanto, novas leis como o ECA Digital, estão, segundo ele, finalmente forçando essas empresas a abrirem o jogo e explicarem como suas escolhas impactam quem consome. Mesmo com ferramentas disponíveis, como “não tenho interesse” ou redefinição de recomendações, o controle do usuário sobre seu consumo ainda é limitado. Segundo ele, o controle existe, mas é restrito. No fim, o algoritmo tende a priorizar retenção acima das preferências explicitamente indicadas, fazendo com que o consumo de conteúdo seja, muitas vezes, conduzido mais pelo sistema do que por escolhas conscientes.

Especialistas apontam a preocupação excessiva com peso e aparência; sinal de alerta é quando a autoestima começa a ficar refém da balança (foto: Helena Frazatto)

A chamada bolha

Quando a exposição às mesmas narrativas e a promessa da vida perfeita via magreza se tornam contínuas, algo mais profundo acontece na mente do jovem. Segundo Sabrina Amaral, a bolha funciona como uma falsa normalidade, criando uma sensação de que aquele padrão é universal, alcançável e obrigatório. “Isso estreita o repertório mental, reduz o senso crítico e aumenta a comparação automática. Psicologicamente, a pessoa passa a organizar seu valor em torno do corpo: come com culpa, se olha com hostilidade e vive em estado de vigilância”, explica.

Doutoranda em Psicologia pela PUC-Campinas com foco em intervenções psicológicas e processo de desenvolvimento humano e professora universitária em Psicologia na Unasp, Mariana Feldmann, reforça que as redes sociais não são um retrato fiel da realidade, mas um recorte onde as pessoas escolhem o que mostrar, editam, filtram e constroem uma versão de si. “Ao se comparar com isso, o jovem parte de um lugar desigual, porque não está lidando com o todo, mas com uma imagem produzida”, afirma.  Ela argumenta ainda que a necessidade de se sentir parte de um grupo, sentimento central na adolescência, pode levar à internalização de padrões como forma de aceitação, intensificando a pressão para se adequar e o sofrimento quando isso não acontece.

Recompensa social

Segundo Sabrina Amaral, na adolescência, a opinião de terceiros pesa mais. “O cérebro está em um período de desenvolvimento marcado por recompensa social, o que torna curtidas, comentários e validação online mais potentes”, avalia. Segundo ela, o jovem ainda está aprendendo a diferenciar referência, propaganda, performance e realidade. “Com o aumento do tempo nas redes e a redução de experiências presenciais, o olhar do outro passa a ser mediado quase exclusivamente pelo ambiente digital”, aponta a profissional.

Para Mariana Feldmann, as redes sociais funcionam como um espelho distorcido, não mostram a realidade, mas recortes altamente editados e valorizados por curtidas. “Para jovens, que ainda estão construindo identidade e autoestima, isso pode gerar uma referência de corpo muito restrita, idealizada e longe de ser a realidade”, aponta. A especialista conta que, na clínica em que trabalha, é perceptível um aumento dessas demandas nos últimos anos. Segundo ela, questões relacionadas à imagem corporal e ao uso de novos métodos de emagrecimento aparecem como temas frequentes no consultório. Ela aponta que adolescentes e adultos jovens entre 12 e 30 anos, são os mais afetados, apesar de observar sinais em meninas entre 10 e 11 anos.

Sabrina Amaral também cita uma análise feita pela PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde Escolar) em 2019, que estimou uma prevalência de 30,2% de insatisfação com a imagem corporal entre adolescentes escolares. Ela explica que, em uma meta-análise global, 22% de crianças e adolescentes apresentaram eating disordered behaviors, com proporções mais altas entre meninas, adolescentes e jovens com maior IMC (índice de massa corporal).

Entre o feed e o espelho

A estudante de arquitetura Gabriela Pellegrino, de 18 anos, conta que o consumo de redes sociais faz parte da sua rotina, principalmente os relacionados com lifestyle, beleza e academia. Para ela, a comparação surge quase automaticamente nesse contexto. “Sim, mesmo inconscientemente acabo me comparando com o conteúdo publicado”, disse. Essa comparação acontece de forma sutil, comparando o corpo, a aparência e a vida de outra pessoa.

Ela afirma ter várias amigas que lidam com distúrbios alimentares. “Sigo influenciadoras desse nicho, mas tento me policiar para não me comparar e acabar tendo gatilhos”, explica. Mesmo com esse cuidado, ela reconhece uma distância clara entre o que é visto nas redes e a realidade. “Eu sei que muito do que está ali publicado não é 100% real. Tem muitas fotos com filtro, edição e ângulos que mudam completamente a imagem real”.

Consumo de redes sociais faz parte da rotina da jovem. Conteúdos vistos acabam se tornando referência, mesmo quando não há intenção direta. (foto: Mariana Carrer)

Dos gatilhos aos transtornos

A exposição frequente a conteúdos sobre emagrecimento pode atuar como gatilho para transtornos alimentares, principalmente quando a pessoa já apresenta algum grau de insatisfação com o próprio corpo ou uma relação mais fragilizada com a alimentação. Esse tipo de conteúdo, segundo Mariana Feldmann, reforça a ideia de que o valor pessoal está ligado ao corpo e ao peso, além de naturalizar práticas restritivas ou uso de medicamentos, como as canetas emagrecedoras. A repetição, potencializada pelos algoritmos, intensifica esse discurso e pode funcionar como gatilho, amplificador e mantenedor do problema.

De acordo com Sabrina Amaral, revisões sistemáticas da literatura mostram que conteúdos sobre emagrecimento, fitspiration, detox e similares se associam à piora da imagem corporal, maior comparação física depreciativa e aumento de comportamentos alimentares desordenados. A psicóloga aponta que estudos chegam a indicar que o tipo de conteúdo consumido pesa mais do que o tempo total de tela.

Para ela, os quadros mais diretamente associados são os transtornos e comportamentos alimentares desordenados, como anorexia nervosa, bulimia nervosa, compulsão alimentar e práticas compensatórias inadequadas. Em casos mais contemporâneos, aparecem também a ortorexia — quando a busca por alimentação “perfeita” vira rigidez e culpa — e a vigorexia, relacionada à dismorfia muscular. “Nem sempre o sofrimento começa com o transtorno alimentar clássico. Às vezes, ele começa como obsessão por o corpo, comer certo ou ficar no shape e fica adoecido ao longo do caminho”, alerta Sabrina.

Mariana Feldmann lembra ainda que esses transtornos não têm uma causa única ou isolada, mas envolvem aspectos psicológicos, sociais, culturais e biológicos. Ainda assim, há uma associação importante com as redes sociais, já que esse tipo de exposição pode intensificar insatisfações e funcionar como um dos fatores que contribuem para o desenvolvimento dos quadros, podendo se manifestar também em outras formas, como a ansiedade, depressão, baixa autoestima, ruminação, medo de julgamento e sofrimento com a imagem corporal. Para ela, outro fator preocupante, segundo a especialista, é quando a autoestima começa a ficar refém da balança.

Autoestima vira refém da balança

De forma mais simples, Sabrina Amaral salienta que o sinal de preocupação não é ter uma insegurança pontual ou querer se cuidar, o problema começa quando isso vira um pensamento recorrente e um sofrimento frequente. “Um bom “limiar” para leigos é este: se a relação com o corpo ou com a alimentação está ocupando espaço demais na sua cabeça, interferindo no seu bem-estar, no seu convívio social ou na sua rotina, já é hora de acender o alerta. Não precisa esperar “ficar grave” para pedir ajuda.”

Da tela à vida real

A saída não é simples, mas começa com reconhecimento. Para Sabrina Amaral, o primeiro passo é perceber que a comparação corporal virou hábito. Depois disso, é preciso interromper o circuito que liga exposição, comparação, autocrítica e tentativa de controle. Na prática, segundo a especialista, isso passa por reduzir gatilhos digitais, questionar padrões irreais, deslocar o foco do corpo como vitrine para o corpo como experiência, e reconstruir autoestima em bases menos estéticas e mais identitárias. Em muitos casos, ambas as profissionais recomendam a psicoterapia como recurso importante para trabalhar perfeccionismo, necessidade de aprovação, vergonha corporal e regulação emocional.

O professor Victor Kraide aponta estratégias concretas no próprio ambiente digital, como evitar assistir por muito tempo vídeos que causem gatilhos, limpar regularmente históricos de busca e listas de seguidores, remover perfis que promovam padrões irreais, utilizar listas de “favoritos” para priorizar conteúdos de amigos e páginas saudáveis, e seguir ativamente perfis que promovam o “corpo real” e movimentos de neutralidade corporal para reeducar o sistema de recomendação.

No caso de filhos adolescentes, Mariana Feldmann reforça o papel das famílias nesse processo, como estabelecer limites de tempo de tela, acompanhar mais de perto os conteúdos acessados e orientar o uso de forma gradual e responsável. Além disso, a profissional destaca que o principal é oferecer escuta sem julgamento, evitar comentários sobre o corpo, mesmo que pareçam positivos, incentivar a busca por ajuda profissional e favorecer a inserção em espaços coletivos de troca reais.

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Gabriel Rosa

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