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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Conflito entre Irã e EUA quase dobra querosene e pressiona indústria de Campinas 

Combustível de aviação saltou de R$ 3,40 para R$ 6,64 desde fevereiro. A Refinaria de Paulínia ganha, enquanto fábricas da região absorvem o frete mais caro.

Por Gustavo Zuffo e João Vitor Viana

Em pouco mais de dois meses, o conflito entre Estados Unidos e Irã quase dobrou o preço do principal combustível de aviação no Brasil. A escalada começou em 28 de fevereiro de 2026 e criou uma equação assimétrica para a Região Metropolitana de Campinas. De um lado, a Refinaria de Paulínia (Replan) vê a receita subir com a alta do querosene. É uma das maiores do país e fica a 15 quilômetros do centro de Campinas. Do outro, as fábricas da região absorvem o custo sem ter como repassá-lo no curto prazo. Elas dependem do frete aéreo para importar fármacos e eletrônicos.

O preço médio do querosene de aviação (QAV) na Região Sudeste saltou de R$ 3,40 por litro na semana de 23 de fevereiro, antes da escalada, para R$ 6,64 na semana de 4 de maio. O dado é da série semanal divulgada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A alta de 95,3% em pouco mais de dois meses coincide com o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, rota por onde escoa cerca de 20% do petróleo mundial. O Irã não declarou bloqueio formal. Mas as ameaças à navegação derrubaram o tráfego no estreito em cerca de 70% no auge da crise.

A Petrobras anunciou em abril um reajuste de 54,8%. Para suavizar o golpe, criou uma adesão opcional. As distribuidoras que aderissem pagariam só 18% de aumento em abril e parcelariam o restante em seis vezes, a partir de julho. O segundo reajuste, de mais 18%, entrou em vigor em 1º de maio. Em comunicados públicos, a estatal atribuiu a decisão a contexto excepcional causado por questões geopolíticas.

A pressão veio do mercado internacional. Com a navegação em Ormuz restringida, o barril de petróleo Brent subiu rápido. O Brent é a referência internacional de preço. A alta empurrou a paridade de importação, a regra pela qual a Petrobras alinha o preço interno ao custo de trazer o combustível de fora, já em reais e com frete. É esse mecanismo que transmite a alta externa direto ao mercado brasileiro. O gráfico abaixo cruza a referência do petróleo com a curva semanal do querosene no Sudeste. A sequência das duas linhas indica que a alta do barril precedeu, em algumas semanas, a virada do combustível no mercado doméstico. O levantamento dos preços do Brent feito por esta reportagem é preliminar e segue em verificação na agência norte-americana de informação sobre energia (EIA).

Em Viracopos, o maior polo de carga aérea da América do Sul, parte do querosene abastecido nas aeronaves sai justamente da Replan. O aeroporto movimentou 70,1 mil toneladas de carga no primeiro trimestre de 2026, alta de 12,3% sobre o mesmo período de 2025. Está aí o desenho que torna o caso campineiro singular no país. A refinaria que vende o combustível mais caro fica vizinha do aeroporto de cargas que opera os voos cujo frete as fábricas da região pagam para importar componentes. Os três pontos do mapa local, conflito internacional, refinaria e aeroporto, fecham o triângulo de Paulínia.

De um lado da equação, a alta do petróleo aumenta a receita da Replan. Ela ajuda a justificar os R$ 6 bilhões anunciados pela Petrobras em investimentos para a refinaria até 2030, parte de um pacote de R$ 37 bilhões para o refino paulista. O plano inclui a primeira produção de combustível sustentável de aviação, prevista para dezembro deste ano. Do outro, as companhias aéreas repassam parte da alta ao frete cobrado das indústrias. Para elas, o combustível responde por 45% do custo operacional, segundo a ABEAR. A Azul projetou em maio um impacto de até 20% no preço das passagens.

As fábricas da região importam por via aérea o tipo de carga que não admite alternativa terrestre. Componentes elétricos e eletrônicos, produtos farmacêuticos e instrumentos de precisão, agrupados pela Nomenclatura Comum do Mercosul, a tabela que classifica as mercadorias no comércio exterior, chegam de avião porque combinam preço elevado por quilo, prazo curto, fragilidade ou exigência de controle de temperatura. Sem o transporte aéreo, o estoque seca e a linha de produção para. É essa rigidez que sustenta a movimentação de Viracopos mesmo com o frete em alta. Ela aparece na desagregação dos números do trimestre.

Das 70,1 mil toneladas movimentadas no primeiro trimestre, 21,7 mil vieram da carga nacional, o melhor resultado em dez anos. Na comparação com o mesmo trimestre de 2025, as exportações cresceram 15,3% e as remessas expressas internacionais, 30,7%. Segundo o release oficial da Aeroportos Brasil Viracopos, os setores farmacêutico, de tecnologia e metalmecânico puxaram esse crescimento. São cadeias de suprimento que não conseguem trocar o avião pelo caminhão ou pelo navio no curto prazo. Por isso seguem importando mesmo a um custo maior.

Em meio à virada de preços, persistem questões relevantes para a economia regional. A entrada da Replan na produção de combustível sustentável e a expansão de capacidade prevista no plano de investimentos podem reduzir, ao longo da próxima década, a exposição da região a choques como o atual. No curto prazo, ainda não há resposta sobre o tamanho da perda de competitividade da indústria com o frete em alta. Também não há resposta sobre eventuais ajustes nas rotas internacionais operadas em Viracopos por causa das restrições à navegação no Oriente Médio.

Nota: Procurada pela reportagem, a Petrobras (Refinaria de Paulínia) e a Aeroportos Brasil Viracopos se recusaram a comentar. A ANAC e a ABEAR não responderam aos e-mails nem ao contato telefônico. A reportagem também buscou um gestor de logística da indústria local para narrar, em primeira pessoa, o efeito da alta no custo de produção, sem retorno até o fechamento desta edição.

Créditos Foto Aeroporto Viracopos: Fernanda Sunega – Prefeitura de Campinas – Divulgação

Orientação: Profº Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves