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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Pobreza menstrual causa constrangimento e afasta meninas da escola

Falta de recursos e informações aumenta evasão, gera constrangimento e afeta rotina escolar de meninas em vulnerabilidade

Texto e imagens: Lorena Bonfá

A menstruação e as cólicas menstruais afetam o desempenho escolar de 37,1% das meninas no Brasil, segundo os dados coletados pelo Instituto Alana. Para meninas em situação de vulnerabilidade social, esse problema se intensifica, principalmente, devido à falta de acesso a informações sobre saúde e insumos. De acordo com o Instituto Alana, aproximadamente 66,9% das meninas da região sudeste do Brasil têm sua primeira menstruação antes dos 10 anos, e notificaram que a cólica e a falta de produtos de higiene são a principal causa de suas faltas na escola.

Segundo o Instituto, 26,7% das meninas que menstruam sentem medo ou vergonha de chamar atenção ou ter a roupa suja por causa da menstruação e 41,2% afirmam que as cólicas e o sangramento afetam sua rotina escolar, principalmente, em situações como brincar e praticar esportes.

Intensidade de Cólicas por Idade da Menarca (Fonte: Instituto Alana)

Em Campinas, a diretora Marisa Manzin da Escola Estadual Dr. Tomás Alves afirma que houve uma melhora significativa na presença escolar das alunas que menstruam após a chegada do programa Dignidade Menstrual. “Muitas meninas não contam com recursos para aquisição de absorventes e ao saberem que podem contar com a escola, se sentem mais confiantes para frequentar e participar das atividades propostas pelos professores”, relatou.

A diretora afirma que o período menstrual afetava diretamente a frequência e o desenvolvimento escolar das alunas. “Em anos anteriores, quando não contávamos com o Programa, tínhamos problemas com a frequência escolar das meninas. A falta de acesso a informações sobre o período menstrual e absorventes causava constrangimento para elas, que por muitas vezes ficavam caladas, passavam por situações difíceis e não compartilhavam suas angústias”, comentou.

Porém, mesmo contando com a melhora nas atividades escolares Marisa relata falta de estoque. “A quantidade de insumos ofertada não é suficiente para todas as alunas que menstruam na nossa escola. Para termos acabarmos com a evasão escolar dessas meninas, precisamos que o programa atenda todas elas igualmente”, finalizou.

Marisa Manzin observou uma melhora na quantidade de faltas das alunas após a distribuição de absorventes na escola

A falta de conhecimento sobre menstruação e saúde feminina prejudica o desenvolvimento escolar das alunas, cerca de 19,7% das meninas relataram não que não pensam sobre sua menstruação, de acordo com o Instituto Alana. A desigualdade no acesso a informações sobre saúde e a insumos afeta diretamente as meninas em situação de vulnerabilidade social.

Percepções e Impactos da Menstruação (Fonte: Instituto Alana)

A aluna Clara Helena, também da escola Tomás Alves, afirmou que ter acesso à absorventes e produtos de higiene na escola afetou positivamente seu desempenho escolar e de suas amigas. “Essa ação está nos ajudando e nos trazendo segurança para frequentar a escola e participar das atividades”, comentou.

Mesmo com a efetividade da distribuição dos absorventes na escola, Clara afirma que a falta de informações ainda é um problema que afeta a segurança menstrual das alunas. “A escola não nos oferece nenhum tipo de palestras ou conversa sobre o período menstrual, mas acredito que se houvesse alguma ação desse tipo nós poderíamos conhecer melhor nosso corpo e saber o que acontece nele para sabermos como buscar ajuda quando precisarmos”, afirmou.

Aluna Clara Helena (à esquerda) e suas colegas são estudantes do 7º ano na Escola Estadual Dr. Thomas Alves

A ativista Rebeca Cristina luta pelo direito das mulheres na cidade de Campinas, e afirma que a falta de acesso a produtos de higiene menstrual afeta a dignidade das meninas que vivem em situação de vulnerabilidade social. “ A escassez na infraestrutura sanitária adequada e do conhecimento sobre o próprio corpo é chamada de pobreza menstrual. Por isso, é necessário que haja mais políticas públicas que possam assegurar que a menstruação não seja mais um impedimento para uma vida digna”, disse.

Para Rebeca, programas e ações que atuam diretamente com essas meninas são a forma mais eficaz de combater a pobreza menstrual. “É importante assegurar a saúde física dessas mulheres, evitando o uso de panos velhos, papel jornal ou miolo de pão, que causam infecções graves, e proteger a saúde mental, devolvendo a autoestima e a dignidade”, comentou.

Rebeca Cristina, ao centro, é ativista pelo direito das mulheres em Campinas

Para as meninas em fase escolar, Rebeca diz que a oferta de insumos, boa infraestrutura e a conscientização sobre o que é o período menstrual, possuem grande chance de evitar o constrangimento das alunas. “Para vencer a evasão escolar por completo, as escolas também precisam de infraestrutura básica, como banheiros com trancas, água encanada e sabão. Além de um ambiente acolhedor, livre de preconceitos e bullying relacionados à menstruação. Só assim poderemos garantir o direito à educação para todas as meninas” finalizou.

Leia também:

2 – Evasão escolar desafia educadores e afeta jovens – por Danilo Real

3 – Campinas registra recorde de violências contra mulheres – por Julia Ferreira

4 – Maternidade solo: o peso estrutural de criar filhos sozinha – por Helena Cyrino

O projeto Vozes Delas, que reúne quatro temas que ajudam a compreender diferentes realidades vividas por mulheres em Campinas e região, foi produzido por alunos de jornalismo da PUC-Campinas.

Orientação e edição: Adauto Molck

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