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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Vila Teixeira: bairro de Campinas preserva tradição do samba e abriga a história do Pagode da Vó Tiana

Foi na Vila IAPI, tradicional conjunto habitacional operário localizado na Vila Teixeira, que nasceu o Pagode da Vó Tiana

Por Eduardo Tolentino de Carvalho, Gabriel Barbosa Leite, João Pedro Belone Bertuzzo, Luísa Domingos Viana e Tais Regina Pereira Guilherme

Quem percorre as ruas da Vila Teixeira, na Região Noroeste de Campinas, encontra um bairro que preserva o clima tranquilo de uma área tradicionalmente residencial. Com poucas edificações verticais e muitas casas, a região combina qualidade de vida, comércio de bairro e uma forte identidade cultural ligada ao samba.

Localizada entre as avenidas Lix da Cunha e John Boyd Dunlop, a Vila Teixeira reúne praças como a César Cardoso e a Getúlio Vargas, além de importantes corredores comerciais, como as ruas Joaquim Vilac e Cadete João Teixeira, onde estão concentrados supermercados, restaurantes, oficinas, óticas e diversos estabelecimentos que movimentam a economia local. Mas é a música que ajuda a contar a história do bairro.

Vila IAPI deu origem ao Pagode da Vó Tiana na Vila Teixeira

Foi na Vila IAPI, tradicional conjunto habitacional operário localizado na Vila Teixeira, que nasceu o Pagode da Vó Tiana, grupo que se tornou uma das referências do samba em Campinas.

O nome é uma homenagem a Dona Sebastiana, avó de Alex “Mortão” de Freitas, que transformou o quintal de casa em ponto de encontro para os netos e amigos aprenderem a tocar instrumentos e compartilharem rodas de samba.

“Em meados de 2003 surgiu a ideia de fazer essa roda. Mas muito antes disso, quando éramos adolescentes, a gente já batucava na rua, pegava os instrumentos e ficava tocando na frente de casa”, relembra Alex.

Segundo ele, o quintal da avó estava sempre de portas abertas.

“O quintal da minha avó era sempre aberto para a gente entrar, fazer bagunça, tentar aprender a tocar. E ela sempre teve muita paciência. Imagina aguentar um monte de moleques fazendo barulho o dia inteiro… Ainda mais uma senhora. Ela acabou virando avó de todos os meus amigos. Adorava cozinhar para a gente”, conta, entre risos.

Homenagem que virou referência do samba em Campinas

Dona Sebastiana faleceu antes de ver a brincadeira dos jovens se transformar em um grupo profissional. Ainda assim, seu legado foi eternizado no nome do conjunto.

A homenagem surgiu durante uma viagem dos integrantes ao Rio de Janeiro, quando conheceram o tradicional Pagode da Tia Doca, em Madureira. Inspirados pela história da roda de samba carioca, decidiram batizar o grupo como Pagode da Vó Tiana, eternizando a mulher que acolheu músicos iniciantes e ajudou, sem imaginar, a escrever um capítulo importante da cultura popular em Campinas.

Ao longo da trajetória, o grupo dividiu palco com grandes nomes do samba brasileiro, como Almir Guineto, Monarco e Nelson Rufino, consolidando a Vila Teixeira como um dos bairros onde a tradição do samba continua viva.

Carlinhos Chocolate, Leandrinho Conceição e Alex Mortão representam o Pagode da Vó Tiana em entrevista ao projeto Vozes da Nossa Gente (Foto: Eduardo Tolentino)

Nascido e criado no IAPI, o músico Ciro de Lima não hesita em dizer que a relação do bairro com o samba sempre foi muito forte. Ele classifica como uma ‘reunião prazerosa’ daqueles operários e trabalhadores que ali moravam ou frequentavam.

Aos 68 anos, tem ainda viva a memória da infância quando a mãe, uma costureira apaixonada pelas escolas, contribuiu diretamente para o seu envolvimento. Ele cita sambistas como Edgar de Souza e Nenão do Pandeiro, que alcançaram o reconhecimento de figuras importantes, a exemplo de Jamelão, até concluir que os moradores do bairro se identificam com o samba. Hoje no Vó Tiana, sente orgulho de ver a nova geração dar sequência àquilo que sempre fez.

“A continuação é o mais importante. É o que sustenta a vida … tem que germinar, preservar a espécie. Estou dizendo isso na vertente do samba, porque é uma coisa que te leva à sua identidade, à sua ancestralidade, ao encontro com si mesmo e saber quem é, de onde vem e para onde vai. Isso é, na minha opinião, o samba”, diz Ciro.

Ciro de Lima tem 68 anos de samba na Vila Teixeira e dá continuidade à cultura do bairro com o grupo Pagode da Vó Tiana (Foto: Eduardo Tolentino)

Baile beneficente do IBAVIT mantém tradição da música e fortalece ações sociais

A tradição musical da Vila Teixeira vai muito além do samba. Há décadas, outro evento reúne moradores e visitantes no bairro: o baile beneficente do IBAVIT (Instituto Beneficente dos Amigos da Vila Teixeira), realizado sempre na última terça-feira de cada mês, das 20h à meia-noite.

Conhecido pelo ambiente familiar, o baile também chama a atenção por contar com a participação de free dancers, dançarinos profissionais contratados para acompanhar as damas durante as apresentações, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações na região.

Música, dança e solidariedade

Para o presidente do IBAVIT, Dorival Alves dos Santos, conhecido como Paraná, os bailes fazem parte da identidade cultural da Vila Teixeira e representam um importante ponto de encontro para a comunidade.

“Desde que eu conheço a Vila Teixeira, a tradição aqui é baile”, afirma.

Segundo ele, a antiga Associação de Moradores construiu um salão com capacidade para aproximadamente 700 pessoas, transformando o espaço em referência para eventos na região.

“É uma casa bonita, um ambiente agradável. É um baile tranquilo, familiar, onde os pais podem trazer os filhos ou até mesmo participar sozinhos”, destaca.

Evento arrecada recursos para projetos sociais

Além de preservar a tradição dos bailes dançantes em Campinas, o evento tem um forte caráter beneficente. Toda a renda arrecadada é destinada aos projetos sociais desenvolvidos pelo instituto.

“Hoje, o baile é voltado principalmente para o projeto social. Tudo o que arrecadamos financeiramente é investido nessas ações”, explica Paraná.

Ao longo dos anos, os recursos obtidos com os eventos ajudaram a viabilizar campanhas solidárias e atender famílias em situação de vulnerabilidade.

Entre as iniciativas estão ações como o Natal sem Fome e campanhas para auxiliar moradores que enfrentam problemas de saúde.

“Já fizemos um baile para ajudar um menino com câncer e conseguimos arrecadar cerca de sete ou oito mil reais para ele. São momentos que marcam a vida da gente”, lembra.

Mais do que preservar a tradição dos bailes beneficentes, o IBAVIT se consolidou como um importante centro de convivência e assistência comunitária na Vila Teixeira.

Localizada na Rua Cadete João Teixeira, 550, a sede da instituição recebe semanalmente moradores de diferentes idades por meio do Projeto Viver Melhor, que oferece uma série de atividades e serviços gratuitos voltados à saúde, ao bem-estar, à educação e à integração social.

Entre as opções disponíveis estão massoterapia, podologia, atendimento psicológico, aulas de dança de salão, inglês, costura e ginástica integrativa, além de outras ações desenvolvidas por voluntários.

Espaço transforma vidas por meio do acolhimento

Mais do que os serviços oferecidos, o IBAVIT se tornou um local de acolhimento para quem busca recomeçar.

É o caso da voluntária Anidersses Ruivo Barnabé, que encontrou no instituto um novo propósito após enfrentar um dos momentos mais difíceis da vida.

“Quando cheguei, eu estava no fundo do poço. Perdi meu velhinho, meu esposo. Foi aqui que consegui me reerguer, conhecendo pessoas maravilhosas que até hoje têm um carinho enorme por mim”, conta, emocionada.

Segundo ela, o trabalho voluntário transformou sua rotina e fortaleceu os vínculos com a comunidade.

“Eu estava me afundando e, para mim, foi maravilhoso poder ajudar. Também fui ajudada. São pessoas simples, que só sabem fazer o bem. Eu amo isso aqui e já trouxe muita gente para conhecer o instituto.”

Solidariedade fortalece a comunidade da Vila Teixeira

Além de promover atividades culturais e recreativas, o IBAVIT desempenha um papel importante na promoção da qualidade de vida dos moradores da Vila Teixeira e de bairros vizinhos, reforçando o espírito de solidariedade que faz parte da história da comunidade.

Com ações que unem cultura, saúde, educação e assistência social, a instituição se tornou uma referência na Região Noroeste de Campinas, mostrando que o cuidado com as pessoas também ajuda a preservar a identidade e o sentimento de pertencimento do bairro.

Memórias de uma juventude na Vila Teixeira

A história da Vila Teixeira também pode ser contada pelas lembranças de quem acompanhou o desenvolvimento do bairro desde suas primeiras décadas. É o caso do mineiro Jovino Donizete Nascimento, que chegou à região no fim dos anos 1960 e, desde então, nunca mais deixou a casa onde vive até hoje, na Rua Rouxinol.

Ao lado dos pais e dos irmãos, Jovino dividia a residência com mais de dez pessoas. Naquela época, o cenário era bem diferente do atual.

“Na frente da nossa casa havia um barranco e a rua era de terra. Lá em cima, onde hoje existe uma estrutura de concreto, passava o trem da Sorocabana com vários vagões carregados de pedregulho. A casa inteira tremia e a gente acordava de madrugada”, relembra.

Durante a Copa do Mundo de 1970, poucos moradores do bairro tinham televisão em casa. Ele conta que um grupo de dez a 15 amigos se reunia na casa de um vizinho para assistir às partidas da seleção brasileira. “Quando foi campeão, a festa aqui foi boa”,

Além disso, outra lembrança de Jovino é de quando caminhava até a Fábrica de Chapéus Cury, na região do Botafogo, para trabalhar. Era um trajeto que durava cerca de 40 minutos, mas ele não via problema, porque ia conversando com os vários outros operários residentes na Vila Teixeira que o acompanhavam.

Maria Eva Batista também é mineira e chegou à Vila Teixeira há 58 anos.

“Era muito diferente. Essas ruas não eram asfaltadas. Os caminhões de mudança paravam lá em cima, a quase 500 metros de distância. Nós tínhamos que trazer tudo nas costas e ali em cima passava o trem. Nossas crianças estavam sempre correndo na linha e nós ficávamos apavorados. Hoje essas mesmas crianças já são avós. Aqui nós somos uma grande família”, lembra com carinho a cobradora de ônibus aposentada.


Ela faz questão de mencionar, inclusive, a praticidade e melhora de vida que sentiu com a chegada do sistema BRT (ônibus de transporte rápido). O Corredor BRT Campo Grande, que passa muito próximo de onde está a linha do trem desativada, tornou-se 100% operacional na cidade de Campinas em fevereiro de 2025. “Eu uso muito. Leva um minuto pra chegar na Rodoviária, depois vai até o Terminal Mercado, Terminal Central, Moraes Salles, Prefeitura, faz tudo que a gente quer”, explica.

Comércio fortalece a identidade da Vila Teixeira e atrai empreendedores

Além da tradição cultural e da forte ligação com o samba, a Vila Teixeira, também se destaca como um importante polo comercial. A localização estratégica do bairro e o perfil acolhedor dos moradores fizeram com que muitos empreendedores escolhessem a região para construir suas trajetórias.

É o caso do comerciante português Luís Torres, conhecido pelos moradores como “Portuga”. Há quatro décadas no comércio e há 30 anos estabelecido na Vila Teixeira, ele atribui ao bairro grande parte de sua história de sucesso.

“Sou comerciante há 40 anos, sendo 30 deles na Vila Teixeira. Tudo o que conquistei devo a este bairro. A população daqui é maravilhosa. Hoje a clientela é mais jovem, porque muitos dos antigos moradores já faleceram, mas continua sendo um povo muito respeitador e acolhedor. Sempre fui muito bem recebido, e minhas amizades estão todas aqui”, conta.

Localização estratégica impulsiona os negócios

Ao longo da carreira, Portuga administrou estabelecimentos em diferentes regiões de Campinas e também em Paulínia. Apesar da experiência em outros pontos da cidade, foi na Rua Brotas, na chamada Vila Nova Teixeira, que encontrou o ambiente ideal para consolidar seu negócio.

“É um ponto estratégico pela localização, pelo espaço e, principalmente, pela clientela”, afirma.

Segundo ele, antes de se estabelecer na Vila Teixeira, também teve comércios nas proximidades do Colégio Culto à Ciência, na Vila Industrial, no Mercado Municipal de Campinas e em Paulínia.

“Passei por vários lugares, mas foi aqui que realmente encontrei o sucesso.”

Ao caminhar pelas ruas da Vila Teixeira, a vida parece uma profunda calmaria. Mas basta conversar com quem vive por ali há algum tempo para descobrir que o silêncio não condiz com a história daquele lugar. O sossego da vizinhança, em determinados momentos, dá lugar a batucadas de samba e passos de dança. O que foi silenciado, de fato, é o trepidante barulho do trem, que deu lugar ao moderno sistema de transporte rápido coletivo.

Vozes da Nossa Gente Campinas

O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.

Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Eduardo Tolentino de Carvalho, Gabriel Barbosa Leite, João Pedro Belone Bertuzzo, Luísa Domingos Viana, Tais Regina Pereira Guilherme, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.

Orientação: Profa. Amanda Artioli

Edição: Giovanni Feltrin