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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Jardim Santa Genebra: da fazenda histórica ao bairro que ajudou a transformar Campinas

Nascido a partir da antiga Fazenda Santa Genebra, o bairro acompanhou a expansão de Campinas, recebeu grandes empreendimentos como o Parque Dom Pedro Shopping e preservou marcos históricos, culturais e ambientais que ajudam a contar a história da cidade

Por Murilo Araujo Sacardi, Théo Miranda de Lima, Gustavo Maito Cabral, Enzo Zaros Santos e Giovana Perianez de Souza

Quando chegou ao Jardim Santa Genebra há cerca de 50 anos, a cozinheira Isabel Cristina Madeira, de 60 anos, não imaginava as transformações que a região viveria ao longo das décadas. O irmão adquiriu um terreno quando a antiga Fazenda Santa Genebra começou a ser loteada, no início dos anos 1970. A família construiu uma casa no local e criou raízes em um dos bairros mais tradicionais de Campinas.

“É maravilhoso caminhar sob as árvores do bairro. Quando ando por aqui, ainda vejo muitas lembranças do passado. O Jardim Santa Genebra é um pedacinho da nossa história, porque faz parte da nossa infância”, conta Isabel.

A história da Fazenda Santa Genebra

A origem da Fazenda Santa Genebra remonta ao século XVIII. A propriedade surgiu a partir da sesmaria Nossa Senhora do Rio do Carmo, uma extensa área de terras concedida pela Coroa Portuguesa em 1799 a Antônio de Souza para ocupação e produção agrícola. Inicialmente, a área era conhecida como Fazenda Morro Grande.

Posteriormente, as terras passaram para Francisco Ignácio de Souza e foram herdadas pelas filhas Isabel Augusta e Genebra Miquelina de Souza Queiroz. Esta última era casada com o capitão Luís Ribeiro de Souza Resende e teve papel fundamental na história da propriedade.

Após a morte de Genebra Miquelina, em 1863, o capitão abandonou a fazenda. A Marquesa de Valença, representante do Império na época, decidiu homenagear a antiga proprietária e alterou o nome da propriedade para Fazenda Santa Genebra.

Em 1876, a fazenda foi transferida para o filho da marquesa, o Barão Geraldo de Rezende, que administrou a área até 1907.

“Na década de 1940, José Pedro de Oliveira adquiriu a fazenda. Sua esposa, Jandyra Pamplona, iniciou os primeiros loteamentos, embora tivesse preferência por manter a área voltada à atividade agrícola”, explicou o arquiteto e urbanista João Verde.

Expansão urbana transformou a antiga fazenda

Entre as décadas de 1960 e 1970, a implantação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a construção da Rodovia Dom Pedro I e a instalação da Central de Abastecimento de Campinas (Ceasa) ocuparam parte significativa das terras da antiga fazenda, gerando processos de indenização aos proprietários.

Segundo João Verde, a região possuía uma das áreas agrícolas mais valiosas do país.

“Campinas chegou a ser o maior município produtor de café do Brasil. Por volta de 1880, a Fazenda Santa Genebra era a principal produtora de café da cidade. As terras onde hoje estão a Unicamp, a PUC-Campinas e Barão Geraldo são formadas por terra roxa, um dos solos mais férteis do Brasil”, destaca.

Bairros de Campinas nasceram da Fazenda Santa Genebra

Os limites da antiga Fazenda Santa Genebra abrangiam áreas que atualmente correspondem aos bairros Costa e Silva, Jardim Santa Genebra, parte da Vila Nova, o Ceasa, o distrito de Barão Geraldo e a Mata Santa Genebra, uma das mais importantes áreas de preservação ambiental de Campinas.

Para Isabel, as memórias da infância ainda permanecem vivas. “Eu era muito pequena, mas me lembro dos meus irmãos mais velhos colhendo algodão. Eles me levavam junto e todos íamos felizes para a lida no campo”, recorda.

Cultura para quem precisa

Na casa mais antiga do bairro funciona o Centro Cultural Coletivo Mangueira. Fundado por uma atriz e uma bailarina, o espaço atende turmas de teatro, dança contemporânea, de rua, de salão, afrobrasileira, balé, e até método fitness.

“Desde que surgiu a ideia para a criação do coletivo, começamos a procurar lugares que tivessem espaço para atividades corporais. A gente não queria que fosse em Barão Geraldo, porque acreditamos que a arte fica muito centralizada lá, muito por conta da Unicamp”, diz Bianca Jorge, uma das fundadoras do centro cultural.

Santa Genebra: Fundado em 2022, o Centro Cultural Coletivo Mangueira recebe alunos dos bairros próximos para aulas de dança e de teatro (Foto: Giovana Perianez)

Ela também conta que a escolha da localização se deu também pela natureza preservada na região e o estilo da construção.

“Quando entrei aqui, foi um impacto muito grande, pois sou muito conectada com a natureza. A gente viu essa arquitetura maravilhosa e começou a perguntar a história do espaço. Aí soubemos que essa foi a primeira casa construída no bairro, e ela ocupa o quarteirão inteiro, agora está dividida”, conta Bianca.

Agricultura sustentável em meio à natureza

Na década de 80, não existia gestão de resíduos no Jardim Santa Genebra. Os moradores construíam as casas e jogavam no terreno ao lado ou na frente da obra. Os carroceiros recolhiam o entulho e jogavam onde hoje é o Parque Linear Ribeirão das Pedras.

É o que conta Paulo César Criani Cardillo, presidente da associação que mantém as 45 hortas que fazem parte do local. “Isso aqui era um verdadeiro lixão e tinha gente querendo morar. Aí veio o prefeito Magalhães Teixeira, aterrou aqui e dividiu em lotes. Foi a primeira horta comunitária de Campinas”, diz Cardillo.

Líder da Associação de Hortas Comunitárias, Paulo Cardillo coordena os 45 lotes destinados à agricultura (Foto: Gustavo Cabral)

Para ele, ainda existem desafios para a manutenção das hortas.

“Cada um aqui cuida da sua e a gente paga um advogado que acompanha o processo. A prefeitura quer tirar a gente daqui, mas o Ministério Público pressiona, porque tem medo de que vire lugar de moradia irregular”, analisa.

Segundo a prefeitura, as hortas precisam ser recadastradas para a regularização do uso (Foto: Gustavo Cabral)

Em nota, a Prefeitura de Campinas informou que o espaço foi cedido para a agricultura nos anos 80, mas que a concessão ficou “obsoleta” com o passar dos anos, e que “está fazendo um estudo para a reorganização dessas áreas”.

A Prefeitura ainda informou que a intenção é “orientar os agricultores e a associação” para o cadastro e regularização da ocupação do terreno.

Shopping impulsionou o comércio e transformou o Jardim Santa Genebra

Inaugurado em 19 de março de 2002, o Parque Dom Pedro Shopping consolidou-se como um dos principais centros comerciais do país e é considerado o maior shopping center térreo da América Latina. O empreendimento possui 185 mil metros quadrados de área construída, dos quais 127,3 mil metros quadrados são destinados à área locável, distribuída entre 425 lojas.

De acordo com a Allos, administradora do shopping, cerca de 1,6 milhão de pessoas circulam pelo empreendimento todos os meses, tornando-o um dos principais polos de consumo, lazer e serviços de Campinas.

Para o arquiteto e urbanista João Verde, a chegada do shopping provocou impactos significativos no desenvolvimento urbano da região.

“O shopping é uma estrutura de grande porte, que ocupa uma área extensa e não foi acompanhado por um estudo de impacto de vizinhança capaz de avaliar seus efeitos urbanísticos e sociais. Apesar dos impactos negativos, é inegável a contribuição para a geração de empregos e o fortalecimento da economia local”, avalia.

Moradores destacam valorização do bairro

Moradora do Jardim Santa Genebra há cerca de cinco décadas, Isabel Cristina Madeira acredita que a implantação do shopping trouxe benefícios importantes para a região.

“O empreendimento preservou a mata ao redor e a nascente de água, que continua existindo até hoje. Algumas árvores que precisaram ser removidas foram reaproveitadas e transformadas em bancos dentro do shopping. Além disso, há uma capela muito bonita, construída em torno de uma pedra que resistiu às explosões realizadas durante as obras”, relata.

Segundo Isabel, a chegada do Parque Dom Pedro também contribuiu para a valorização imobiliária do bairro, ampliou a oferta de transporte público e impulsionou a criação de empregos.

Transporte e crescimento urbano

Atualmente, o Jardim Santa Genebra abriga o Terminal Shopping Dom Pedro, que concentra linhas de ônibus que atendem diversas regiões de Campinas.

“Há linhas para bairros como Aparecidinha, Campo Grande e Ouro Verde. Os ônibus que atendem as principais regiões populares da cidade passam pelo terminal. O que faltou foi um sistema de transporte de maior capacidade, como um corredor BRT ou até mesmo um VLT aproveitando o eixo já existente”, afirma João Verde.

Comércio planejado e verticalização

De acordo com o urbanista, o projeto original do Jardim Santa Genebra previa áreas comerciais concentradas em grandes quadras localizadas no interior do bairro, com lojas instaladas em galerias e conjuntos comerciais planejados.

Com a flexibilização das regras de uso do solo e a autorização para atividades comerciais em importantes avenidas da região, parte dessas áreas originalmente destinadas ao comércio ficou disponível para novos empreendimentos imobiliários.

“O resultado foi a ocupação de algumas dessas quadras por edifícios residenciais, contribuindo para o processo de verticalização e transformação urbana observado no bairro nas últimas décadas”, explica Verde.

Da vida noturna à fé: antiga boate deu lugar a um dos santuários mais conhecidos de Campinas

No fim da década de 1990, a esquina das ruas Estácio de Sá e Alexandre de Gusmão, no Jardim Santa Genebra, era um dos principais pontos de entretenimento noturno de Campinas. O endereço abrigava a Rhodes Entertainment, casa noturna que se tornou referência entre os jovens da cidade por sua estrutura inspirada na Antiguidade e pelas festas que movimentavam os fins de semana.

A boate chamava a atenção pela pista de dança circular, cercada por escadas laterais, camarotes com vidros escurecidos e um amplo bar, elementos que ajudaram a transformar o espaço em um dos mais conhecidos da vida noturna campineira.

Para marcar a inauguração do empreendimento, uma réplica do Colosso de Rodes percorreu ruas e avenidas de Campinas antes de ser instalada na entrada da casa noturna, reforçando a identidade temática do local.

Com o passar dos anos, porém, o perfil do público mudou. As tradicionais noites voltadas ao público adulto deram espaço a matinês destinadas aos adolescentes. A mudança marcou o início do declínio da casa, que encerrou as atividades no começo dos anos 2000, tornando-se uma lembrança marcante para uma geração de campineiros.

Espaço foi transformado em santuário religioso

Após o fechamento da boate, o imóvel foi adquirido por Denis Bourgerie, devoto de Nossa Senhora Desatadora dos Nós. O local passou por uma ampla reforma e adaptação para receber atividades religiosas.

Os fiéis, que até então se reuniam em uma pequena capela da região, passaram a frequentar o novo espaço, que se transformou em um importante centro de devoção católica em Campinas. Poucos elementos da antiga casa noturna foram preservados.

Santuário recebe fiéis de diversas regiões do Brasil

Atualmente, o santuário dedicado a Nossa Senhora Desatadora dos Nós atrai milhares de pessoas de Campinas, de outras cidades brasileiras e até do exterior.

As celebrações religiosas acontecem regularmente às segundas-feiras, quartas-feiras, sábados e domingos, consolidando o local como um dos principais destinos de fé e peregrinação da região.

A transformação do antigo espaço de lazer em um santuário religioso tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos das mudanças urbanas e culturais vividas pelo Jardim Santa Genebra ao longo das últimas décadas.

Vozes da Nossa Gente Campinas

O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.

Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Murilo Araujo Sacardi, Théo Miranda de Lima, Gustavo Maito Cabral, Enzo Zaros Santos, Giovana Perianez de Souza, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.

Orientação: Profa. Amanda Artioli

Editor: Giovanni Feltrin