As mudanças no comportamento infantil já são visíveis em sala de aula e acendem sinais de alerta para pais e profissionais da educação
Por Giovana Gazzetta e Julia Ferreira
O scroll (rolagem de telas) já virou rotina e ocupa um espaço crescente no cotidiano infantil brasileiro. Segundo a pesquisa desenvolvida pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas diariamente a dispositivos digitais. Antes mesmo de dominar as palavras, já sabem deslizar o dedo pela tela de um celular. Sentadas no sofá, no carrinho de bebê ou à mesa, navegam por vídeos curtos marcados por cores vibrantes e respostas imediatas. Para muitos adultos, o gesto cumpre uma solução prática: acalmar, entreter ou simplesmente preencher intervalos da rotina acelerada.
Em poucos segundos, o choro cessa, a atenção se fixa e o tempo, que já é escasso, voa. Mas o hábito, aparentemente inofensivo, começa a produzir seus efeitos rapidamente. Mãe de um menino de 5 anos, Danielle Zabbotto relata que o uso de dispositivos como o iPad cria um cenário de “sossego total” e de alienação, mas vê com preocupação a imersão profunda do filho nesse universo digital. Segundo ela, se não houver um esforço ativo da família para propor outras atividades, a criança acaba perdendo o interesse por brincadeiras simples e táteis, como o desenho.
Em escolas, profissionais da educação relatam mudanças no comportamento, na linguagem e na capacidade de concentração dos alunos que chegam à sala de aula já adaptadas ao ritmo das telas. Segundo Graziela Nardim, coordenadora pedagógica, “os professores precisam adotar estratégias constantes” para sustentar o foco dos estudantes. Para ela, se, por um lado, esse comportamento se consolidou como parte da rotina doméstica, por outro, seus efeitos já atravessam o ambiente escolar e levantam dúvidas sobre os limites entre uso, excesso e impacto no desenvolvimento infantil.
Conexão precoce
Os relatos não são isolados. No Brasil, o contato com a internet começa cada vez mais cedo, inclusive antes dos dois anos de idade, faixa para a qual especialistas recomendam ausência total de exposição. Nesse contexto, o chamado tempo de tela, definido pelo Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância como o período gasto diante de qualquer tipo de tela, incluindo televisão, computadores, smartphones, tablets e jogos digitais, se amplia sem necessariamente ser percebido como um fator de risco. Dados recentes indicam que quase metade das crianças nessa faixa etária já teve acesso a dispositivos conectados, enquanto entre 6 e 8 anos o índice ultrapassa 80%. Ainda assim, o uso desses recursos segue sendo tratado, na maior parte das vezes, como uma escolha individual das famílias, e não como uma questão de interesse coletivo.

Desenvolvimento em curso
A neuropsicopedagoga clínica, Gabriela Meira, afirma que a primeira infância corresponde à fase mais intensa do desenvolvimento cerebral e compartilha que essa formação neurobiológica ocorre hierarquicamente até os 25 anos. “Se a gente for falar de desenvolvimento, trabalhamos numa curva. O início ocorre até os 6 anos, 90% de todas as conexões que a gente tem no nosso cérebro são feitas durante esse período. Depois, entramos numa estabilidade, e mais adiante, em declínio”, explica.

A primeira infância corresponde a maior fase de plasticidade do cérebro. Gabriela reforça que neste momento há uma janela de oportunidade, em que a criança, exposta às mais diversas experiências, aprende facilmente sobre línguas, comportamento e informações que colaboram para a evolução do ser humano.
Segundo ela, esse processo começa ainda antes do nascimento e se intensifica nos primeiros anos de vida. “Do embrião até os dois anos de idade, é a fase em que mais fazemos sinapses. Acontecem de 700 a 1.000 conexões por segundo. Quando há interação, há mais aprendizagem”, diz.
O desafio, portanto, deixa de se limitar ao tempo de exposição e passa a envolver uma reflexão mais ampla sobre o que está sendo substituído: a qualidade das experiências vividas pela criança. Interações humanas, brincadeiras, linguagem e exploração do ambiente físico são elementos centrais para o desenvolvimento que não encontram equivalência no ambiente digital.
Impactos além da atenção
De forma silenciosa, as telas ocupam significativo espaço na infância e os impactos vão muito além da distração momentânea e de mudanças pontuais no comportamento. Com menos experiências fora do ambiente digital, o desenvolvimento deixa de ser ampliado e passa a ser restringido, como pontua Beatriz Bermudez, do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Ela aponta que o cérebro passa a se adaptar a estímulos rápidos, fragmentados e altamente recompensadores, gerando desdobramentos negativos ao comportamento daquele indivíduo. “Essa adaptação cerebral dificulta a tolerância à frustração e a manutenção da atenção em atividades menos estimulantes. Biologicamente, há hiperestimulação de sistemas de recompensa rápida (dopaminérgicos) e diminui-se a prática de funções executivas, como controle inibitório e planejamento”, contextualiza.
Para Beatriz, a criança aprende por meio das experiências com o mundo ao redor, isto é, quando há conexões entre pessoas, ambiente e natureza, por esse motivo, o contato com as telas descontroladas torna-se nocivo para os pequenos. “As consequências mais comuns são a redução do brincar ativo, o atraso no desenvolvimento da linguagem, problemas relacionados à atenção, concentração e sono, além de maior irritabilidade e dificuldade de autorregulação”, cita. Ela pontua também que há o excesso de telas nas famílias. “Esse uso excessivo altera a dinâmica familiar, reduz interações face a face, empobrece o brincar e interfere na formação de vínculos seguros.”
Avaliação que é compartilhada por Thiago Ferrari, coordenador do programa Primeira Infância Campineira (PIC) e líder executivo em Políticas para a Primeira Infância formado por Harvard, ao apontar a falta de afeto entre os jovens. “Hoje a gente vê uma falta de empatia dos adolescentes que tiveram acesso ao uso de telas. Eu costumo dizer que a gente tem que voltar a resgatar a nossa humanidade”.
Ferrari apela para as políticas públicas tendo como base pesquisa do economista James Heckman, a qual comprova que o investimento na primeira infância traz retorno para a sociedade na quebra do ciclo de pobreza e ciclos estruturais, como racismo ou machismo, e na diminuição dos índices de violência. “Investir na primeira infância, é dar estímulos para essa criança. Você está dando afeto, carinho e cuidado”, observa.
Danielle Zabotto afirma entender que as tecnologias possuem diversos malefícios para crianças. Em sua opinião, há a necessidade de controlar o uso das telas, destinado apenas para momentos de lazer. “Quando eu estou sem rede de apoio, libero o iPad e a televisão, o que entra como um lazer quando volta da escola e no final de semana”, compartilha.
A realidade, no entanto, não é homogênea. O uso de telas na infância também está atravessado por fatores como condições socioeconômicas, carga de trabalho, redes de apoio limitadas e contexto cultural. Famílias em situação de vulnerabilidade, por exemplo, podem ter menos tempo e recursos para mediar o uso de dispositivos digitais, quando o acesso às telas deixa de ser escolha e passa a ser uma estratégia em uma rotina exaustiva.
Quando a escola percebe primeiro
A coordenadora pedagógica Graziela Nardim observa que a dinâmica em sala de aula foi profundamente alterada pela necessidade de disputar a atenção dos alunos, que hoje apresentam uma dispersão acentuada. A transição do tátil para o digital cobra seu preço não apenas na alfabetização, mas no próprio repertório cultural da infância. Graziela aponta que a pressa do mundo virtual tem gerado uma lacuna preocupante nas competências básicas: “Na comunicação escrita, há desafios, especialmente pelo uso frequente de abreviações e dificuldades na coordenação motora e o repertório das crianças está ficando limitado, pois estão perdendo o interesse pela leitura”, pontua.
O reflexo desse comportamento reflete na personalidade ao criar um fenômeno de mimetização digital onde os pequenos passam a “reproduzir comportamentos, falas e atitudes semelhantes aos conteúdos que consomem”, frisa. A pedagoga salienta que a escola tem que expandir seu raio de ação e atuar como mediadora de uma lacuna socioemocional. “O trabalho pedagógico agora invade o campo ético e virtual, em algumas para intervir em grupos de WhatsApp por relatos de cyberbullying”.
Legislação atenta
Iniciativas como o ECA Digital, implementado no último dia 17, surgem como uma tentativa para proteção já definida no Estatuto da Criança e do Adolescente, com diretrizes sobre o uso de plataformas digitais por crianças e adolescentes, responsabilizando empresas. A legislação amplia mecanismos de proteção de dados e reforçando o dever de cuidado em relação à exposição precoce a conteúdos inadequados.
Alexandre Aguado, doutor em Educação pela Universitat Autònoma de Barcelona e pós doutorando em estudos críticos de tecnologia e educação, alerta que a legislação, por si só, não é suficiente para enfrentar a complexidade da questão. “A educação é o elemento central para desenrolar outras culturas tecnológicas, em que, pouco a pouco, superamos a tecnocultura de consumo, onde nós consumimos e somos consumidos pelas tecnologias”, avalia. Segundo ele, sem esse preparo, as normas tendem a ter alcance limitado diante da rapidez com que as tecnologias e os comportamentos digitais se transformam.
A pediatra Beatriz Bermudez chama a atenção para a atuação de predadores digitais. “Há a prática do sexting, que consiste em fotos ou vídeos íntimos compartilhados, geralmente entre adolescentes, que costumam ser divulgados sem consentimento; da sextorsão (extorsão com imagens íntimas, em troca de dinheiro, mais imagens ou favores sexuais); e até indução ao vício em jogos e apostas online”.
Caminhos para o uso consciente

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, menores de dois anos devem evitar totalmente o uso de telas (celular, tablet, TV), mesmo que de forma passiva, sendo recomendado regras na utilização das telas. Gabriela Meira também contribuiu para essa discussão. A neuropsicopedagoga argumenta que os pequenos aprendem pelo modelo de repetição e, por isso, é fundamental que os pais deem o exemplo, como a leitura. “Se eu identifico erros ortográficos, falo que a criança precisa ler, mas há pais que não lêem um livro há 10 anos. Isso é complicado”.

Tendo em vista que a tela é vício em dopamina (neurotransmissor que regula a sensação de prazer), este contentamento deve ser substituído por outra atividade também estimulante. Gabriela orienta substituir a tela por exercícios ao ar livre.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Murilo Sacardi

