Conheça as histórias que fazem dos Campos Elíseos um dos bairros mais tradicionais de Campinas. Do Balão do Laranja ao Tancredão, a região reúne cultura, esporte, memória e personagens inspiradores.
Por Letícia Borges, Maria Vitória Porto, Luiza Pessopane e Beatriz Stevanatto
Quem passa pela região noroeste de Campinas provavelmente já ouviu falar do Balão do Laranja. O nome é tão popular que muitos moradores sequer conhecem a denominação oficial do local: Praça Brigham Young. Localizada entre os bairros Jardim Campos Elíseos e Jardim Novo Campos Elíseos, a rotatória é um importante ponto de referência para motoristas, comerciantes e moradores da região. Ao longo dos anos, o apelido se consolidou no imaginário popular e passou a fazer parte da identidade local.

A fama é tamanha que inspirou até mesmo o nome pelo qual é conhecido o Centro de Saúde Dr. Pedro Agápio de Aquino Netto, situado em frente à praça e frequentemente chamado pela população de “Posto do Balão do Laranja”.

Como surgiu o nome Balão do Laranja no Campos Elíseos?
A origem do apelido é preservada principalmente pela memória dos moradores mais antigos da região. Segundo o comerciante Deusdete Carvalho, clientes que frequentam seu estabelecimento contam que o nome surgiu por causa de uma antiga loja de materiais de construção que funcionava próxima à rotatória.
“O prédio era pintado de laranja e, por isso, o local acabou ficando conhecido como Balão do Laranja”, relata.
A versão também é compartilhada por Rafael Novaes Santos, funcionário de uma banca de frutas instalada em uma das esquinas da praça. De acordo com ele, o antigo comércio era uma referência para quem morava nos bairros vizinhos.

“Aqui funcionava um depósito de materiais de construção, onde muita gente vinha comprar produtos. O local ficou conhecido e o apelido permaneceu”, afirma.
A força da identificação é tão grande que a própria banca adotou o nome Balão do Laranja, reforçando a ligação histórica entre o espaço e a comunidade.
De referência urbana a símbolo ambiental em Campinas
Além de seu valor histórico e afetivo para os moradores, a Praça Brigham Young ganhou destaque recentemente por uma iniciativa ambiental da Prefeitura de Campinas.
Em abril de 2025, o espaço foi escolhido para receber um dos primeiros projetos de microfloresta urbana implantados na cidade.
A proposta faz parte de uma estratégia de ampliação das áreas verdes em regiões urbanizadas. As microflorestas são implantadas em canteiros centrais, rotatórias e outros espaços públicos com o objetivo de aumentar a cobertura vegetal e promover benefícios ambientais.
Entre os principais impactos estão a redução das ilhas de calor, a melhoria da qualidade do ar, o aumento da biodiversidade e a contribuição para uma cidade mais sustentável.
Muito além do Balão do Laranja: histórias que ajudam a construir a identidade dos Campos Elíseos
O Balão do Laranja conecta os bairros Jardim Campos Elíseos e Jardim Novo Campos Elíseos, dois dos mais tradicionais da região noroeste de Campinas. Mas a história desses bairros vai muito além da famosa rotatória que se tornou referência para moradores e motoristas.
Entre ruas movimentadas, comércios tradicionais e áreas residenciais, os Campos Elíseos guardam histórias que muitas vezes passam despercebidas na rotina urbana, mas que ajudam a construir a identidade da região e impactam a vida da comunidade de forma singular.
É o caso do gerente comercial Leandro da Silva, morador do Jardim Novo Campos Elíseos desde 1985. Em meio ao cenário urbano, ele mantém um verdadeiro refúgio da natureza nos fundos de casa: um orquidário com mais de duas mil orquídeas de diferentes espécies.
Entre os exemplares cultivados por Leandro está a Grammatophyllum speciosum, conhecida popularmente como Orquídea-Tigre ou Rainha das Orquídeas, considerada pelo Guinness World Records a maior espécie de orquídea do mundo.

“Sou mais conhecido em outros estados e até fora do país por causa das minhas orquídeas do que aqui no bairro. Os moradores acabam me reconhecendo mais pelos vídeos que faço da loja onde trabalho, que fica no Jardim Campos Elíseos e tem mais de 50 anos de história”, conta.
O orquidário está localizado na Rua Itatiba, uma das diversas vias do bairro que carregam nomes de cidades do interior paulista. Próximo dali estão ruas como Sumaré, Cosmópolis, Piracicaba, Limeira e Pedreira, transformando a região em uma espécie de mapa do interior de São Paulo dentro de Campinas.

Casa dos anos 1950 abriga espaço dedicado à arte e à literatura
A poucos quarteirões do orquidário, na Rua Pedreira, outro exemplo chama a atenção pela proposta cultural.
Em uma residência construída na década de 1950, funciona um café voltado para apreciadores de arte, literatura e encontros culturais. O espaço reúne 26 obras de artistas de diferentes cidades brasileiras e também abriga uma biblioteca aberta aos frequentadores.
O ambiente preserva características originais da casa, reforçando a sensação de acolhimento buscada pelo idealizador do projeto, o professor de antropologia Vitor Lobo.
“A ideia era criar um espaço que lembrasse a casa da avó, um lugar acolhedor, onde as pessoas pudessem conversar, ler, apreciar arte e se sentir em casa”, explica.
‘Pedaços’ do Campos Elíseos são como mundos à parte
A Praça de Esportes Tancredo Neves fica localizada na Avenida das Amoreiras no bairro Novo Campos Elíseos. Mas o mundo criado em torno da praça, faz muitos crerem que ele não pertence ao bairro, e sim ao “bairro Tancredão”, que é o apelido da praça. Engano comum, mas que mostra a força de um lugar voltado para o bem-estar da comunidade.

Atualmente, o local é um centro de atividades muito importante para os moradores do bairro, onde acontece ações sociais, como o “Viver Tancredão”. O projeto que é em parceria com a Secretaria de Esportes de Campinas, tem como objetivo viabilizar através do esporte uma alternativa saudável e social a crianças e jovens. Lá é possível realizar aulas de basquete, taekwondo, jiu-jitsu, capoeira e até mesmo cavaco.

“Temos turmas de 10 a 17 anos e de +60. Até gente de Barão Geraldo vem aqui.” conta o professor de cavaco, Emerson Costa. O espaço da praça possui duas quadras de basquete e uma quadra de futebol, além do salão “Tancredão” em que são ministradas as aulas.
“As atividades estão no site da prefeitura e por lá é possível se inscrever. Nós somos todos voluntários e a gente se doa pelo bem do próximo”, diz o tecnólogo em segurança, Eder Ricardo Ubirajara. Para mais informações sobre o projeto, acesse: https://campinas.sp.gov.br/secretaria/esporte-e-lazer/pagina/projetos-parceiros
Histórias que resistem ao tempo nos Campos Elíseos
Embora o Jardim Campos Elíseos e o Jardim Novo Campos Elíseos estejam entre os bairros mais conhecidos da região noroeste de Campinas, ainda existem poucos registros históricos detalhados sobre o processo de ocupação dessas áreas.
O que se sabe é que o Jardim Novo Campos Elíseos surgiu posteriormente ao Jardim Campos Elíseos, acompanhando o crescimento urbano de Campinas ao longo do século XX. Antes da expansão da cidade, é provável que a região fosse composta por propriedades rurais, cenário comum em grande parte do município, cuja economia esteve fortemente ligada às fazendas de café e cana-de-açúcar desde o final do século XVIII.
Com o avanço da urbanização, os bairros se transformaram em importantes polos residenciais e comerciais, reunindo uma ampla rede de serviços que atende milhares de moradores.
Infraestrutura e serviços fortalecem a região
Atualmente, os Campos Elíseos contam com uma estrutura consolidada de comércio, educação e saúde. Entre os principais equipamentos públicos da região estão o Centro de Saúde Dr. Pedro Agápio de Aquino Netto, conhecido popularmente como Posto do Balão do Laranja, além da Escola Estadual Padre José dos Santos e da Escola Estadual André Fort.
A região também abriga creches, praças, centros esportivos e uma variedade de estabelecimentos comerciais que movimentam a economia local e facilitam o dia a dia da população.
Desafios ainda fazem parte da realidade local
Apesar dos avanços registrados ao longo das últimas décadas, moradores apontam que alguns pontos dos bairros ainda demandam maior atenção do poder público.
Um dos exemplos mais conhecidos é o Morro do Macaco, área que faz parte da história da região e que, assim como outros bairros de Campinas, enfrenta desafios relacionados à infraestrutura urbana e ao desenvolvimento social.
Mesmo diante das dificuldades, o local permanece marcado pela força de sua comunidade e pelas histórias construídas por gerações de moradores que ajudaram a moldar a identidade dos Campos Elíseos.
Entre o tradicional Balão do Laranja, o Tancredão, os pequenos negócios, os projetos sociais e as histórias de vida espalhadas pelas ruas do bairro, a região preserva um patrimônio que vai muito além de seus limites geográficos: a memória e o sentimento de pertencimento de quem escolheu os Campos Elíseos como lar.
Vozes da Nossa Gente Campinas
O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.
Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Letícia Borges, Maria Vitória Porto, Luiza Pessopane e Beatriz Stevanatto, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.
Orientação: Profa. Amanda Artioli
Edição: Giovanni Feltrin














