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Da educação básica à Unicamp, professores enfrentam arrocho e sobrecarga

Após anos de perdas salariais, professores enfrentam instabilidade na rede básica e paralisações no ensino superior

Por Luiza Pessopane e Maria Vitória Porto

Erika Siste Boaventura tinha 43 anos e 16 de rede estadual quando decidiu que não voltaria. Pediu exoneração. “Saí porque estão acabando com as disciplinas de humanas e por causa do salário”, disse. A docente era professora de sociologia.

Hoje efetiva na Prefeitura de Paulínia, ela passou a buscar uma nova graduação para não depender da carreira que deixou. A permanência no estado, explicou, significaria acumular “dívidas e empréstimos”.

A escolha de Erika não foi uma decisão pessoal. Foi resposta a uma política salarial. Entre 2020 e 2025, o salário-base dos professores da carreira antiga da rede estadual paulista não teve nenhum reajuste.

O governo cobriu a defasagem em relação ao piso salarial nacional do magistério com abonos complementares. Esses abonos, segundo o Centro do Professorado Paulista (CPP) e a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), não entram no salário-base, nos adicionais por tempo de serviço nem na aposentadoria. No mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acumulou cerca de 38,7%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Essa decisão tem raiz mais funda. O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), principal tributo estadual, repassa às universidades públicas paulistas uma fatia congelada em 9,57% desde 1995. As três são a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). No mesmo intervalo, o número de campi quase dobrou, segundo o Fórum das Seis, entidade que reúne sindicatos e associações de docentes, funcionários e estudantes das estaduais.

Na rede básica, a substituição de efetivos por temporários acelerou na mesma direção. Em 2023, pela primeira vez, os contratos temporários superaram os efetivos: 101.228 contra 90.497, segundo pesquisa do Todos pela Educação. Em dez anos, os temporários cresceram 83% e os efetivos caíram 46%. O professor temporário entra pela chamada Categoria O, regime de prazo determinado, sem estabilidade e sem acúmulo de direitos de carreira. Quando não há aulas para atribuir, seu contrato não é renovado. Custa menos aos cofres públicos no curto prazo.

O resultado acumulado aparece no orçamento da Unesp para 2026: um déficit de R$ 189 milhões, coberto por sobras de anos anteriores. A universidade também suspendeu os concursos que previam contratar 150 docentes e 100 técnicos.

A comparação entre as leis orçamentárias revela a dimensão da escolha. A Lei Orçamentária Anual de Campinas para 2026, Lei nº 16.859, de 29 de dezembro de 2025, destina R$ 2,65 bilhões à educação, o equivalente a 22,6% do orçamento municipal. A do Estado de São Paulo, Lei nº 18.387, de 6 de janeiro de 2026, destina R$ 33,3 bilhões à Secretaria de Educação, ou 8,7% de um total de R$ 382,3 bilhões. É essa diferença de proporção que torna carreiras municipais, como a que Erika assumiu em Paulínia, mais atraentes do que a rede estadual.

O economista Fabrício Pessato, professor de Economia e Finanças no Centro Universitário Metrocamp e no Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) de Campinas, mestre em Teoria Econômica, explicou a diferença entre os setores. No setor privado, a inflação é reposta a cada ano por negociação coletiva. Na rede pública, os professores dependem de decisões políticas e orçamentárias. “Os professores que estão no topo da carreira, estão nas fases mais antigas da profissão, sequer tiveram o reajuste da inflação, tão defasado até com relação à inflação. Então, é como se eles não tivessem nem tido esse reajuste”, afirmou. O cenário, observou, resulta em desgaste físico e mental.

Uma professora de Língua Portuguesa preferiu não se identificar, por temer pela renovação do contrato. Ela foi efetiva na rede estadual de Campinas entre 2012 e 2015 e, após pedir exoneração, voltou como temporária pela Categoria O. Relatou os impactos dessa rotina na própria saúde. “Toda a situação da educação me faz pensar em deixar a profissão. Atualmente, estou afastada por questões relacionadas ao trabalho e me sinto parte de um contingente de professores que adoeceram diante das diversas formas de precarização da nossa profissão”, afirmou.

Precarização avança para o ensino superior e motiva greve na Unicamp

O sucateamento da educação básica encontra eco no ensino superior. A greve na Unicamp, deflagrada em 18 de maio de 2026, expõe a deterioração das condições nas universidades públicas paulistas, medida no próprio ranking que a instituição integra. Na edição de 2026 do Global 2000, do Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR), divulgada em junho, 45 das 52 universidades brasileiras avaliadas perderam posições, o equivalente a 86,5%. A Unicamp recuou dez postos, da 369ª posição, ocupada em 2025, para a 379ª.

O estopim da paralisação foi a proposta do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp): um reajuste de apenas 3,47%, calculado pelo IPC-Fipe, índice de inflação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. O valor foi considerado insuficiente. A defasagem acumulada desde 2012, a perda de poder de compra não reposta no período, chega a 15,97%, segundo o Fórum das Seis. Para Felipe Mello, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp, as perdas se somam há mais de uma década. “A reitoria da Unicamp relega seus servidores técnicos administrativos ao não propor um reajuste decente, cortar a verba para a progressão de carreira e não contratar servidores o suficiente para dar conta do funcionamento da universidade”, explicou o dirigente.

Pelo lado da administração, o Cruesp sustenta, em comunicados públicos, que a proposta preserva o poder de compra dos salários sem comprometer o equilíbrio orçamentário das universidades. Lembra ainda que Unesp e Unicamp já projetam déficit para 2026. Em 10 de junho de 2026, depois de deflagrada a greve, o conselho elevou a proposta de 3,47% para 3,92% e prometeu reuniões técnicas no segundo semestre para acompanhar a arrecadação do ICMS.

Para o professor Lucas Barbosa Pelissari, da Faculdade de Educação da Unicamp, a greve responde ao “estrangulamento” da universidade. “A gente vê uma situação de estrangulamento na universidade com aumento, uma sobrecarga bastante grande de trabalho e das exigências, sendo que essas exigências não são acompanhadas de contratação de mais pessoal”, observou. Ele acrescentou que o salário atual não permite manter o padrão de vida de cinco anos atrás, o que gera insatisfação mesmo em categorias com remuneração acima da média nacional.

A percepção é compartilhada pelo professor Lalo Watanabe Minto, que observou o efeito direto da inflação no dia a dia. “Uma forma bem direta de perceber a redução do padrão de vida é o tempo que os nossos ‘vales’ (alimentação e refeição) duram no mês. Com certeza hoje o saldo se esgota mais rápido que alguns anos atrás”, relatou.

Para sustentar que a crise é um projeto, e não um acidente, Pessato recorreu a uma frase do antropólogo Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Os números dão concretude à tese. O congelamento do ICMS, a substituição de efetivos por temporários e o acúmulo de déficits são escolhas orçamentárias com beneficiários identificáveis.

Pessato argumentou que a classe dominante brasileira não prioriza a formação de mão de obra qualificada nem de massa crítica, e prefere manter o país dependente de setores de baixo valor agregado. Erika Boaventura entendeu esse cálculo antes de conhecer o nome dele. Depois de 16 anos na rede estadual, pediu exoneração, migrou para a prefeitura e voltou aos estudos. Não por vocação renovada, mas para não depender de uma carreira que o estado esvaziou por dentro.

Créditos Foto: Artur Araújo

Orientação: Profª Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves