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‘O Indígena é confundido com estrangeiro dentro do próprio país’

ENTREVISTA Naldo Tukano, estudante de linguística, contribui para ampliar o reconhecimento das múltiplas identidades dos povos originários

Por Manuella Bravo e Vitória Ashilyn

A mudança do termo “Índios” para a nomenclatura atual, Povos Indígenas, representa mais do que uma simples atualização de linguagem. Busca reconhecer a enorme diversidade de etnias, culturas e línguas existentes no Brasil. A nova denominação propõe romper com visões generalistas e estereotipadas que, por muito tempo, reduziram esses povos a uma identidade única e homogênea.

Essa mudança dialoga com um contexto histórico marcado por séculos de apagamento e violência desde o período colonial, iniciado com a chegada dos portugueses em 1500. Ao longo desse processo, os povos indígenas foram alvo de expropriação de terras, tentativas de assimilação cultural e políticas que ignoravam suas especificidades. O próprio termo “índio”, difundido nesse período, carrega uma origem equivocada e reforça uma visão construída de fora para dentro.

Mesmo com avanços legais, como os direitos garantidos pela Constituição de 1988, os povos indígenas ainda enfrentam desafios significativos. Entre eles estão o preconceito, a invisibilidade social e disputas constantes por direitos básicos, como a demarcação de terras, tema frequentemente associado a conflitos e à atuação de órgãos como a FUNAI. A inserção de uma educação de qualidade nas escolas que respeite as culturas originárias segue sendo uma pauta central.

Naldo Tukano, indígena e estudante de linguística na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) atua na defesa dos direitos indígenas e na preservação das línguas originárias, contribuindo para ampliar a visibilidade e o reconhecimento das múltiplas identidades indígenas no país.

Qual é sua função no contexto universitário? Como se dá sua atuação e contribuição junto aos povos indígenas?
Sou indígena do povo Tukano, estudante de linguística aqui na Universidade Estadual de Campinas e estou querendo me formar na luta e nos desafios ao mesmo tempo. Sou coordenador do Encontro do Acordo Ortográfico da Língua Ye’Pá Mahsã, da língua tukana, no meu território. Faço parte do GT Nacional da Década das Línguas Indígenas também. Sou fundador do Grupo de Estudos de Línguas Indígenas aqui na Universidade Estadual de Campinas, sou cofundador do Coletivo de Academias Indígenas da Unicamp e ao mesmo tempo sou defensor de direitos humanos voltado para a população e povos indígenas. Fui bolsista da ONU, ano passado, em 2025, onde fizemos formação em Genebra, na Suíça. Passamos um mês lutando, desenvolvendo e praticando todos os sistemas de defesas e mecanismos voltados para a população e indígenas do mundo.

Por que a substituição do termo Índios para Povos Indígenas é importante diante da forma como esses povos foram historicamente nomeados e estigmatizados no Brasil?
Muitos falam sobre a questão do termo índio num sentido mais do dicionário. Seria um termo da tabela ‘periódica’ e assim por diante. Como estudante de linguística, eu traço uma linha semiótica do discurso para além disso. Porque ela carrega um peso tão grande, desde a colonização e a invasão deste território, que esse termo começou a matar pessoas, estigmatizar pessoas, fazer com que esses seres humanos morressem por todo esse tempo. Então a mudança do nome vem para tentar quebrar o estereótipo e o paradigma do conceito. Mas, infelizmente, ao mesmo tempo, o termo indígena também traz uma consequência muito ruim para os mais de 390 povos indígenas que existem no Brasil. Porque nenhum dos termos é nosso. Os dois termos ainda são estigmatizantes, querendo ou não. A gente pode se apropriar desses termos para poder nos garantir políticas públicas mais voltadas para os povos indígenas, porque sem o termo a gente não pode solicitar o direito de fazer o vestibular indígena, por exemplo, não pode solicitar o direito de demarcação de territórios indígenas e assim por diante. Porém, ainda carrega um conceito muito forte para estigmatizar e matar esses povos mais marginalizados.

Como o tratamento da cultura indígena nas escolas reflete processos históricos de desvalorização e preconceito contra esses povos?
Tem vários pontos aí, porque nenhuma cultura aceita o deboche e muitas das vezes as pessoas debocham da gente como se nós não fossemos seres humanos. No início da colonização, com a chegada dos jesuítas, eles mataram a gente com três siglinhas: R, L, F. Rei, Lei, Fé. E depois disso falaram que a gente era uma alma vazia, por isso o direito de matar e escravizar. Aí quando as pessoas vão comemorar o dia do índio, as pessoas estigmatizam e debocham dessas pessoas, dessa diversidade. No vídeo abaixo Naldo fala sobre sua experiência com a educação antirracista em Campinas…

Quais mudanças já podem ser percebidas?
Em 2019, quando a gente chegou aqui, isso era muito preocupante. Mas aí, através de trabalhos voltados para a própria população, a gente começou a mudar esse cenário e através do debate de formação de professores e formação de alunos ao mesmo tempo. Ano passado eu comecei a me sentir um pouco melhor porque em uma das escolas que eu fui, uma criança pequena veio do meu lado e falou assim: ‘Seu Naldo, você é indígena? De qual povo você é?’ Parece um ato simples e de curiosidade, mas que muda toda uma perspectiva de história.

Quais desafios ainda persistem e o que precisa mudar em relação ao reconhecimento e respeito aos povos indígenas no Brasil?
Eu gostaria que as pessoas conhecessem a nossa diversidade e a peculiaridade que a gente carrega na nossa alma, porque é muito ruim você andar nas ruas e você ser um estrangeiro no seu próprio país. Em muitos lugares que eu vou, as pessoas falam: você é boliviano? Você é peruano? Você é chileno? Você é chinês? Você é japonês? Mas nunca me perguntaram se eu sou brasileiro. Eu acho que a curiosidade, o respeito que deve ser passado para a nossa geração e para a sociedade brasileira é de respeito mútuo, de respeito que as pessoas tenham curiosidade sobre os nossos corpos, não estigmatizados, mas que a gente consiga dialogar com todo mundo. Porque se não for assim, a gente tem andado a passos bem firmes na morte dessa diversidade que nunca fez mal a ninguém.

Orientação e edição: Adauto Molck

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