Entre túmulos que preservam a memória de gerações e aeronaves que cruzam diariamente o céu dos Campo dos Amarais, o bairro revela um contraste singular de Campinas
Por Guilherme Tomesanni, Caique Amorim, Daniel Rosa e João Marcelo Marrey
Às margens do Aeroporto Estadual Campo dos Amarais, entre a Rodovia Dom Pedro I e os bairros que cresceram ao redor do terminal, em Campinas, uma cena chama a atenção de quem passa pelo local: fotógrafos com câmeras apontadas para o céu aguardam o momento exato em que uma aeronave cruza a pista. São os spotters, entusiastas da aviação que dedicam horas à observação e ao registro de pousos e decolagens.
Em Campinas, um dos representantes dessa comunidade é Lucca Geraldi Patelli. Aos 19 anos, o campineiro encontrou no Aeroporto dos Amarais um lugar onde pode unir duas paixões: a fotografia e a aviação. Nas redes sociais, ele compartilha os registros das aeronaves reunindo imagens que mostram a movimentação diária do aeroporto.
Para os spotters, fotografar aviões vai muito além de apertar o botão da câmera. A atividade exige paciência, conhecimento sobre modelos de aeronaves, horários de voos e condições de iluminação, sempre em busca do enquadramento perfeito.
A ligação de Lucca com a aviação começou ainda na infância e tem origem na própria família.
“Meu pai voou no Aeroclube de Campinas no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Essa história despertou meu interesse pela aviação. Quando criança, tirei uma foto dentro de um avião, depois ganhei uma câmera dele e comecei a registrar o movimento das aeronaves”, conta.
Hoje, o Aeroporto Estadual Campo dos Amarais representa muito mais do que um terminal voltado à aviação executiva. Para Lucca e tantos outros apaixonados pelo setor aeronáutico, o espaço tornou-se um ponto de encontro onde fotografia, tecnologia e a emoção de acompanhar cada pouso e decolagem fazem parte da rotina.

Campos dos Amarais: da história da família ao aeroporto que transformou toda uma região de Campinas
A origem do nome Amarais que abriga o Aeroporto Estadual Campo dos Amarais, remonta ao século XIX e reúne diferentes versões preservadas pela história da cidade.
Segundo o historiador campineiro J.M. Bueno, há duas hipóteses para a denominação da região. A primeira associa o nome à família Amaral, proprietária de terras no local durante o período de formação do bairro. A segunda faz referência ao capitão Boaventura do Amaral, morto em 1842 durante o Combate da Venda Grande, confronto entre liberais e tropas imperiais travado justamente na área onde hoje está o Amarais.

Como forma de preservar essa memória, um monumento em homenagem ao capitão foi instalado na Rua Dário Freire Meireles, em frente ao número 22. Apesar de seu valor histórico, o local ainda é pouco conhecido por muitos moradores da região.
Décadas depois, o cenário mudou completamente. Em 1939, a área passou a abrigar o Aeroclube de Campinas, marco que impulsionou o desenvolvimento da aviação na cidade e deu origem ao Aeroporto Estadual Campo dos Amarais, consolidando o bairro como uma referência do setor aeronáutico no interior paulista.
Com a expansão das atividades aéreas, o comércio se fortaleceu, novos moradores chegaram e o bairro passou a conviver diariamente com pousos e decolagens. Essa relação constante com a aviação também deu origem a uma comunidade de entusiastas e fotógrafos especializados em registrar aeronaves — os chamados spotters — que transformaram o entorno do aeroporto em um dos principais pontos de observação da aviação em Campinas.

Aeroporto Campo dos Amarais: conheça a história do terminal que impulsionou a aviação em Campinas
Muito antes de se consolidar como um dos principais polos da aviação executiva do interior paulista, o Aeroporto Estadual Campo dos Amarais – Prefeito Francisco Amaral, em Campinas, já desempenhava um papel importante na formação de pilotos no Brasil.
A história do terminal começou em 25 de maio de 1939, com a instalação do Aeroclube de Campinas, em um período em que o governo federal incentivava a criação de aeroclubes para ampliar a formação de pilotos civis no país.
Um dos marcos dessa trajetória foi a doação, pelo governo alemão, do histórico Hangar Aladino Selmi. Construído inteiramente em madeira de ipê e com cerca de 400 metros quadrados, o edifício preserva a arquitetura original da época e continua em funcionamento, tornando-se um dos principais símbolos do aeroclube.

Ao longo de mais de oito décadas, o Aeroclube de Campinas formou mais de 1.300 pilotos, entre aviadores desportivos e profissionais, contribuindo para o desenvolvimento da aviação civil brasileira.
Centro de memória preserva a história da aviação
Parte dessa trajetória pode ser conhecida no Centro de Memória do Aeroclube de Campinas, instalado onde funcionava a antiga secretaria da instituição.
O espaço reúne fotografias, documentos, jornais, cartas, equipamentos, maquetes e objetos históricos que ajudam a contar a evolução da aviação na cidade.
Entre os destaques do acervo estão registros da primeira turma de pilotos formada em 1939 e imagens de Ada Rogato, uma das maiores pioneiras da aviação brasileira. A inauguração do espaço, em setembro de 2013, contou com a presença do astronauta Marcos Pontes.
Outro momento que marcou a história recente do aeroporto foi a passagem do avião Albatross, utilizado nas gravações do filme Os Mercenários, estrelado por Sylvester Stallone. A aeronave permaneceu nos hangares do Amarais durante um período de manutenção antes de seguir viagem para o Paraná.
Estrutura moderna fortalece o aeroporto
Atualmente administrado pela Rede VOA, o Aeroporto Estadual Campo dos Amarais passou por uma série de investimentos que ampliaram sua capacidade operacional e reforçaram sua importância para a aviação executiva e de instrução.
Hoje, o terminal conta com:
- 25 hangares;
- pista homologada com 1.650 metros de extensão;
- operações por instrumentos (IFR);
- funcionamento diário, das 6h à meia-noite.
Nos últimos anos, o aeroporto recebeu mais de R$ 8 milhões em investimentos em infraestrutura. Em 2022, foi reconhecido pelo Ministério da Infraestrutura como o terceiro aeroporto mais sustentável do Brasil na categoria C1, destinada a terminais com movimentação anual de até 200 mil passageiros.
Movimento de aeronaves atrai fotógrafos e apaixonados pela aviação
Além da infraestrutura, o intenso movimento de aeronaves faz do Campo dos Amarais um dos principais pontos de observação da aviação em Campinas.
Entre as empresas instaladas está a MAGA Aviation, referência na América Latina em manutenção das aeronaves das famílias Learjet, Challenger e Global, fabricadas pela canadense Bombardier.
A circulação constante de jatos executivos, táxis aéreos, aeronaves particulares e aviões de instrução transforma o entorno do aeroporto em um ponto de encontro para os spotters — fotógrafos e entusiastas da aviação que registram pousos e decolagens e ajudam a contar, por meio de suas lentes, uma das histórias mais tradicionais da aviação campineira.

A rotina de um fotógrafo apaixonado pela aviação
Mesmo morando na região central de Campinas, Lucca Geraldi Patelli faz do Aeroporto Campo dos Amarais um destino quase diário. Aos 19 anos, o fotógrafo e entusiasta da aviação transformou o terminal em seu principal cenário para registrar pousos e decolagens de aeronaves.
A rotina de Lucca acompanha o movimento do aeroporto, onde passa horas observando o céu em busca do clique perfeito. Para ele, cada aeronave representa uma nova oportunidade de registrar detalhes, modelos e operações que passam despercebidos pela maioria das pessoas.
Ao contrário do Aeroporto Internacional de Viracopos, marcado pelo intenso fluxo de voos comerciais, o Campo dos Amarais oferece uma experiência mais próxima entre fotógrafos e aeronaves. Além da movimentação constante de jatos executivos, táxis aéreos e aviões de instrução, Lucca destaca o ambiente acolhedor criado pelas pessoas que trabalham no aeroporto.
“Aqui a gente consegue acompanhar as aeronaves mais de perto e existe uma relação muito boa com quem trabalha no aeroporto. Isso torna a experiência ainda mais especial”, afirma.
Comunidade de spotters compartilha informações sobre aeronaves
Com o passar dos anos, Lucca passou a integrar uma comunidade de spotters espalhada por Campinas e outras cidades. Pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, os fotógrafos trocam informações sobre voos, aeronaves raras e os melhores pontos para observação.
“Tenho muitos amigos spotters que costumam fotografar em Viracopos. A gente troca informações o tempo todo sobre as aeronaves que estão chegando e os melhores horários para fazer os registros”, conta.
Essa colaboração permite que os fotógrafos identifiquem modelos pouco comuns e se preparem para registrar operações especiais que passam pelos aeroportos da região.
Tecnologia ajuda a antecipar pousos e decolagens
Para acompanhar o tráfego aéreo em tempo real, Lucca utiliza o aplicativo Flightradar24, ferramenta bastante conhecida entre entusiastas e profissionais da aviação.
O sistema permite monitorar rotas, identificar aeronaves e acompanhar pousos e decolagens em tempo real, facilitando o planejamento dos registros fotográficos.
Registros de aeronaves raras estão entre os favoritos
Entre as imagens que mais marcaram sua trajetória como spotter está o registro de um Gulfstream V, jato executivo de longo alcance considerado raro nos aeroportos da região de Campinas.
Outro momento inesquecível aconteceu quando conseguiu fotografar a chegada de uma aeronave procedente da Europa durante o pouso no Campo dos Amarais.
Depois de cada clique bem-sucedido, a comemoração segue um ritual já conhecido entre os spotters: compartilhar a imagem com amigos e grupos especializados em aviação.
Para Lucca, cada fotografia vai além da técnica. É uma forma de registrar a história da aviação em Campinas e eternizar momentos únicos que, em poucos segundos, desaparecem do horizonte.
Comunidade de spotters cresce e fortalece a paixão pela aviação nas redes sociais
O plane spotting vai muito além de fotografar aviões. A atividade reúne uma comunidade cada vez maior de apaixonados pela aviação, que utilizam as redes sociais e plataformas especializadas para compartilhar registros, trocar informações sobre voos e identificar aeronaves raras que passam pelos aeroportos de Campinas e de outras partes do mundo.
No entorno do Aeroporto Estadual Campo dos Amarais, essa cultura ganhou força nos últimos anos com a popularização dos aplicativos de rastreamento de voos e das redes sociais. Hoje, os spotters se organizam em grupos, compartilham dicas sobre horários de pousos e decolagens, discutem modelos de aeronaves e combinam os melhores pontos para fotografar.
Além das redes sociais, plataformas especializadas como Planespotters e Airliners.net reúnem milhões de imagens enviadas por fotógrafos de diferentes países, formando um dos maiores acervos colaborativos da aviação mundial. Cada fotografia publicada contribui para documentar a movimentação de aeronaves, preservar registros históricos e acompanhar a evolução da aviação civil.
Em Campinas, o Campo dos Amarais tornou-se um dos principais pontos de encontro dessa comunidade. O intenso movimento de jatos executivos, aeronaves de instrução e táxis aéreos oferece oportunidades diárias para quem busca registrar imagens exclusivas.
Enquanto aviões cruzam o céu da cidade, o aeroporto também preserva a memória de uma região marcada pela história. O espaço que, no século XIX, foi cenário do Combate da Venda Grande e, décadas depois, deu origem ao Aeroclube de Campinas, hoje reúne diferentes gerações em torno de uma mesma paixão pela aviação.
Para spotters como Lucca Geraldi Patelli, cada pouso e cada decolagem representam mais do que uma fotografia. São registros que ajudam a contar a história da aviação em Campinas e reforçam a importância do Aeroporto dos Amarais como um patrimônio histórico, cultural e aeronáutico da cidade.
Entre túmulos e aeronaves: a história do coveiro que dedicou mais de 30 anos ao Cemitério dos Amarais

Enquanto aviões pousam e decolam diariamente no Aeroporto Estadual Campo dos Amarais, transportando histórias de chegadas e partidas, um outro espaço, a poucos metros dali, também convive diariamente com o ciclo da vida. É no Cemitério dos Amarais, em Campinas, que Gilberto Januário Pereira construiu uma trajetória de mais de três décadas dedicada ao serviço público.
Há quase 32 anos no cemitério municipal, Gilberto conhece cada quadra, alameda e rotina do local. Começou a carreira como coveiro e, atualmente, atua como líder de área, coordenando equipes e acompanhando sepultamentos, velórios e a manutenção do espaço, além de prestar apoio às famílias em um dos momentos mais delicados de suas vidas.
Morador de Monte Mor, na Região Metropolitana de Campinas, ele mantém uma rotina que começa antes do amanhecer. Todos os dias, acorda por volta das 4h para enfrentar o deslocamento até Campinas e iniciar o expediente logo nas primeiras horas da manhã.
Profissão atravessa gerações da família
A ligação de Gilberto com o Cemitério dos Amarais vai além da profissão. Seu pai também trabalhou no local durante 34 anos e, após sua morte, foi sepultado na quadra destinada aos servidores públicos municipais.
Ao longo das décadas, o cemitério deixou de ser apenas um ambiente de trabalho para se tornar parte da história da família. Nesse período, Gilberto acompanhou o crescimento de Campinas, mudanças na estrutura do cemitério e transformações na forma como a sociedade encara a morte e o luto.
Uma rotina que exige preparo físico e emocional
Lidar diariamente com despedidas exige mais do que força física. Para Gilberto, a profissão requer equilíbrio emocional, empatia e disposição para enfrentar diferentes condições climáticas ao longo do ano.
“As pessoas que vêm de fora não dão valor ao nosso trabalho. Estamos aqui aos sábados, domingos, na chuva e no sol. Não é qualquer um que consegue fazer esse serviço“, afirma.
Nos dias chuvosos, a lama dificulta os sepultamentos e a circulação pelas quadras do cemitério. Já durante o verão, as equipes permanecem horas sob o sol realizando enterros, exumações e serviços de conservação.
Reflexões sobre a vida e a morte
Depois de mais de 30 anos convivendo diariamente com despedidas, Gilberto diz que o trabalho mudou sua forma de enxergar a existência.
“A vida é apenas uma passagem. A pessoa pode ter muito dinheiro ou não ter nada. No fim, todos recebem o mesmo destino“, reflete.
Para ele, acompanhar de perto milhares de histórias ao longo da carreira reforçou a importância de valorizar o tempo, a família e as relações construídas ao longo da vida.
Cemitério dos Amarais acompanha mudanças da sociedade
Assim como Campinas mudou nas últimas décadas, o Cemitério dos Amarais também passou por adaptações para atender novas demandas da população.
Uma das mudanças mais recentes foi a possibilidade de sepultamento de animais de estimação em jazigos familiares, autorizada por legislação municipal.
A prática é permitida desde que haja autorização da família responsável pelo jazigo e apresentação de documentação veterinária que comprove que o animal não representa risco de contaminação do solo.
A medida reflete uma transformação no vínculo entre tutores e animais de estimação, cada vez mais reconhecidos como integrantes da família.

Vozes da Nossa Gente Campinas
O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de 15 bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.
Esta matéria foi produzida pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Guilherme Tomesanni, Caique Amorim, Daniel Rosa e João Marcelo Marrey, para o componente de Projeto Integrador VII, sob supervisão dos professores Rose Bars, Arthur Araújo e Amanda Artioli. A edição foi feita por Luciana Félix e Marcos Andrade.
Orientação: Profa. Amanda Artioli
Edição: Giovanni Feltrin















