Moradores, especialistas e comerciantes contam como um dos bairros mais tradicionais de Campinas cresceu ao redor do Bosque dos Jequitibás e se tornou referência em lazer, preservação ambiental e qualidade de vida
Por Bruna Souza de Azevedo, Maria Luiza Machado Silva, João Victor Amorim Alves e Daniel Ribeiro Santos
Pedro Labbate tinha apenas 10 anos quando empurrava um carrinho de feira carregando um galão vazio pelas ruas do bairro Bosque, em Campinas. O destino era o Bosque dos Jequitibás, um dos principais cartões-postais da cidade. Ali, ele buscava água em uma bica para abastecer a casa dos avós, na Rua Uruguaiana, uma rotina comum entre os moradores da região na década de 1960.
Segundo Pedro, a água era considerada pura e atraía diariamente famílias e crianças ao parque. Além da tarefa doméstica, o local também era palco das brincadeiras que marcaram sua infância.
“Eu tinha um amigo, o Carlinhos, que subia em um pé de jatobá, pegava os frutos e jogava para a gente. Depois dividíamos entre todos. Às vezes o guarda do Bosque corria atrás da gente, mas aquilo fazia parte da nossa diversão”, relembra.

Morador da Rua Uruguaiana desde 1954, Pedro acompanhou de perto as transformações do bairro ao longo de mais de sete décadas. Hoje, aos 72 anos, ele vive em um prédio localizado em frente à casa onde passou boa parte da vida e observa uma nova geração ocupando os espaços da região.

“Eu vejo pelo prédio em que moro que estão chegando pessoas mais novas. As ideias deles começam a se sobressair às nossas. Faz parte da vida. Nós estamos envelhecendo e uma nova geração está chegando para construir a história do bairro”, afirma.
Bosque dos Jequitibás impulsionou o crescimento do bairro
A história do bairro Bosque está diretamente ligada ao Bosque dos Jequitibás, uma das áreas verdes mais tradicionais de Campinas. Com uma vegetação rica em espécies nativas da Mata Atlântica, o parque ganhou relevância ao longo do processo de urbanização da cidade, especialmente durante o ciclo do café e a expansão das ferrovias.
Com o passar dos anos, o espaço foi adquirido pelo poder público e transformado em uma área de lazer aberta à população. O desenvolvimento do entorno contribuiu para a formação de um dos bairros mais tradicionais e valorizados de Campinas.
Para Pedro, a proximidade com a natureza continua sendo um dos principais atrativos da região.
“A área verde chama a atenção de quem procura qualidade de vida. É um privilégio morar ao lado de um espaço como esse”, destaca.
Apesar do carinho pelo local, ele acredita que algumas atrações históricas fazem falta. Entre elas está o tradicional trenzinho que circulava pelo parque.
“Antes tinha um trenzinho que percorria o Bosque todos os dias. Isso faz muita falta, principalmente para os idosos. Hoje muita gente não consegue caminhar por todo o parque como fazia antigamente”, lamenta.
Comerciantes defendem mais investimentos no Bosque dos Jequitibás
Há 12 anos trabalhando dentro do Bosque dos Jequitibás, o comerciante Marco Samuel acompanha diariamente o movimento de visitantes e acredita que o parque tem potencial para atrair ainda mais pessoas.
Para ele, o local representa tranquilidade, contato com a natureza e um importante ponto turístico de Campinas. No entanto, avalia que faltam investimentos e ações para fortalecer o espaço como opção de lazer.
“Aqui não recebemos apenas moradores de Campinas. Muitas pessoas de outras cidades visitam o Bosque. Nós dependemos diretamente das atividades realizadas dentro do parque”, afirma.
Marco defende a ampliação das atrações oferecidas ao público, incluindo mais eventos culturais e a expansão dos horários de funcionamento de espaços como o Museu de História Natural e o Aquário do Bosque.
“Quanto mais atividades e opções de visitação forem oferecidas, mais pessoas serão atraídas para o Bosque. Isso beneficia os visitantes, os comerciantes e ajuda a valorizar ainda mais esse patrimônio da cidade”, conclui.
Infraestrutura, preservação ambiental e qualidade de vida marcam o bairro Bosque
A presença do Bosque dos Jequitibás, uma das principais áreas verdes de Campinas, influencia diretamente o desenvolvimento urbano e a qualidade de vida no bairro Bosque. Cercada por um importante fragmento de Mata Atlântica, a região tem passado por um processo de verticalização, acompanhado da valorização imobiliária e da preocupação com a preservação ambiental.
Para o urbanista e secretário municipal de Serviços Públicos de Campinas, Ernesto Paulella, o crescimento imobiliário não representa uma ameaça à conservação da área verde.
Segundo ele, o grande desafio está na manutenção de um remanescente florestal inserido em uma região densamente urbanizada.
“Em uma situação ideal, não haveria ocupação urbana tão próxima de uma área de Mata Atlântica. No entanto, essa convivência entre cidade e natureza é justamente uma das características que tornam o Bosque um local único em Campinas”, afirma.
Manejo das árvores exige monitoramento constante
De acordo com Paulella, a queda de árvores durante períodos de chuva faz parte da dinâmica natural de uma floresta urbana e não pode ser analisada apenas como um problema de gestão pública.
O secretário explica que a Prefeitura realiza um trabalho permanente de monitoramento da vegetação por meio de metodologias agronômicas e florestais, incluindo exames técnicos capazes de identificar riscos estruturais e a necessidade de intervenções preventivas.
Outro aspecto importante é que o Bosque dos Jequitibás está inserido em uma área protegida por tombamento histórico. Por isso, decisões relacionadas à retirada de árvores dependem da aprovação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).
“O Bosque é um dos bairros mais antigos de Campinas e possui uma característica predominantemente residencial, marcada pela qualidade de vida proporcionada pela área verde. Além disso, desempenha um papel importante na absorção de dióxido de carbono e na melhoria das condições ambientais da cidade”, destaca Paulella.
Especialista defende mais acessibilidade aos parques públicos
Para a urbanista e pós-doutoranda da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Marcela Noronha, a discussão sobre a preservação dos parques urbanos também deve considerar o acesso da população aos espaços públicos.
Ela avalia que o fechamento frequente dos parques durante períodos de chuva impacta diretamente a acessibilidade e o uso desses locais pelos moradores.
Segundo a pesquisadora, os recentes episódios de queda de árvores registrados em Campinas podem ter contribuído para a adoção de medidas mais restritivas por parte da administração municipal.
Marcela defende que a manutenção dos parques esteja associada a investimentos em infraestrutura, iluminação e segurança.
“Durante o dia, os parques precisam ser acessíveis. Em Campinas, muitos espaços são fechados por volta das seis da tarde. Isso acontece porque faltam iluminação adequada, monitoramento e segurança. A solução acaba sendo fechar os parques quando o ideal seria criar condições para que permaneçam abertos por mais tempo”, analisa.
Bosque dos Jequitibás: patrimônio histórico e ambiental de Campinas
Considerado um dos principais cartões-postais de Campinas, o Bosque dos Jequitibás tem suas origens no século XIX, quando a área pertencia ao fazendeiro Francisco Bueno de Miranda.
Na época, o local era conhecido como Campo das Caneleiras devido à grande quantidade de árvores caneleiras nativas existentes na propriedade.
Hoje, segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), o parque abriga cerca de 10 hectares de reserva florestal nativa, reunindo diversas espécies vegetais da Mata Atlântica.
O nome Bosque dos Jequitibás faz referência a uma das árvores mais emblemáticas do bioma. De origem tupi, a palavra “jequitibá” significa “gigante da floresta”, uma descrição adequada para uma espécie que pode ultrapassar 40 metros de altura e viver por até 3 mil anos.
A consolidação do parque acompanhou o crescimento urbano da cidade. Em 1915, a Prefeitura de Campinas assumiu oficialmente a administração da área, contribuindo para a formação e o desenvolvimento do atual bairro Bosque.
Visita da Princesa Isabel integra a história do parque
Entre os episódios históricos relacionados ao Bosque dos Jequitibás está uma visita da Princesa Isabel durante uma passagem da família imperial por Campinas.
Segundo o historiador Sidney Lisboa, a princesa ficou hospedada no casarão da família de Joaquim Egídio, importante cafeicultor que deu nome a um dos distritos campineiros.

Durante a estadia, ela visitou alguns dos principais pontos turísticos da cidade, incluindo igrejas e o Bosque dos Jequitibás.
No parque, Isabel conheceu uma fonte de água natural e observou os jequitibás que já impressionavam visitantes na época. De acordo com relatos históricos, uma placa registrava sua passagem pelo local.
Lisboa conta ainda que um admirador chegou a gravar o nome da princesa em uma das árvores utilizando um canivete, atitude que não foi bem recebida por ela.
Zoológico do Bosque dos Jequitibás está entre os mais antigos do Brasil
A história do Bosque dos Jequitibás também está ligada à preservação da fauna brasileira. Em 1888, ainda durante o período em que a área era privada, foi inaugurado o zoológico do então Campo das Caneleiras.
Com poucos recintos inicialmente, o espaço passou a atrair visitantes de Campinas e de outras regiões do Estado.
De acordo com registros da Prefeitura, o zoológico do Bosque dos Jequitibás é considerado um dos mais antigos do Brasil.
Em 1995, recebeu reconhecimento oficial do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como espaço dedicado à conservação de espécies silvestres.
Atualmente, o zoológico abriga mais de 300 animais entre mamíferos, aves e répteis. Grande parte deles foi resgatada de situações de tráfico de animais ou maus-tratos.
Dinho, o hipopótamo que virou símbolo do Bosque
Entre os moradores mais conhecidos do zoológico está Dinho, um hipopótamo resgatado em 2008 e que se tornou uma das principais atrações do parque.
O animal ganhou notoriedade nacional após passar por um tratamento odontológico de canal realizado por uma equipe de 16 veterinários em 2025.

Segundo a médica-veterinária Gabriela de Paula Figueiredo, Dinho passa a maior parte do dia submerso, comportamento comum para a espécie.
“Muita gente visita o Bosque e acaba não conseguindo vê-lo. O Dinho passa grande parte do tempo dormindo dentro da água. Os melhores horários para observá-lo são durante a alimentação, no início da manhã e no começo da tarde”, explica.
Herbívoro, o hipopótamo se alimenta principalmente de feno de alfafa, capim fresco, abóbora e frutas em quantidades controladas.
Outra curiosidade é que Dinho possui uma marca de nascença em uma das pernas, característica que facilita sua identificação pelos profissionais que trabalham diariamente no Bosque dos Jequitibás.
Mais do que uma área de lazer, o Bosque dos Jequitibás segue como um importante patrimônio histórico, ambiental e cultural de Campinas, reunindo natureza, biodiversidade e memória em um dos espaços mais emblemáticos da cidade.

Serviço: o que fazer no bairro Bosque, em Campinas
O bairro Bosque reúne opções de lazer, cultura, educação ambiental e contato com a natureza para moradores e visitantes. Confira os principais atrativos e horários de funcionamento na região:
Feira Livre do Bosque dos Jequitibás
Local: Rua Maria das Dores Souza Coelho Barros, 1 – Bosque, Campinas
Quando: Todas as quartas-feiras, das 6h às 12h
Entrada: Gratuita
Tradicional na região, a feira livre oferece frutas, verduras, legumes, produtos artesanais e opções gastronômicas, atraindo moradores de diferentes bairros de Campinas.
Teatro Infantil Carlito Maia
Local: Rua Coronel Quirino, 2 – Bosque, Campinas
Espaço cultural voltado ao público infantil, com programação educativa e atividades que incentivam o contato das crianças com o teatro e as artes.
Museu de História Natural de Campinas
Local: Rua Coronel Quirino, 2 – Parque Bosque dos Jequitibás, Bosque, Campinas
Funcionamento: De terça a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h30 às 16h; aos sábados, das 9h às 12h e das 13h às 17h
Entrada: Gratuita
O museu reúne exposições permanentes e educativas sobre fauna, flora, geologia e biodiversidade, sendo uma das atrações mais visitadas do Bosque dos Jequitibás.
Aquário Municipal de Campinas
Local: Rua Coronel Quirino, 2 – Bosque dos Jequitibás, Bosque, Campinas
Funcionamento: De terça a sexta-feira, das 9h às 13h; aos sábados, das 9h às 12h e das 13h às 17h; e no segundo domingo de cada mês, das 9h às 12h e das 13h às 17h
Ingressos: R$ 5 (inteira) e R$ 2,50 (meia-entrada).
Vozes da Nossa Gente Campinas
O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.
Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Bruna Souza de Azevedo Maria Luiza Machado Silva João Victor Amorim Alves Daniel Ribeiro Santos, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.
Orientação: Profa. Amanda Artioli
Edição: Giovanni Feltrin









