Digitais

Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Dependência de insumos agrícolas desafia a agricultura brasileira

Por Bárbara Dário, Bárbara Marçal, Lucas Tamari e João Pedro Mariano

O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que utiliza nas lavouras, segundo dados publicados no início de 2026 pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). Com o país sendo considerado o maior exportador mundial de commodities agropecuárias e agroindustriais, com ênfase na soja, os profissionais da área se preocupam com a atual situação de limitação dos insumos agrícolas no país.

O uso intensivo de agrotóxicos na agricultura brasileira está diretamente ligado às características climáticas e ao modelo produtivo adotado no país, segundo o pesquisador da Embrapa, Robson Barizon. “O Brasil apresenta um uso elevado de agrotóxicos principalmente por características do seu modelo agrícola e do clima tropical. Diferentemente de países de clima temperado, não temos um inverno rigoroso capaz de interromper naturalmente o ciclo de muitas pragas, doenças e plantas daninhas. Isso faz com que a pressão de pragas ocorra praticamente durante todo o ano”. Além disso, o pesquisador destaca que a agricultura brasileira é bastante intensa, com muitas regiões realizando duas safras anuais e, em alguns casos, até uma terceira safra. Segundo ele, esse uso contínuo do solo aumenta a necessidade de controle fitossanitário.

Sem invernos rigorosos, pragas e doenças agrícolas permanecem ativas durante todo o ano no Brasil (Foto: Alice Pires)

O uso intensivo desses químicos levanta preocupações ambientais importantes, especialmente em relação aos impactos no solo e na água. De acordo com Barizon, a contaminação de rios, lagos e reservatórios pelo carreamento de nutrientes é um dos maiores riscos. O pesquisador também chama a atenção para as consequências na atmosfera. “Fertilizantes nitrogenados podem contribuir para a emissão de gases de efeito estufa, como o óxido nitroso, que possui elevado potencial de aquecimento global. Por isso, o grande desafio atual é aumentar a eficiência do uso dos nutrientes, produzindo mais com menores perdas ambientais”.

Segundo o engenheiro agrônomo Marlon Ricardo Alves Ortiz, mais de 70% dos insumos utilizados atualmente na produção agrícola onde atua são importados. Entre eles estão fertilizantes químicos, biofertilizantes, defensivos agrícolas e produtos biológicos. Para o especialista, apesar dos impactos ambientais e dos riscos à saúde, o uso desses produtos ainda é considerado essencial para garantir a produtividade das lavouras e o abastecimento da população. “Para o presente é uma questão de sobrevivência econômica e humana, não há nenhuma técnica alternativa de cultivo agronômico capaz de suprir 100% da demanda da cadeia de abastecimento sem a utilização de métodos tradicionais de cultivo agrícola”, afirma.

O avanço da produção agrícola no Brasil também contribuiu para o aumento da utilização de fertilizantes e defensivos nas lavouras. Nesse contexto, o engenheiro agrônomo Diego Henrique Mendes Costa explica que a agricultura brasileira ainda depende fortemente de insumos importados, principalmente fertilizantes. Segundo ele, o crescimento da produção agrícola impulsionou o consumo desses produtos, uma vez que o setor busca ampliar a produtividade sem expandir as áreas de cultivo e desmatamento. “O consumo de fertilizantes cresce continuamente, impulsionado pela expansão da produção agrícola, devido à necessidade de se produzir mais, sem expandir o desmatamento. O uso de defensivos também aumentou, com destaque para herbicidas e inseticidas, que mais que dobraram em uma década, muito devido à resistência de pragas nas lavouras”, explica.

Passo a passo do manejo integrado de pragas (gerado por inteligência artificial)

.

Efeitos dos conflitos internacionais 

Desde que começou a guerra entre Ucrânia e Rússia, a agroindústria brasileira está com dificuldades para conseguir importar os insumos necessários. De acordo com a professora de relações internacionais, Kelly Ferreira, muitos dos fertilizantes e seus componentes vêm da Rússia. Por esse motivo, parte dos insumos agrícolas estavam vindo da Arábia Saudita, “Usando o caminho que atualmente está bloqueado por consequência da guerra dos EUA contra o Irã”, diz a professora.

A especialista destaca que os efeitos desses conflitos internacionais acabam chegando ao cotidiano brasileiro, inclusive no agronegócio. Segundo ela, a necessidade de buscar novas rotas e fornecedores gera desafios que impactam diretamente a cadeia produtiva do Brasil. Ela reforça que “a Arábia Saudita tem a possibilidade de desviar algumas saídas, porém, até que ocorra essa adaptação, o Brasil também sofre o impacto. Isso atrapalha a chegada dos fertilizantes aqui. Então, por mais que pareça que a gente não está envolvido [na guerra], nós estamos, porque isso afeta a nossa cadeia de produção e principalmente a agropecuária”, afirma a especialista.

A dependência brasileira dessa importação também é apontada pelo pesquisador Robson Barizon como um dos principais desafios para a agricultura nacional. Segundo ele, os efeitos dessa vulnerabilidade ficaram evidentes nos últimos anos diante de conflitos internacionais, como a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, regiões importantes para o fornecimento desses insumos. “Esses cenários provocaram aumento significativo nos preços e geraram preocupações com possíveis problemas de abastecimento. Como os fertilizantes são essenciais para manter a alta produtividade da agricultura brasileira, qualquer redução na oferta ou aumento expressivo de custos pode impactar diretamente a produção e a competitividade das próximas safras”, explica. 

Volume dos defensivos líderes do país (gerado por inteligência artificial)

.

Alternativas sustentáveis

O avanço de alternativas mais sustentáveis para o controle de pragas tem ganhado espaço na agricultura brasileira. Segundo o pesquisador Robson Barizon, os bioinsumos estão entre as principais soluções que vêm crescendo no país. “Já existem alternativas sustentáveis que vêm crescendo rapidamente no Brasil, especialmente os bioinsumos. Esses produtos são desenvolvidos a partir de microrganismos, como fungos e bactérias, capazes de controlar pragas e doenças de forma semelhante aos agrotóxicos convencionais, mas com menor impacto ambiental”, afirma.

Barizon destaca ainda que o Brasil possui uma estrutura consolidada para a avaliação e o controle de agrotóxicos. De acordo com ele, o processo envolve o Ministério da Agricultura e Pecuária, a Anvisa e o Ibama, além de passar por constantes aprimoramentos para reduzir usos inadequados e ampliar a segurança para a população e o meio ambiente.

O pesquisador também aponta que novas formulações e tecnologias têm contribuído para tornar o manejo agrícola mais eficiente e sustentável. “Vêm sendo desenvolvidas novas formulações, tecnologias de aplicação mais precisas e equipamentos que reduzem perdas e deriva”, explica. Nesse contexto, ferramentas como agricultura de precisão e drones vêm sendo incorporadas ao campo para aumentar a eficiência no controle de pragas e minimizar impactos ambientais.

Segundo Barizon, o Brasil já é uma referência mundial no uso de bioinsumos, impulsionado pela força da agricultura tropical e pelos avanços das pesquisas na área. Para ele, há um grande potencial de expansão dessas soluções, especialmente quando associadas ao manejo integrado de pragas e a outras boas práticas agrícolas.

Ao avaliar os caminhos para reduzir a dependência externa tanto de defensivos quanto de fertilizantes, o pesquisador defende o fortalecimento de alternativas biológicas e de estratégias mais sustentáveis para a produção agrícola. “Precisamos reduzir nossa dependência tanto do mercado externo, quanto de insumos químicos sintéticos. Um dos caminhos mais promissores para isso é o desenvolvimento de soluções baseadas na natureza, como bioinsumos e biofertilizantes. Essas tecnologias utilizam microrganismos e processos biológicos para promover o controle de pragas e a nutrição das plantas, reduzindo a necessidade de produtos importados. Além disso, o fortalecimento da economia circular, com melhor aproveitamento e reciclagem de resíduos agroindustriais, pode gerar novas fontes de nutrientes e insumos para a agricultura, aumentando a sustentabilidade e a autonomia do país”, conclui Barizon.

.

Além da forte dependência internacional, especialistas alertam para os impactos na saúde, causados pelo uso intensivo de agrotóxicos, que podem atingir desde trabalhadores rurais até consumidores. Segundo o médico cirurgião oncológico pelo Hospital do Câncer de Barretos, Raphael de Oliveira e Silva, já existem estudos que apontam relação entre a exposição prolongada a determinados pesticidas e o desenvolvimento de alguns tipos de câncer.

De acordo com o especialista, os casos mais frequentemente associados à exposição a agrotóxicos são os cânceres hematológicos, como linfomas não-Hodgkin e leucemias. Além disso, pesquisas também investigam a ligação dessas substâncias com tumores de próstata e fígado. “Em algumas regiões agrícolas, observa-se aumento de casos de linfoma em populações expostas por longos períodos”, explica.

Oncologista Raphael de Oliveira e Silva destaca os riscos à saúde associados ao uso de agrotóxicos (Foto: Arquivo Pessoal)

Raphael destaca que os trabalhadores rurais são os mais vulneráveis, já que mantêm contato direto com os produtos químicos durante a aplicação nas lavouras. Ainda assim, ele alerta que a população em geral também está sujeita a riscos indiretos, principalmente por meio do consumo de alimentos e água contaminados. Embora os níveis de resíduos encontrados nos alimentos sejam considerados baixos, o médico afirma que existe preocupação com o efeito cumulativo da exposição ao longo dos anos.

O especialista explica que o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), como luvas, máscaras e roupas adequadas, reduz significativamente os riscos de intoxicação, mas não elimina completamente a exposição. Entre os sintomas mais comuns em casos de contato frequente com agrotóxicos estão dores de cabeça, tontura, náuseas e irritações na pele e nos olhos. Em situações crônicas, podem surgir alterações neurológicas e hormonais.

Outro ponto destacado por Oliveira é o caráter silencioso dos efeitos causados pela exposição contínua aos agrotóxicos. “Diferente de uma intoxicação aguda, o câncer pode surgir décadas após a exposição”, afirma. Na avaliação do médico, essa característica torna o problema ainda mais preocupante do ponto de vista da saúde pública.

O alto uso de agrotóxicos nas produções agrícolas também preocupa veganos e vegetarianos. Agatha Ferraz, estudante de 19 anos, é vegetariana há seis anos, e conta que a presença do químico nos produtos agrícolas faz diferença na hora da compra e do consumo. “Não sou grande fã de consumir coisas com agrotóxicos, principalmente pela questão da saúde. Tento sempre preferir produtos mais naturais quando a opção é viável. Mas a realidade é bem complicada, produtos orgânicos costumam ser muito mais caros, então, depende bastante do alimento e do preço no momento. Acho que alimentos sem agrotóxicos ou produzidos de forma mais sustentável deveriam ser mais acessíveis no Brasil, principalmente porque alimentação saudável não deveria ser algo restrito a quem tem uma condição financeira melhor”, considera a estudante.

Apesar dos avanços da tecnologia, das pesquisas e da legislação, equilibrar alta produtividade, rentabilidade, saúde e preservação do meio ambiente ainda parece uma realidade um pouco distante do contexto do agro brasileiro.