Benefícios oferecidos por universidades ajudam na permanência acadêmica, mas estudantes relatam dificuldades para arcar com os custos de morar próximo aos campi
Por Bianca Garutti e Marília Coimbra
O principal auxílio moradia pago pela Unicamp cobre, atualmente, entre 28% e 35% do valor médio de um aluguel em Campinas. A diferença entre o benefício estudantil e os custos praticados no mercado imobiliário evidencia os desafios enfrentados por universitários de baixa renda em uma cidade onde os preços das locações mais que dobraram nos últimos cinco anos.

Levantamento realizado pela reportagem com base em anúncios publicados nas plataformas imobiliárias QuintoAndar, ZAP Imóveis e Viva Real indica que o valor médio dos aluguéis em Campinas passou de uma faixa entre R$ 900 e R$ 1.200 em 2020 para valores entre R$ 2.100 e R$ 2.600 em 2025.
Nas regiões próximas às universidades, o preço médio do metro quadrado para locação saltou de R$ 20 a R$ 25 para valores entre R$ 50 e R$ 57 no mesmo período. Já o salário mínimo nacional teve crescimento de aproximadamente 45%, passando de R$ 1.045 para R$ 1.518.
Os números revelam um descompasso entre a evolução do custo da moradia e o crescimento da renda da população. O cenário afeta diretamente estudantes que precisam se mudar para Campinas para cursar a graduação, especialmente em Barão Geraldo, distrito que abriga o campus da Unicamp e concentra grande parte da demanda por moradia estudantil.
Na Unicamp, uma das principais ferramentas de permanência estudantil é o auxílio moradia. Atualmente, a universidade oferece a Bolsa Auxílio Moradia (BAM), no valor de R$ 725 mensais, e a Bolsa Auxílio Moradia Estúdio (BAME), de R$ 1.196 mensais, destinada a estudantes com núcleo familiar. Os valores e o número de bolsas constam da Resolução GR-001/2026, que fixa a assistência estudantil da universidade para o ano. São 2.228 Bolsas Auxílio Moradia, das quais 30 destinadas a estudantes em situação de refúgio, além de 100 Bolsas Auxílio Moradia Estúdio para estudantes com família.
Apesar da importância do benefício para garantir a permanência acadêmica, os valores pagos estão abaixo do custo médio de uma locação na cidade. Na prática, estudantes contemplados pelo auxílio precisam complementar a renda com outros benefícios, ajuda familiar ou alternativas mais baratas de moradia.
Dividir casa vira regra
Uma estudante da Unicamp que recebe auxílio moradia e preferiu não se identificar afirmou que o benefício influencia diretamente o tipo de moradia que os estudantes conseguem acessar.

“Esse valor empurra as pessoas para dividir casa com alguém. Não existe uma moradia acessível nesse valor para você morar sozinho. Quando fui procurar um lugar para morar, nem consegui sonhar com uma kitnet.”
A estudante mora em uma república estudantil e afirmou que só mantém as contas em dia porque soma o auxílio moradia a outra bolsa da universidade. O benefício de moradia, sozinho, não cobre o aluguel que ela paga.
Segundo ela, os impactos vão além da moradia e afetam outras despesas do cotidiano universitário.
“Antes de conseguir os auxílios, meus pais pagavam meu aluguel. É muito pesado ter que arcar com esse custo. Quando uma parte grande da renda vai para a moradia, sobra menos para alimentação e outras necessidades.”
O relato ilustra uma realidade comum entre estudantes que dependem das políticas de assistência para permanecer na universidade. Em muitos casos, dividir apartamentos e repúblicas deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade financeira.
Como funciona o auxílio
Na Unicamp, a assistência à moradia segue dois caminhos. O primeiro é o Programa de Moradia Estudantil (PME), que oferece vaga gratuita nas casas e nos estúdios mantidos pela universidade no campus de Barão Geraldo, sem pagamento em dinheiro. As vagas, porém, são limitadas: 226 casas, com quatro vagas cada, e 27 estúdios para famílias. O segundo caminho atende quem não consegue vaga na moradia e recebe o auxílio em dinheiro, pago todo mês. Para quem aluga sozinho, é a Bolsa Auxílio Moradia (BAM), de R$ 725. Para quem tem família, é a Bolsa Auxílio Moradia Estúdio (BAME), de R$ 1.196.

Nenhuma das duas bolsas de moradia inclui transporte ou alimentação de forma automática, e o estudante precisa pedir esses benefícios à parte. Por isso é comum que um mesmo aluno acumule mais de uma bolsa, como faz a estudante ouvida pela reportagem. A Bolsa Auxílio Social (BAS), a principal da universidade, paga R$ 904 e já vem com transporte e isenção da taxa de alimentação. É somando esses auxílios que parte dos estudantes consegue fechar a conta do mês.
Cenário na universidade privada
A reportagem também procurou a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) para obter informações atualizadas sobre os programas de auxílio moradia, incluindo os valores pagos, o número de estudantes beneficiados e os critérios de concessão. Até o fechamento desta reportagem, a universidade não respondeu aos questionamentos.
Em edital publicado em 2024, a instituição previa a concessão de auxílio moradia de aproximadamente R$ 1 mil mensais para estudantes que atendessem aos critérios socioeconômicos estabelecidos pela universidade. Sem retorno da PUC-Campinas, não foi possível verificar se o programa continua em vigor, quantos alunos são atendidos atualmente ou se houve atualização dos valores.
A ausência dessas informações impede uma comparação mais precisa entre os programas oferecidos pelas duas instituições e sua capacidade de acompanhar a alta dos custos habitacionais observada nos últimos anos.
O desafio da permanência estudantil
A discussão sobre moradia universitária está inserida em um debate mais amplo sobre permanência estudantil. Desde 2010, o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) prevê ações voltadas à redução das desigualdades sociais no ensino superior, incluindo iniciativas relacionadas à moradia, alimentação e transporte. Em julho de 2024, o governo federal sancionou a Lei 14.914, que institui a Política Nacional de Assistência Estudantil e transforma o PNAES em política de Estado, com o objetivo de garantir a permanência de estudantes de baixa renda até a conclusão dos cursos.
Em Campinas, a procura por moradia subsidiada supera a oferta. Em agosto de 2025, ao anunciar a compra de um terreno para ampliar a moradia estudantil, a Unicamp informou que cerca de 2 mil estudantes aguardavam na fila por uma vaga, enquanto o alojamento abrigava aproximadamente 1.200. Como explicou o assessor docente da Reitoria, Roberto Donato, é a esses estudantes que a universidade oferece a bolsa auxílio moradia, a quantia em dinheiro destinada a quem não consegue a vaga gratuita. A cada estudante alojado, portanto, quase outros dois esperam, e o caminho que resta a eles é o aluguel no mercado, amparado por um auxílio que cobre menos de um terço do valor médio.
O custo da moradia em torno da Unicamp não é alheio à dinâmica imobiliária de Barão Geraldo. Em audiência pública sobre o projeto de urbanização do distrito, em 2023, o professor da Unicamp e vereador Wagner Romão (PT) afirmou que a região vinha sendo alvo de especulação imobiliária e lembrou que Campinas tinha, à época, 54 mil imóveis residenciais vazios. A pressão do mercado sobre os preços ajuda a explicar por que um benefício de R$ 725 cobre tão pouco do aluguel exigido de quem precisa morar perto do campus.
Para a estudante entrevistada pela reportagem, o auxílio continua sendo fundamental para seguir na graduação. Ela afirmou, porém, que o benefício, por si só, não garante autonomia na escolha da moradia: enquanto o valor da bolsa não alcança o custo de uma kitnet na cidade, a solução foi a república, e com ela a dependência de outros auxílios para fechar a conta do mês.














