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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

RMC avança com inovação, mas trabalhadores de Hortolândia e Sumaré pagam até um terço do salário para chegar ao emprego 

Mais de 80 mil moradores das duas cidades trabalham fora de seus municípios. Para quem depende de ônibus, o transporte consome até 33,9% do salário mínimo nacional 

Por Luisa Viana e Taís Regina

A auxiliar administrativa Yasmin Marques, de 23 anos, sai de casa em Hortolândia pouco antes das 6h para começar o expediente às 8h em uma empresa de Campinas. Quando o trânsito colabora, o trajeto de ônibus leva cerca de 45 minutos. Em dias de chuva ou acidente, passa de uma hora. “O mais cansativo não é só o tempo dentro do ônibus, mas a sensação de passar boa parte do dia em deslocamento”, contou.

Foto: Yasmin Marques gasta cerca de 45 minutos de ônibus no trajeto entre Hortolândia e Campinas. Em dias de chuva ou acidente, o tempo pode passar de uma hora (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo ela, morar mais perto do trabalho não é viável. “Acaba sendo uma escolha financeira. O aluguel em Hortolândia cabe no orçamento, mas o preço que pagamos é o tempo gasto todos os dias.”

A conta de Yasmin não é exceção. Dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados em outubro de 2025 no módulo “Deslocamentos para trabalho e estudo”, mostram que em Hortolândia 41.707 moradores trabalham em outro município. Esse número equivale a 37,4% das pessoas que têm emprego na cidade. Em Sumaré, são 38.421 trabalhadores nessa situação, 30,2% do total. Juntas, as duas cidades somam mais de 80 mil moradores que se deslocam regularmente para trabalhar em outras localidades da região.

O ônibus é uma das principais alternativas para esses deslocamentos. Em Hortolândia, 25.710 pessoas o utilizam para chegar ao trabalho, 27% dos trabalhadores. Em Sumaré, são 27.891 usuários, 25,5%. Entre os moradores de Hortolândia que usam ônibus, 40% levam entre 31 minutos e uma hora no trajeto. Em Sumaré, o percentual sobe para 42%.

O custo do deslocamento

O transporte entre as cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC) funciona em dois sistemas separados: o intermunicipal, com ônibus que ligam um município a outro sob regulação do governo estadual, e o municipal, que circula dentro de cada cidade. Quem precisa dos dois paga duas tarifas.

Em 6 de janeiro de 2026, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) assumiu as funções da extinta Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) no transporte intermunicipal da região. Desde então, a tarifa para o trecho Hortolândia-Campinas é de R$ 6,50 por viagem. Em 22 dias úteis, ida e volta, o gasto com o ônibus intermunicipal chega a R$ 286 por mês. Para quem ainda precisa do ônibus municipal de Campinas, o Bilhete Único, a tarifa do transporte dentro da cidade gerida pela Transurc, custa R$ 6,00 desde 1º de janeiro de 2026. Somadas as duas tarifas, o custo mensal chega a R$ 550.

Frente ao salário mínimo nacional de R$ 1.621, esse valor representa 33,9% da renda bruta. É mais de um terço do salário antes de pagar aluguel, alimentação ou qualquer outra despesa. Mesmo considerando o piso salarial do estado de São Paulo, que é superior ao nacional e foi reajustado em junho de 2026 para R$ 1.874,36 (Lei 18.471/2026), o transporte ainda compromete 29,3% do orçamento.

Para quem parte de Sumaré, a tarifa intermunicipal sob a Artesp varia entre R$ 6,15 e R$ 6,70 por trecho, conforme a linha. Sem necessidade de ônibus municipal em Campinas, o gasto mensal fica entre R$ 270 e R$ 295. Quando se soma o aluguel nas franjas periféricas de Sumaré, que raramente fica abaixo de R$ 850 a R$ 1.000, transporte e moradia juntos consomem entre 69% e 80% de um salário mínimo. Sobra pouco para alimentação, saúde e contas básicas.

Um padrão que se repete

A situação vivida por Yasmin e por milhares de trabalhadores pendulares não é nova nem acidental. O termo designa quem se desloca entre a cidade onde mora e a cidade onde trabalha. Pesquisas do Núcleo de Estudos de População (NEPO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenadas pelo pesquisador em população e urbanização José Marcos Pinto da Cunha, documentam há duas décadas o mesmo padrão na RMC: o crescimento econômico do polo eleva os preços de moradia, e os trabalhadores de baixa renda são empurrados para municípios vizinhos.

Segundo levantamento de Cunha publicado em 2017 pela Revista Pesquisa Fapesp, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, quase metade da população economicamente ativa de Hortolândia, ou seja, das pessoas em condição de trabalhar, já exercia suas funções em Campinas em 2010. Dados compilados pelo NEPO a partir do Censo daquele ano mostram que apenas 6,3% dos migrantes que se instalaram em Hortolândia viviam em domicílios com rendimento acima de dez salários mínimos, o que hoje equivaleria a pouco mais de R$ 16 mil mensais. Em Valinhos, município da mesma região metropolitana, esse índice superava 56%. A diferença ilustra como a RMC distribui seus trabalhadores no espaço: quem ganha mais mora perto do polo; quem ganha menos vai para a periferia e arca com o custo do deslocamento.

Em entrevista ao Jornal da Unicamp em 2013, Cunha afirmou que o surgimento de Hortolândia, Monte Mor e Sumaré como cidades-dormitório, municípios cuja população sai para trabalhar em outra cidade e retorna apenas para dormir, se deve à ausência de uma política de loteamentos populares em Campinas. Loteamentos populares são terrenos urbanizados e vendidos a preços acessíveis para famílias de baixa renda. “Se o poder público não dá direito à cidade, as pessoas ocupam”, disse o pesquisador.

Segundo levantamento publicado pelo NEPO em 2015, com base nos dados do Censo 2010, 66,1% do volume total da mobilidade pendular na RMC se concentrava em cinco dos 20 municípios: Americana, Campinas, Hortolândia, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré. Os pesquisadores classificam Sumaré e Hortolândia como “periferias de Campinas, o município central da região metropolitana”.

O indicador do Censo 2022 mede quantos trabalhadores exercem suas funções fora do município de residência, independentemente do destino, e não é diretamente comparável ao levantamento anterior. Ainda assim, confirma que o padrão permanece: mais de um terço das pessoas empregadas em Hortolândia trabalha fora do município.

A reportagem procurou o Siemaco Campinas, sindicato que representa trabalhadores dos setores de limpeza e conservação em municípios como Hortolândia e Sumaré, para comentar os impactos do custo de deslocamento no orçamento dos profissionais da categoria. Não houve retorno até o fechamento desta edição.

Investimentos e limites

Enquanto trabalhadores pendulares arcam com esses custos, lideranças empresariais e do poder público apresentam o crescimento tecnológico como ativo regional. No evento de lançamento do Campinas Innovation Week 2026, realizado em 19 de maio no Prédio do Relógio, a presidente da Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC), Nina Bertelli, afirmou que a colaboração entre os municípios da RMC é parte da estratégia de desenvolvimento. “Convidamos todas as cidades da região metropolitana e até representantes de outros municípios para promover essa troca de experiências”, disse.

Nina declarou que o objetivo é atrair empresas que convertam inovação em postos de trabalho. “Queremos trazer o empresário que transforma inovação em negócios e gera emprego para as pessoas. O objetivo é impulsionar o ecossistema para construir uma economia cada vez mais forte, com mais empresas.”

A Prefeitura de Campinas tem ampliado investimentos em transporte público dentro do município. O planejamento financeiro para 2026 prevê R$ 190,2 milhões para mobilidade urbana, aumento de 23,1% em relação ao orçamento inicial de 2025. Os primeiros corredores do sistema de ônibus rápidos BRT de Campinas foram inaugurados em 2024, com investimento total de R$ 555 milhões. Desse montante, R$ 300 milhões vieram do Governo Federal pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O BRT atende rotas internas do município e tem capacidade projetada para transportar mais de 250 mil passageiros por dia quando estiver plenamente operacional. Em maio de 2026, a Prefeitura anunciou obras de R$ 16 milhões para extensão do corredor central.

Esses investimentos, porém, beneficiam o transporte municipal de Campinas. Os trabalhadores pendulares de Hortolândia e Sumaré dependem das linhas intermunicipais operadas sob regulação da Artesp, que não fazem parte do sistema BRT. O passageiro que sai de Hortolândia paga a tarifa intermunicipal de R$ 6,50 até o terminal de Campinas e, para seguir viagem dentro da cidade, precisa pagar novamente, R$ 6,00 no Bilhete Único. Não existe integração tarifária entre os dois sistemas, ou seja, o passageiro não pode usar uma única passagem para trocar de ônibus.

O deslocamento pendular funciona, na prática, como um custo adicional sobre o salário de quem sustenta o funcionamento cotidiano do polo econômico: trabalhadores dos setores de comércio, limpeza, segurança e logística que mantêm Campinas em operação, mas não podem morar nela.

Créditos Foto: Fernanda Sunega – Prefeitura de Campinas

Orientação: Profº Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves