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Campinas tem maior índice de feminicídios do Sudoeste

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Se a mulher está em vulnerabilidade socia – é pobre, negra, lésbica ou trans – as violências se sobrepõem

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Por Pamela Sousa & Isabela Reis

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Campinas registra maior concentração de feminicídios na Região Sudoeste (12 casos), seguida por regiões Leste e Sul, segundo pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Estadual de Campinas. Embora o dado não explique sozinho o fenômeno, especialistas ressaltam que vulnerabilidades sociais se sobrepõem. A socióloga Zeza Lopes identifica esse fenômeno como interseccionalidade: se é pobre, negra, lésbica ou trans, as violências são maiores.

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Entre 2018 e 2025, Campinas registrou 57 feminicídios, revelando um padrão persistente da violência de gênero que se mantém ao longo dos anos. Os dados mostram oscilações anuais, com picos em 2019, 2022 e 2024, mas nenhuma tendência de queda sustentada. Para especialistas os números reforçam o que já apontam décadas de estudos: o feminicídio é o desfecho extremo de um ciclo de violência marcado pela desigualdade de gênero e pelo machismo estrutural.

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A maior parte das mulheres assassinadas tinha entre 30 e 50 anos (32 casos), faixa etária que historicamente concentra relações conjugais mais longas, disputas motivadas por controle de rotina e dependência econômica, um cenário que aumenta o risco de violência doméstica. Outras 14 vítimas tinham entre 10 e 30 anos, e há registros de duas meninas menores de 10 anos.

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A socióloga Zeza Lopes e a coordenadora da delegacia da mulher, Jamila Ferrari (Fotos: Pâmela Sousa)

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A forma como essas mulheres foram mortas reforça a crueldade dos crimes. Esfaqueamento (28% dos casos) e tiros (19,3%) aparecem como os métodos mais frequentes, seguidos por estrangulamentos, facadas e queimaduras. Para a socióloga Zeza Lopes, a brutalidade expressa uma lógica de posse. “Homens se acham no direito de se apropriar da mulher, de colocar limites, de explorar. Eles se acham donos dela, senhores dela.”

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Os dados mostram que a violência é quase sempre praticada por quem diz amar: 48 das 57 mortes foram cometidas por companheiros, maridos, namorados ou ex-parceiros. Para Jamila Ferrari, que coordenou as Delegacias da Mulher do Estado de São Paulo entre 2019 e 2024, esse é um padrão conhecido e ainda subnotificado. “A maioria das mulheres que morrem nunca registraram boletim de ocorrência. Mas quando conversamos com familiares, eles dizem que ele ameaçava, xingava, e que existiam agressões. Essa mulher nunca procurou o sistema policial.” Jamila lembra que a pandemia de Covid-19 agravou o cenário. “Nosso grande desafio foi 2020. As mulheres estavam trancadas em casa com seus agressores. Tínhamos que criar ferramentas para que elas pudessem pedir ajuda.”

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A trajetória de Carmen Souza, 55 anos, líder da Comunidade Feminista Menino Chorão, em Campinas, reforça esse diagnóstico. Sobre o início de sua relação com o ex-marido, ela lembra que, ainda jovem, percebeu que vivia um cenário de violência. “Comecei a ver que só eu levava aquele relacionamento a sério. Ele não tinha carinho, não tinha afeto. Eu sofria muita violência, ele me tratava mal. Eu queria outra vida.”

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LUGAR PERIGOSO
A residência aparece como local da morte em 63,7% dos casos, reforçando que o feminicídio é parte de uma violência contínua e doméstica. Tanto Zeza quanto Thaís Cremasco, coordenadora do núcleo de violência contra a mulher da OAB-SP, destacam que a violência psicológica, muitas vezes invisibilizada pela própria vítima, antecede a violência física. “A violência física a mulher é obrigada a perceber, porque dói. Mas todas as outras violências, muitas vezes, ela não consegue identificar”, diz Cremasco.

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Para Zeza, que trabalhou no atendimento direto a mulheres por décadas, a violência não se limita a agressões físicas, mas inclui mecanismos de controle psicológico e emocional que adoecem as vítimas “Atendi mulheres perseguidas, humilhadas, desmoralizadas. A violência psicológica já as deixava doentes.”

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O relato de Carmen ilustra como a casa se torna um ambiente de degradação emocional antes de qualquer agressão física “Eu queria ter liberdade de conversar com minhas amigas, de ir para onde eu queria. Dentro de casa, eu era só alguém que servia.”

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Fonte: Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp

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MOTIVAÇÕES
Entre as motivações registradas, 20 feminicídios ocorreram porque o agressor não aceitava o fim do relacionamento. Outros foram motivados por discussões e brigas, embora 25 casos tenham motivação não especificada. Tanto Jamila quanto Cremasco destacam que a “legítima defesa da honra”, embora declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 2023, deixou marcas profundas na cultura “O que é a legítima defesa da honra? A ideia de que a mulher merece ser morta porque feriu a honra do homem”, diz Cremasco. Essa mentalidade persiste, segundo Zeza, porque “Homens e mulheres são vítimas de uma cultura patriarcal que legitima comportamentos violentos.”

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A análise dos dados de Campinas, combinada às falas das especialistas, mostra que o feminicídio é um fenômeno social profundamente enraizado. Envolve desigualdades históricas, traumas familiares, cultura patriarcal e falhas estruturais na proteção das mulheres. Como sintetiza Jamila Ferrari, “é intolerável, inaceitável que uma mulher morra pelo simples fato de ser mulher.”

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Orientação e edição: Adauto Molck

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