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Pesquisa da Unicamp aponta avanço de drogas sintéticas entre jovens 

Estudo analisou 1565 amostras de saliva e encontrou novas substâncias psicoativas, muitas desconhecidas pelos próprios usuários 

Por Dan Whitacker e Renan Dallan 

Uma pesquisa da Unicamp, em parceria com a Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos), analisou 1.565 amostras de saliva coletadas em 14 festas e festivais entre 2023 e 2025 e identificou a presença de novas substâncias psicoativas (NSP) entre jovens brasileiros. Os dados mostram que 63,2% dos participantes tinham entre 18 e 24 anos e que 70,8% declararam ter consumido drogas ilícitas. 

O estudo acende um alerta para o avanço dessas substâncias no país. Conhecidas como NSP, elas são produzidas a partir de alterações moleculares em drogas já existentes, com o intuito de driblar a legislação. “As pessoas as consomem para fins recreativos de forma indiscriminada até o momento em que elas são incluídas em algum tipo de controle internacional”, explica José Luiz da Costa, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp e coordenador-executivo do Ciatox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica). Além disso, costumam apresentar efeitos imprevisíveis e alto potencial tóxico. 

Entre os casos monitorados pela pesquisa, coordenada pelo Ciatox em parceria com a universidade e com a Senad, está a primeira detecção, no Brasil, do N-pirrolidino protonitazeno, um opioide sintético altamente tóxico. Ele foi identificado em um paciente que deu entrada no Hospital das Clínicas da Unicamp, em julho de 2025, por pesquisadores do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox). 

Estudo da Unicamp aponta avanço no consumo de drogas sintéticas entre jovens e reforça debate sobre redução de danos em eventos (Foto: Dan Whitacker)

Segundo informações divulgadas pela instituição, o paciente já chegou ao local com um quadro de intoxicação considerado grave. Ele relatou ter ingerido um comprimido de substância estimulante e, em seguida, apresentou sintomas como sonolência intensa e perda de consciência. 

Em seção destinada ao Ministério da Saúde, em www.gov.br, fica evidenciado que, apesar de muitas das novas substâncias psicoativas serem comercializadas como estimulantes ou alucinógenos, seus efeitos são variáveis e incluem depressão do sistema nervoso central, comprometimento respiratório e perda de consciência. 

Segundo o professor da universidade, além dos efeitos alarmantes, como muitas substâncias ainda não são conhecidas ou catalogadas, profissionais de saúde têm dificuldade para identificar rapidamente a causa da intoxicação e definir o tratamento adequado. A detecção laboratorial dessas drogas exige tecnologia avançada e equipamentos de alta precisão, disponíveis em poucos laboratórios do país, destaca José Luiz da Costa. 

Segundo Costa, o consumo dessas drogas acontece de forma dinâmica e pouco previsível. “As pessoas consomem as drogas para fins recreativos de forma indiscriminada até o momento em que elas são incluídas em algum tipo de controle internacional”, afirmou. 

Além do avanço das novas drogas, a pesquisa revelou um padrão recorrente de consumo. “O cenário mais comum era o de policonsumo. A maior parte das amostras tinha entre seis e sete substâncias”, explicou Costa. 

Infográfico retrata os resultados da pesquisa da Unicamp, em parceria com o Senad, sobre as substâncias encontradas nas 1565 amostras coletadas (Foto: Gráfico desenvolvido com uso de IA)

Entre as substâncias mais encontradas estavam nicotina (72,3%), MDA (71,7%), THC (48,7%) e MDMA (47,5%). Também foram identificadas NSP como MDEA (9,3%), desclorocetamina (3,1%), dipentilona (2,9%) e metilona (2,4%). 

Segundo Náthaly Bueno, pesquisadora e doutoranda em Farmácia ligada ao projeto, a pesquisa também revelou um padrão preocupante entre frequentadores de festas e festivais: muitos usuários desconhecem o que realmente consomem. “Muitos relataram que não sabiam que tinham consumido determinadas substâncias”, afirmou. 

A pesquisadora destaca que a proposta do estudo foi baseada na estratégia de redução de danos. A iniciativa busca reduzir riscos por meio de informação, orientação e prevenção de intoxicações. Durante as ações em eventos, os participantes receberam materiais informativos, esclareceram dúvidas e tiveram acesso posterior aos resultados toxicológicos das amostras coletadas. 

Segundo Náthaly, ambientes como festivais e festas eletrônicas apresentam maior abertura para abordar o tema. “Em festas desse tipo, é comum encontrarmos pessoas interessadas em conhecer as substâncias e seus efeitos”, relatou. 

Os resultados obtidos pela pesquisa também dialogam com dados de segurança pública. Para Costa, o material coletado funciona como um indicador do comportamento do mercado de drogas no país, uma vez que acompanha os dados de apreensões da polícia. 

A Polícia Rodoviária Federal registrou recordes de apreensões de drogas em 2024, enquanto o Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) apreendeu 187 quilos de drogas sintéticas conhecidas como drogas K, frente a 22 quilos registrados anteriormente. Segundo o órgão, o aumento está relacionado à produção nacional em laboratórios clandestinos. 

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Gabriel Rosa

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