Vendas em outros canais preocupam jornaleiros, que indicam queda no faturamento em comparação com outras edições
Por Eduardo Tolentino, Gabriel Leite e João Bertuzzo
A Copa do Mundo de 2026 está sendo disputada por 48 seleções, 16 a mais que na edição anterior. Isso representa um número maior de jogos, mas também um álbum de figurinhas mais difícil de completar. A quantidade total de cromos no livro saltou quase 50%, de 670 para 980. Além disso, o valor por figurinha está 25% maior que na edição de 2022.
Para o internacionalista João Marcelo Silva, que guarda na estante as coleções completas de 2010 a 2022, este ano marca o fim de uma era. Pela primeira vez em mais de uma década, ele decidiu não colecionar o álbum, justificando a decisão pelo peso financeiro.
“Hoje pagamos R$ 7 em um pacote. Fazendo as contas por baixo, a gente vai ter que gastar mais de R$ 1.000 para completar”, disse João Marcelo. “Esse ano realmente não faz sentido (…) porque o preço, para mim, se tornou injustificável.”
A estimativa dele fica abaixo do custo médio calculado pelos pesquisadores. Completar o álbum apenas com a compra de pacotes pode custar cerca de R$ 7.000, segundo cálculos probabilísticos do economista Osvaldo Assunção, da FGV EESP, e de Milton Jara, do IMPA. O valor equivale a mais de 4 salários mínimos, bem acima dos R$ 1.000 estimados pelo colecionador.
O aumento é desproporcional em relação ao IPCA, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, que mede a variação no custo de vida de famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos. O preço das figurinhas vem se descolando da inflação brasileira ao longo das últimas 2 décadas.
Hoje, um cromo custa 12 vezes o valor registrado na primeira Copa do Mundo do século, em 2002, um aumento de 1.100%. O preço por figurinha saltou de R$ 0,083, em um pacote de R$ 0,50 com 6 unidades, para R$ 1,00, em um pacote de R$ 7,00 com 7 unidades, ao longo de 24 anos.
No mesmo período, a inflação acumulada no país foi de 314,12%. O dólar, que influencia a importação de papel e os custos gráficos, variou apenas 1,72% entre agosto de 2022 e março de 2026. Agosto de 2022 marca o lançamento do álbum da Copa anterior.
A valorização do dólar, portanto, não explica o aumento. A variação cambial ficou muito abaixo do reajuste das figurinhas. O encarecimento está ligado principalmente à política comercial do produto licenciado.

“Ainda que a empresa pudesse ter um aumento de custo com royalties, o consumidor está incorrendo em um custo maior. E essa pouca percepção ou pouco efeito do preço sobre a compra tem a ver com a exclusividade”, explicou o economista Pedro Costa.
A empresa a que ele se refere é a editora que produz o álbum, e os royalties são as compensações pagas pelo uso comercial de um bem de terceiros.
“Como isso é algo que acontece uma vez a cada 4 anos, o consumidor fica menos sensível a deixar de consumir por conta desse preço mais alto. A demanda reage pouco a alterações de preço.”
A exclusividade tem origem contratual. A Panini detém a licença oficial da FIFA para produzir o álbum. A empresa afirmou, em nota divulgada em 2022, que mantém os preços equiparados em toda a América Latina por se tratar de um produto licenciado, sujeito às regras de preço da entidade. A exclusividade contratual reduz a concorrência direta e ajuda a sustentar preços mais altos, mesmo com alguma redução da demanda.
Bancas de jornal
Tradicionalmente, o álbum representa um período movimentado para as bancas de jornal, setor afetado desde o início da revolução digital. Um levantamento da Relação Anual de Informações Sociais, a RAIS, do Ministério do Trabalho, registra essa queda em Campinas.
O número de bancas de jornal e revista na cidade caiu de 43, em 2015, para 18, em 2024, uma redução de 58% em menos de 10 anos. Nesse cenário, seria natural imaginar que a Copa do Mundo representasse uma espécie de salvação para os jornaleiros. Mas a dinâmica do mercado mudou.

Vlademir Faltz, dono de uma banca na tradicional Avenida da Saudade, no bairro da Ponte Preta, sentiu no bolso o fim da exclusividade do ponto de venda.
“A figurinha antes era uma exclusividade das bancas. Hoje espalharam pra todo mundo. Se o consumidor entra numa loja, o filho dele tá ali e quer, ele não vai deixar de comprar lá pra vir pra banca”, disse Vlademir, que estimou queda de 30% nas vendas em relação à Copa de 2022.
“A Copa não é a salvação de ninguém (…) pelo menos no meu caso. Hoje eu acho que já não é nem banca de revista, é banca de conveniência. Se você ficar só no jornal e na revista, você tá fechando.”
Eduardo Bertho tem a mesma percepção. Ele administra uma banca no bairro Parque Industrial, negócio iniciado pelo pai.
“Quando meu pai começou, ele me conta que tinham umas 500 bancas em Campinas. Hoje liberaram pra tudo. Adega, mercado… isso fez minha venda cair”, contou Eduardo, que, mesmo com a concorrência forte, admitiu a importância do período.
“Meu faturamento na Copa sobe cerca de 50%. Influencia bem, mas eu não posso depender disso porque é só daqui a 4 anos. Então eu tenho que fazer outras coisas para me manter até a chegada da próxima.”
O ganho de 50% representa o fôlego sazonal proporcionado pela Copa em comparação com um período normal e, por isso, não contraria a queda de 30% nas vendas entre uma edição do torneio e outra.

Tradição elitizada
Os jornaleiros tentam se reinventar, com carregadores de celular, incensos e óculos para garantir a continuidade do negócio. A febre do álbum, porém, sobrevive graças à nostalgia e à pressão social.
Como observou Vlademir, ao relatar o drama de pais e responsáveis, as crianças despertam o interesse ao ver os colegas no colégio.
“Uma mãe me contou que a filha não queria colecionar, mas passou uma semana e mudou de ideia. Estava todo mundo trocando figurinha na escola, só ela que ficou num cantinho, sem ter o que fazer.”

A realidade mostrada no gráfico e nos depoimentos ilustra um processo de elitização de uma brincadeira tradicional. No mercado secundário de plataformas de comércio eletrônico, como o Mercado Livre, circulam figurinhas avulsas, kits “sem repetição” e coleções completas à venda.
O movimento sinaliza que a demanda por alternativas mais baratas continua, mesmo fora das bancas. E não são os donos das bancas que se beneficiam do encarecimento do produto. Eles também sentiram os efeitos da perda da exclusividade nas vendas e da concorrência de outros modelos de negócio.














