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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Entre máquinas e a chaminé: a história da fábrica Chapéus Cury que marcou a Vila Itapura

Uma chaminé solitária ainda resiste na Vila Itapura, em Campinas, como testemunha de um dos capítulos mais importantes da industrialização da cidade

Por Gabriela Belloto, Isabelle Layara, Isabelly Godoy, Maria Eduarda Matoso e João Fortunato

Uma chaminé solitária ainda resiste na Vila Itapura, em Campinas, como testemunha de um dos capítulos mais importantes da industrialização da cidade. Hoje cercada por novos empreendimentos, a estrutura é um dos poucos vestígios da antiga Fábrica de Chapéus Vicente Cury, que durante mais de um século movimentou a economia local, gerou empregos e ajudou a construir histórias de famílias campineiras.

Instalada em um quarteirão inteiro do bairro, a fábrica chegou a produzir milhares de chapéus por dia e se tornou referência nacional no setor. Mais do que um complexo industrial, o espaço marcou a memória afetiva de gerações de trabalhadores e moradores de Campinas.

Uma fábrica que cresceu junto com Campinas e com a Vila Itapura

A história da empresa começou em 1920, quando Miguel Vicente Cury — que mais tarde seria prefeito de Campinas entre 1948 e 1951 e novamente entre 1960 e 1963 — fundou a fábrica ao lado do pai, Vicente Cury.

Antes da mudança para Campinas, a família mantinha uma pequena oficina de reforma de chapéus em Mogi Mirim. Com moldes de madeira e produção artesanal, os primeiros produtos eram confeccionados manualmente, acompanhando o início do processo de industrialização da cidade.

Com o passar das décadas e a modernização das máquinas, a fabricação evoluiu. O chapéu passou a ser produzido principalmente com pelo de coelho e vapor, técnica que exigia habilidade e conhecimento dos chapeleiros.

A fábrica vista por quem cresceu entre as máquinas

Bisneta do libanês José Zakia, sócio e primo de Miguel Cury, a cineasta Julia Zakia guarda lembranças vivas da infância passada dentro da fábrica, acompanhando o avô, Sérgio Cury Zakia, um dos filhos de José.

Segundo ela, entrar no galpão era como voltar no tempo.

“São as primeiras fases em que o chapéu ainda não tomou forma”, relembra Julia. “Era só aquele pelinho de coelho voando, se separando das impurezas e tomando forma.”

Durante as férias escolares, a cineasta percorria os corredores da fábrica observando cada etapa da produção, experiência que influenciou diretamente sua trajetória profissional.

O chapeleiro que dedicou mais de 80 anos à profissão

Natural de Itu, Sérgio Cury Zakia chegou a Campinas aos 18 anos para trabalhar na fábrica da família. Diferentemente de outros gestores, ele fazia questão de permanecer na linha de produção.

“Ele não era um administrador, um empresário ou um burocrata. Ele era chapeleiro mesmo”, lembra Julia.

Durante mais de 80 anos, Sérgio trabalhou diretamente na fabricação dos chapéus, sempre vestido com sua tradicional calça cáqui e camisa branca. A rotina intensa junto às máquinas e ao calor do processo produtivo chegou a apagar completamente suas impressões digitais, devido ao contato frequente com materiais que atingiam temperaturas próximas de 100°C.

“Era como se ele e a fábrica fossem uma coisa só”, resume a neta.

Um símbolo da indústria de Campinas

Em seu auge, a Fábrica de Chapéus Vicente Cury chegou a produzir cerca de 4,5 mil chapéus por dia e empregou aproximadamente 700 trabalhadores, tornando-se uma das principais indústrias de Campinas.

Além da importância econômica, o espaço também teve forte impacto social. Muitos funcionários construíram amizades, formaram famílias e viram seus filhos seguirem a mesma profissão.

“As famílias de Campinas, até certo momento, tinham alguém que trabalhou lá”, conta Julia. “As pessoas acabavam se conhecendo, casando, tendo seus filhos, e esses filhos também trabalhavam na Cury.”

Memória preservada pelo cinema

A relação entre Sérgio e a fábrica inspirou Julia Zakia a registrar essa história em dois documentários: “O Chapéu do Meu Avô” (2004) e “Planeta Fábrica” (2019).

Durante dois anos, ela acompanhou o cotidiano do avô, registrando não apenas o trabalho na fábrica, mas também momentos simples da rotina, como as compras no mercado, a escolha de frutas e os cuidados com a esposa, Zilda Zakia.

“O Chapéu do Meu Avô não é apenas um filme sobre o meu avô. É também sobre muitos chapeleiros e, de certa forma, sobre a própria história de Campinas”, afirma a diretora.

Os documentários ajudam a preservar a memória de uma indústria que fez parte da identidade campineira e que, mesmo após o encerramento das atividades, permanece viva nas lembranças de quem trabalhou, cresceu ou teve alguma ligação com a antiga fábrica da Vila Itapura.

Uma vida dedicada à Fábrica de Chapéus Vicente Cury

A história da Fábrica de Chapéus Vicente Cury também é contada por quem dedicou décadas de trabalho ao local. É o caso de Marcos Amaral, de 59 anos, que passou 31 anos na empresa e construiu uma trajetória marcada pela inovação, pelo aprendizado e pelo forte vínculo afetivo com a fábrica.

Marcos começou a trabalhar na Vicente Cury aos 17 anos, como torneiro mecânico, seguindo os passos do pai. Curioso e determinado, ele rapidamente passou a buscar soluções para os problemas enfrentados pela produção.

“Como muitas máquinas quebravam na empresa, eu queria saber o porquê. Então eu analisava, melhorava a peça e ela não quebrava mais”, relembra.

Mas, para Marcos, a fábrica não era apenas trabalho: era o Grupo Cury. “Eu tenho uma história lá, passei minha infância dentro da fábrica”, contou com carinho.

Ele relembrou momentos marcantes: “Todo mundo me conhecia como Cafuringa, até na fábrica, porque eu jogava bola igual ao jogador do Grêmio. A gente se divertia muito.” Com a desativação da fábrica, em 2012, e sua demolição, em 2022, a notícia foi como uma perda para ele. “Eu tinha uma história aqui dentro que, de repente, se desfez.”

Lançado em 2019, “Planeta Fábrica” mostra como o tempo passa rápido em 11 minutos e 11 segundos. Com maturidade, Julia filmou o espaço de um jeito em que a fábrica e seu avô vão se tornando a mesma coisa. Entre flashes do passado e do presente, ela mostra como uma grande família de 200 ou 300 pessoas foi chegando a apenas 50 ou 40 daqueles que ainda acreditavam que conseguiriam manter a fábrica funcionando.

“Depois que meu avô morreu, em 2013, eu fui algumas vezes para continuar filmando ‘Planeta Fábrica’, mas me desvinculei de qualquer responsabilidade”, contou.

Antes da demolição, Julia fez o que pôde para guardar o que aquele espaço foi e deixou o questionamento: “Se a gente não preserva os bens materiais e a memória, o que sobra?”

Entre passado e futuro

Próximo à região central de Campinas, o bairro Vila Itapura fica entre duas importantes avenidas: a Avenida Orosimbo Maia e a Barão de Itapura. Hoje, o bairro é uma mistura entre memória e modernidade.

Para Marcos, durante as diversas fases do bairro que ele presenciou desde a infância, o que mais se destaca é a evolução. “Aqui era um bairro complicado, mas hoje não se vê nada disso. Hoje são prédios e pessoas bem conceituadas. Hoje estamos no centro da cidade, então melhorou muito”, contou. Há diversos condomínios, a tradicional Paróquia São Paulo Apóstolo, restaurantes e até o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), fundado em 1887 por D. Pedro II.

Onde antes o vapor tomava conta do quarteirão, hoje há prédios, ruas movimentadas e uma chaminé. Com as memórias dos funcionários e as imagens preservadas nos filmes de Julia Zakia, a história da antiga Chapéus Vicente Cury continua viva, reconstruída imageticamente a partir daquilo que o tempo fez desaparecer.

Vozes da Nossa Gente Campinas

O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.

Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Gabriela Belloto, Isabelle Layara, Isabelly Godoy, Maria Eduarda Matoso, João Fortunato, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.

Orientação: Profa. Amanda Artioli

Edição: Giovanni Feltrin