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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Do entusiasmo ao faturamento, as agtechs de Campinas estão mudando 

Número de agtechs ativas na cidade caiu 19,6% em três anos, mas especialistas veem amadurecimento do setor

Por Luis Felipe Morosi Gallo e Murilo Pascale Martins de Oliveira

Campinas tem hoje menos agtechs ativas do que há três anos. O município saiu de 51 startups de tecnologia agrícola em 2022 para 41 em 2025, recuo de 19,6%, segundo o Radar Agtech Brasil. A Região Metropolitana de Campinas (RMC) caiu menos, de 83 para 73 agtechs, ou 12% no período. O motivo já diz muito sobre o setor: toda a perda regional está em Campinas. Somados, os outros 19 municípios da RMC ficaram parados em 32 agtechs nos dois anos. Para quem olha de fora, a queda parece fracasso. Para quem está dentro, conta outra coisa: um polo que perdeu densidade enquanto o entorno se manteve, num mercado que trocou o cadastramento em massa pela valorização de quem fatura, valida e entrega resultado.

A transformação não é exclusiva de Campinas. O Brasil registrou 2.075 startups agropecuárias em 2025, crescimento de 5% sobre as 1.972 de 2024, segundo o Radar Agtech Brasil, mapeamento anual da Embrapa, da SP Ventures e da Homo Ludens. É a menor expansão desde 2019. Mesmo assim, a região de Campinas e o chamado Corredor de Inovação Agro, faixa de 72 cidades do interior paulista que inclui Ribeirão Preto, São Carlos, Piracicaba, Campinas e São José dos Campos, seguem entre os ecossistemas agtech mais densos do país.

Para Aurélio Martins Favarin, analista de inovação aberta da Embrapa e editor do Radar Agtech Brasil, a desaceleração não é necessariamente negativa. “A gente não tem mais aquele frenesi que existiu alguns anos atrás. Hoje, cada ator já entende qual é o seu papel. Investidores que antes aplicavam em startups em estágios muito iniciais agora buscam empresas com maior amadurecimento. As agências estaduais assumiram o espaço das etapas iniciais. É uma maturidade que traz estabilidade”, afirmou.

Favarin observou que a queda em Campinas pode ter mais de uma explicação. O Radar contabiliza as empresas pelo domicílio fiscal, de modo que uma startup que muda de endereço legal para outra cidade, mesmo sem encerrar as atividades, sai do levantamento local. “O radar não é um censo, ele apresenta uma parte da realidade”, disse.

Também é possível, acrescentou, que parte das empresas tenha encerrado as atividades.

Os números do entorno dão lastro às duas hipóteses. Enquanto Campinas perdeu dez agtechs, Indaiatuba subiu de cinco para sete, e Sumaré, de uma para três. Paulínia e Holambra recuaram. O saldo dos vizinhos ficou zerado, comportamento compatível tanto com o fechamento de empresas quanto com a migração de sede fiscal para cidades próximas, sem que o ecossistema regional tenha encolhido na mesma proporção da capital regional.

No plano nacional, o crescimento de 5%, diante de taxas mais altas em anos anteriores, reflete um ambiente de capital mais escasso. Há menos espaço para empresas que não geram receita própria, não passam por validação técnica e não mostram impacto financeiro concreto para o produtor rural.

O peso do Corredor de Inovação Agro

Se Campinas perdeu startups, o Corredor de Inovação Agro como um todo manteve o ritmo. O número de empresas ficou estável em 278 em 2024 e em 2025, e a fatia da região no estado de São Paulo subiu de forma leve, de 32,44% para 32,67%. Vale a distinção: o Corredor não é a RMC. Campinas pertence aos dois, mas Piracicaba, Ribeirão Preto, São Carlos e São José dos Campos compõem o Corredor sem fazer parte da região metropolitana.

O contraste fica mais nítido no recorte nacional. Os ambientes de inovação são as incubadoras, as aceleradoras e os parques tecnológicos que abrigam as startups. A região concentra 8,20% desses ambientes no país, mas gera 13,40% das agtechs brasileiras. Ou seja, entrega proporcionalmente mais do que a sua estrutura sugere.

Entre as cinco cidades-polo do Corredor, o movimento foi desigual. Campinas saiu de 44 startups em 2024 para 41 em 2025. Piracicaba, a maior do grupo, recuou de 63 para 52. Ribeirão Preto, ao contrário, cresceu de 56 para 62, e São Carlos subiu de 21 para 28. São José dos Campos ficou praticamente estável, com 30. As cinco concentram cerca de 76,6% das startups da região. As altas de Ribeirão Preto e São Carlos quase anularam as quedas de Campinas e Piracicaba, e o total do Corredor permaneceu estável em 278.

O ecossistema Unicamp: ciência que vira faturamento

A Unicamp ocupa papel central nesse ecossistema. As empresas-filhas da universidade, criadas por ex-alunos, professores ou pesquisadores com vínculo com a instituição, somam 1.515 unidades ativas, segundo o Relatório de Empresas-filhas da Unicamp 2025, da Inova Unicamp. Juntas, faturam R$ 28,3 bilhões por ano e empregam 54.524 pessoas. Esses números cobrem empresas de todos os setores, da tecnologia da informação à saúde, não apenas o agro.

O recorte do segmento agrícola, fornecido pela Inova a pedido da reportagem, aponta 19 agtechs cadastradas e ativas, com faturamento anual declarado de R$ 34,05 milhões e 120 empregos diretos. Das 19, nove estão sediadas na RMC.

É nesse contexto que nasceu a Singular SeedS, empresa criada a partir do Desafio Unicamp e graduada na incubadora Incamp em 2024. A startup desenvolve sistemas de análise de sementes e grãos baseados em inteligência artificial.

Sementes sob o olhar da inteligência artificial

Thiago Castro Félix, sócio da Singular SeedS, descreveu o problema que a empresa foi criada para resolver. No controle de qualidade, um lote mal avaliado que chega à comercialização gera perdas diretas e imprevisíveis para o produtor. A decisão de liberar ou reter um lote precisa ser rápida e confiável. Pelo método convencional, analistas examinam amostras à mão, na casa de 100 sementes por hora. O sistema da empresa chega a 100 mil. Em um teste com a Ambev, o tempo de análise de uma amostra caiu de 90 minutos para cinco, uma operação 18 vezes mais rápida.

“Nosso foco está em retornos imediatos e concretos: aumento da confiança nas análises, maior poder de decisão para os responsáveis, menos perda de informação, menos retrabalho e redução de tempo. O ganho de produtividade não é no final, é durante o processo”, afirmou Félix.

A Singular SeedS passou pela incubação na Unicamp e pela aceleração do UPLAB, programa do SENAI, antes de chegar ao mercado. Mas Félix afirmou que as validações decisivas não foram de laboratório, e sim as provas de conceito, testes reais dentro de uma empresa-cliente, com critérios de sucesso definidos antes de começar. “Quando elas aprovam, funciona como um selo de qualidade para o mercado”, disse.

Esse modelo, em que a startup gera receita ainda na fase de validação, antes de o produto estar finalizado, é o que diferencia as empresas que sobrevivem ao ciclo atual. Félix explicou que o modelo de negócios foi construído a partir de conversas com quem executa as tarefas no dia a dia das empresas clientes. “Não só o gestor, mas o analista que vai usar a ferramenta na rotina de qualidade de sementes e grãos”, declarou.

A infraestrutura como diferencial competitivo

A permanência da Singular SeedS em Campinas não é acaso. Para Félix, o ecossistema local, com acesso à Unicamp, ao Sebrae, ao SENAI e ao Corredor de Inovação Agro, oferece o que uma startup levaria anos para construir sozinha: rede, conhecimento e presença.

“A infraestrutura de Campinas tornou-se parte da nossa estratégia. Com participação em eventos e parcerias com incubadoras, hubs e o corredor do agronegócio paulista, além da proximidade com a Unicamp, o Sebrae e o Senai, conseguimos ampliar nossa rede e abrir possibilidades que uma startup sem esse ecossistema levaria anos para construir”, afirmou.

Sobre o debate de automação e emprego, Félix sustentou que a tecnologia da empresa não elimina o profissional técnico, mas libera o seu tempo para tarefas que exigem julgamento. “Nossa tecnologia vem para agregar e aumentar a capacidade desse profissional, eliminando o tempo gasto em tarefas repetitivas”, disse.

Como medir o que uma tecnologia entrega

A questão de como provar o valor de uma tecnologia digital para o produtor está no centro de uma das pesquisas da Embrapa para o setor. Daniela Maciel Pinto, pesquisadora da Embrapa Territorial, em Campinas, coordena o Ambitec-TICs, metodologia de avaliação de impacto criada para softwares, aplicativos e plataformas digitais voltados à agropecuária.

O método avalia 65 indicadores em 12 critérios, nas dimensões ambiental, econômica e social. Usuários qualificados, como pesquisadores, gestores, produtores e extensionistas, atribuem notas a cada indicador e indicam se a tecnologia gerou aumento ou redução, e em que magnitude. O resultado é um índice que traduz o impacto em linguagem comparável.

Para Daniela, o produtor que desconfia de uma tecnologia nova não é irracional. Por isso, critérios como produtividade do trabalho e compatibilidade com sistemas já existentes pesam na hora de convencer.

“O produtor rural desconfiado é, na maioria das vezes, um produtor racional. Ele não quer promessa, quer evidência de que aquela tecnologia vai funcionar nas condições específicas da sua propriedade. Quando uma startup consegue apresentar resultados estruturados com base nesses critérios, e não apenas depoimentos ou casos isolados, ela está falando a língua do produtor: eficiência, praticidade e retorno”, declarou a pesquisadora da Embrapa Territorial.

A dimensão ambiental tem peso crescente para startups que buscam investimento com critérios ESG (ambientais, sociais e de governança). Um aplicativo que otimiza rotas de transporte reduz o consumo de combustível. Uma plataforma de monitoramento de lavouras diminui aplicações desnecessárias de agroquímicos. Documentados com método, esses impactos deixam de ser narrativa de marketing e viram dado verificável. “Para fundos de investimento com critérios ESG, isso é o que distingue uma empresa que diz ser sustentável de uma que consegue demonstrar como e quanto”, afirmou.

Daniela apontou ainda uma lacuna que a própria reportagem encontrou ao tentar identificar quais agtechs da RMC já passaram pela avaliação do Ambitec-TICs: não há mapeamento oficial por recorte territorial.

“A ausência de um mapeamento formal é, ela mesma, um dado relevante. Revela uma lacuna entre a disponibilização de ferramentas de avaliação e a institucionalização do seu uso por atores privados”, disse.

Além da avaliação de impacto, Daniela coordena a Infraestrutura de Dados Espaciais da Embrapa, o GeoInfo, repositório público de dados georreferenciados com informações sobre uso e cobertura da terra, aptidão agrícola, degradação de pastagens, emissões de carbono e bacias hidrográficas. Para uma startup, esse acervo é matéria-prima para decisões de mercado.

“Para uma startup de agtech, isso significa a diferença entre uma solução genérica e uma solução que chega no lugar certo, para o perfil certo de produtor, no momento adequado do calendário agrícola”, afirmou Daniela.

Menos empresas em Campinas, ecossistema mais sólido

Os números, somados, desenham menos um colapso do que um deslocamento. Campinas perde densidade, enquanto o entorno e o Corredor seguram o estoque. O Ambitec-TICs oferece ferramentas para que as empresas que ficam provem o seu valor. A Inova Unicamp continua a gerar negócios baseados em pesquisa. E a Singular SeedS mostra que é possível crescer sem depender de uma grande rodada de investimento. Quem permanece sobrevive cada vez menos pelo cadastro e cada vez mais pelo faturamento e pela validação.

Créditos foto: Pedro Amatuzzi

Orientação: Profº Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves