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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Vila Boa Vista, em Campinas, transforma futebol de várzea em identidade, cultura e pertencimento comunitário

A Vila Boa Vista, bairro da região Noroeste de Campinas, nasceu em 1969 a partir de um projeto de habitação popular da Cohab (Cia de Habitação Popular de Campinas). Entre ruas batizadas com nomes de árvores, o bairro construiu sua identidade.

Por Johnny Pereira de Lima Filho, Lizandra Kelly de Lima, Washington da Silva Coutinho, Bruno Luiz Gomes Dantas e Maria Eduarda Ferreira

A Vila Boa Vista, bairro da região Noroeste de Campinas, nasceu em 1969 a partir de um projeto de habitação popular da Cohab (Cia de Habitação Popular de Campinas). Entre ruas batizadas com nomes de árvores, o bairro construiu sua identidade tendo como um de seus principais símbolos o futebol de várzea, representado pelas cores branco e azul, que fazem parte da história e da cultura local.

Foi a partir do campo de futebol que moradores passaram a organizar iniciativas culturais, esportivas e de comunicação comunitária, fortalecendo o sentimento de pertencimento e valorizando a história da Vila Boa Vista. As ações ajudam a preservar a identidade do bairro e a manter viva a participação da comunidade.

Localizada ao lado da empresa multinacional alemã Bosch e com acesso facilitado pelas rodovias Anhanguera, Santos Dumont e Dom Pedro I, a Vila Boa Vista reúne importantes espaços de convivência, como o campo de futebol, a associação de moradores e o centro comercial. Esses locais concentram atividades que movimentam o dia a dia da comunidade, como aulas gratuitas de bateria, treinos e partidas esportivas aos fins de semana, além de feiras, eventos e encontros que fortalecem a economia local e promovem a integração entre os moradores.

O colírio da Vila Boa Vista: o futebol de várzea que fortalece a identidade do bairro

As cores azul e branco estampam muito mais do que o uniforme do Vila Boa Vista FC. Elas representam o orgulho, a identidade e o sentimento de pertencimento dos moradores da Vila Boa Vista, bairro da região Noroeste de Campinas, que encontram no futebol de várzea um dos maiores símbolos da comunidade.

Presente de forma ininterrupta no Campeonato Amador de Campinas desde 2000, o Vila Boa Vista FC consolidou-se como uma das principais equipes de futebol de várzea da cidade. O clube acumula três títulos da Série Ouro da Liga Campineira, tornando-se referência dentro e fora da região.

Mais do que formar times competitivos, o Vila Boa Vista FC desempenha um importante papel social ao investir na formação de jovens atletas. O clube mantém categorias de base sub-16, sub-18 e sub-20, além das equipes Veteranos (35+) e Master (40+), conhecida como Amigos do Léo. O nome é uma homenagem a Léo, um apaixonado pelo clube e pelo bairro, que ficou marcado na história da comunidade.

Conhecido carinhosamente pela sigla VBV, o clube também atua como articulador da equipe que representa a Vila Boa Vista na Taça das Favelas Campinas, competição organizada pela CUFA que reúne atletas de 13 a 17 anos de comunidades da cidade. A participação no torneio amplia as oportunidades para jovens talentos e reforça o papel do futebol como ferramenta de inclusão social, cidadania e fortalecimento dos vínculos comunitários.

Orgulho de morar de ser VBV

O orgulho de morar na Vila Boa Vista vai muito além das arquibancadas. A identificação com o bairro é tão forte que a sigla VBV aparece com frequência nos perfis de moradores nas redes sociais. É comum encontrar nomes de usuário como “Fulano_VBV” no Instagram e no Facebook, uma demonstração de pertencimento e valorização da comunidade.

Outro exemplo dessa identidade coletiva é a TV Boa Vista, iniciativa independente criada para registrar e transmitir os jogos de futebol de várzea da região. O projeto tornou-se uma referência na cobertura esportiva amadora em Campinas e, desde a criação do canal no YouTube, em 2007, já ultrapassou 206 mil visualizações, com mais de 446 vídeos publicados. Nas redes sociais, especialmente no Instagram, os melhores lances, gols e bastidores também ganham destaque, reunindo cerca de 2,8 mil seguidores e servindo como vitrine para atletas e equipes do bairro.

Um dos fundadores da TV Boa Vista é Edilson Ferreira, de 60 anos, morador da Vila Boa Vista há 52 anos. Ele conta que a ideia nasceu de forma espontânea, impulsionada pela paixão pela produção audiovisual.

“Eu tinha 14 anos e era vidrado em câmeras. Assistia aos jogos de futebol, mas nem era pelo jogo em si, e sim pelo posicionamento das câmeras. Isso foi crescendo em mim. Em 1985, comprei uma câmera pequena, bem simples. Primeiro filmava aniversários. Depois começaram a pedir para gravar um jogo ou outro. Passei a registrar campeonatos internos da Bosch também, onde trabalhei por quase 40 anos”, relembra.

Com o passar dos anos, a TV Boa Vista transformou-se em um importante acervo da memória esportiva da Vila Boa Vista e do futebol de várzea de Campinas. Além de registrar partidas históricas, o projeto ajuda a divulgar novos talentos, preservar a história do bairro e fortalecer a identidade de uma comunidade que tem no esporte uma de suas maiores tradições.

A história da TV Boa Vista

A história da TV Boa Vista também passa pela parceria entre dois nomes fundamentais para o clube e para a comunidade: Edilson Ferreira e Nilton Domingos, de 61 anos.

Nilton, que chegou ao bairro em 1970, se define como o “faz-tudo” do Vila Boa Vista FC. Ele foi o primeiro morador de sua rua e, desde então, construiu uma trajetória profundamente ligada ao clube e à vida esportiva da região Noroeste de Campinas.

Atuando em diferentes frentes, Nilton participa de todas as categorias do time. Com os mais jovens (entre 16 e 20 anos, incluindo o projeto da Taça das Favelas Campinas), ele exerce a função de auxiliar técnico, dividindo o comando com outro treinador. Já nas categorias de Amador e Veteranos, integra a comissão técnica. Fora de campo, sua atuação é ainda mais ampla: cuida da organização dos uniformes, da limpeza dos vestiários e até da preparação de água para os atletas.

Quando fala sobre a motivação para dedicar tanto tempo ao clube, ele resume o sentimento que move sua trajetória:

“Isso aqui é minha vida. Adoro fazer o que eu faço, adoro futebol, adoro esporte. O que me motiva é o futebol, está na minha alma, não tem jeito”, afirma Nilton.

A parceria entre Nilton Domingos e Edilson Ferreira foi essencial para a criação e fortalecimento da TV Boa Vista, iniciada no ano 2000 como um projeto independente de registro do futebol de várzea em Campinas. Desde então, a dupla passou a gravar jogos em diferentes campos da região, atendendo convites de outras equipes e ampliando a presença do projeto no cenário esportivo amador.

Matilha Batuqueira: projeto social de bateria fortalece jovens na Vila Boa Vista

O projeto social de bateria da torcida Matilha Batuqueira nasceu há cinco anos na Vila Boa Vista, bairro da região Noroeste de Campinas, com o objetivo de formar novos batuqueiros para acompanhar o time de futebol durante os campeonatos de várzea da cidade.

Atualmente, a iniciativa reúne em média 25 alunos por aula e vai além da música: funciona também como um espaço de formação educacional, convivência e desenvolvimento social para jovens do bairro.

O idealizador e conselheiro do projeto, Adriano Mira, de 32 anos, percussionista profissional, explica que um dos principais desafios dentro de uma comunidade é alcançar e engajar os mais jovens. Segundo ele, na Vila Boa Vista esse processo acontece principalmente por meio da combinação entre futebol e música.

“A Matilha tem regras para que os alunos entendam a importância de tocar e participar da bateria”, explica Adriano.

O acompanhamento dos participantes vai além das aulas de percussão. Segundo o idealizador, o projeto também monitora o desempenho escolar, incentiva o diálogo com as famílias e observa o comportamento coletivo dos jovens como forma de fortalecer o vínculo com a comunidade e oferecer suporte educacional e social.

A proposta da Matilha Batuqueira é ampliar o papel do futebol de várzea na Vila Boa Vista, transformando o ambiente esportivo em uma ferramenta de inclusão e desenvolvimento pessoal. A comunicação constante com os participantes é uma das estratégias utilizadas para estimular o engajamento comunitário e apoiar os jovens na construção de seus projetos de vida.

As aulas acontecem às quartas-feiras, das 19h30 às 22h, na sede da Associação de Moradores da Vila Boa Vista. Os ensaios são abertos ao público de todas as idades e bairros da região de Campinas. Para participar, basta comparecer ao local, realizar a inscrição e conversar com os organizadores.

O projeto já recebeu integrantes de outros bairros, como Vila Renascença e Jardim São Judas Tadeu, e também contribuiu para a formação de baterias em iniciativas culturais de diferentes territórios da cidade, reforçando o papel da Matilha Batuqueira como referência em cultura comunitária e inclusão social na Vila Boa Vista.

Lideranças que inspiram fortalecem o futebol de várzea

Na Vila Boa Vista, bairro da região Noroeste de Campinas, o futebol de várzea vai muito além das quatro linhas. Na comunidade, todos participam de alguma forma: jogadores, torcedores e dirigentes compartilham funções e responsabilidades, criando uma rede de apoio que mantém viva a tradição esportiva e cultural do bairro.

Os atletas também integram a Matilha Batuqueira, dividindo o tempo entre jogar, tocar na bateria e apoiar a torcida. Dessa integração nasce um modelo comunitário em que o futebol é o principal ponto de encontro, fortalecendo vínculos sociais e o sentimento de pertencimento à Vila Boa Vista.

Entre as lideranças locais está Cláudia Roberta Silva, de 59 anos, cuidadora e integrante da diretoria do time. Ela atua diretamente na organização da torcida, na venda de camisas, na busca por patrocínios no comércio local e na logística de transporte para os jogos quando necessário.

“Eu tenho muito orgulho e sou Boa Vista desde que nasci. Eu não perco um jogo, vou sempre. Grito, participo. Um dia a gente ganha, outro dia perde e, de vez em quando, fazemos festa na quadra da Vila. Quem quiser, participa”, afirma Cláudia.

Outra liderança importante é o idealizador da Matilha Batuqueira, Adriano Mira, que destaca o papel do futebol como ferramenta de identidade e resistência comunitária na Vila Boa Vista.

“O futebol é a forma que encontramos de defender nosso pedaço de chão”, diz. “Levantar a bandeira do seu bairro é um ato de amor pelo lugar onde seus pais cresceram”, complementa.

Adriano conta que seus avós chegaram à Vila Boa Vista por meio do projeto de habitação da Cohab, e que sua relação com o bairro atravessa gerações. Ele herdou o gosto pela música do pai, Francisco Mira, já falecido. Os pais se conheceram na própria comunidade e viveram na mesma rua.

Além da atuação no projeto social, Adriano também destaca o papel da liderança como exemplo dentro e fora de campo.

“Ser líder é consequência de saber lidar com as pessoas, conversar, ter credibilidade e impor limites. Como músico, mostrar que a música pode ser uma profissão é o que me torna um exemplo”, explica.

O percussionista já trabalhou com artistas do sertanejo, como a dupla Henrique e Guilherme e a cantora Kamila Lima, levando a experiência profissional para dentro das ações sociais desenvolvidas na Vila Boa Vista.

A paixão em cada esquina: histórias de pertencimento na Vila Boa Vista

Na Vila Boa Vista a vida comunitária é construída a partir de diferentes formas de participação. Além das lideranças formais, o bairro reúne moradores que, em suas rotinas, contribuem para fortalecer o bem coletivo e preservar a identidade local. O objetivo compartilhado é criar uma base sólida de pertencimento, capaz de ser mantida e fortalecida pelas próximas gerações.

Entre essas histórias está a de Alexandre Teixeira, 46 anos, nascido na Vila Boa Vista. Em 1984, ele se mudou com a família para Araraquara devido ao trabalho do pai, mas nunca deixou de manter vínculos com o bairro nem de acompanhar o futebol de várzea local. Anos depois, decidiu retornar definitivamente à comunidade onde nasceu, abrindo mão do emprego para viver mais próximo do bairro e do time do coração.

“Em 2012, pedi demissão da empresa em Araraquara para voltar a morar na Boa Vista. Eu sou apaixonado por aqui. Vivo isso daqui [o futebol] de verdade. Por ser um campeonato amador, sem fins lucrativos, eu me doo. Adoro cantar. Moro perto do campo e vejo a molecada ensaiar toda quarta-feira. Isso aqui passou de geração em geração”, relata Alexandre.

Outro exemplo de envolvimento comunitário é o de Brás de Freitas, 68 anos, farmacêutico e síndico do Shopping Mix há 35 anos. Ele atua na zeladoria do espaço e colabora com ações de manutenção, jardinagem, limpeza externa e encaminhamento de demandas junto ao poder público para melhorias no entorno. Segundo ele, é no cuidado cotidiano que encontra sua forma de contribuir com a Vila Boa Vista.

Histórias como as de Alexandre e Brás mostram que o envolvimento com a Vila Boa Vista vai muito além dos dias de jogo. As ações individuais e coletivas ajudam a sustentar a vida comunitária, fortalecendo os vínculos sociais a partir do território e da convivência diária.

Vera Lúcia dos Santos Plácido, geógrafa, destaca que a forte identidade do bairro está diretamente ligada à sua territorialidade. Segundo ela, a Vila Boa Vista pode ser compreendida como um “território-lugar”, onde memória, identidade e pertencimento se entrelaçam na formação da comunidade.

“Essa comunidade, pela pesquisa feita, possui muita territorialidade, é um território-lugar, que já traz em si a identidade deles [população]. Quando estamos falando de identidade, falamos de memória e ancestralidade”, explica.

A pesquisadora também aponta que compreender esse processo exige diálogo com moradores mais antigos, que ajudam a revelar a profundidade das relações construídas ao longo do tempo.

“Como o futebol, enquanto esporte e prática social, agrega pessoas de diferentes idades em torno de uma manifestação cultural e identitária? Isso funciona quase como um ímã, pois puxa e envolve as pessoas para a mesma causa, trazendo uma sensação de pertença, ou seja, uma corresponsabilidade pelo lugar em que vivem”, complementa.

Vozes da Nossa Gente Campinas

O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.

Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Johnny Pereira de Lima Filho, Lizandra Kelly de Lima, Washington da Silva Coutinho, Bruno Luiz Gomes Dantas, Maria Eduarda Ferreira, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.

Orientação: Profa. Amanda Artioli

Edição: Giovanni Feltrin