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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Festivais de fatias ampliam renda de confeiteiras, mas exigem jornadas exaustivas 

Impulsionado pelas redes sociais, o modelo amplia a geração de renda e a formalização de confeiteiras da região. Os desafios ligados à sazonalidade e à carga de trabalho, porém, seguem sem resposta definitiva

Por Beatriz Stevanatto e Letícia Borges 

Antes que o movimento comece na calçada, Paula Blumer já está trabalhando. Na cozinha de casa, onde também cuida da família, ela organiza massas, recheios e a preparação dos bolos que serão vendidos no festival de fatias. Horas depois, as senhas se esgotam e os clientes formam fila em busca dos produtos divulgados pelas redes sociais.

A cena se repete em dezenas de cozinhas da região de Campinas: filmada, postada e transformada em vitrine. É o que ganhou o nome de “festival de fatias”, modelo de venda que se espalhou pelas redes sociais e passou a sustentar pequenas confeiteiras. A internet serve ao mesmo tempo de loja, balcão e palco.

A rotina de Paula resume a promessa e o preço do modelo. A mesma casa que abriga o negócio cobra dela uma jornada sem hora para terminar. É nessa fronteira, entre a renda que cresce e o trabalho que se acumula, que se decide se o festival de fatias representa uma oportunidade de crescimento ou apenas uma nova forma de trabalhar muito para manter as contas em dia.

A tendência acompanha o crescimento do microempreendedorismo no país. Os microempreendedores individuais (MEI), categoria que permite a trabalhadores por conta própria se formalizarem com custo reduzido e teto de faturamento de R$ 81 mil por ano, responderam por 75,8% das novas empresas abertas no primeiro quadrimestre de 2025, segundo o Mapa de Empresas do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Na região administrativa de Campinas, há atualmente 19.841 MEIs cadastrados em atividades de confeitaria e salgaderia, segundo dados fornecidos pelo Sebrae-SP à reportagem.

Grande parte desses negócios funciona a partir da própria residência, com produção artesanal e divulgação concentrada no Instagram, TikTok e WhatsApp. Para muitas confeiteiras, o modelo das fatias surgiu como alternativa para aumentar a renda, reduzir custos de produção e acelerar o retorno financeiro.

Clientes acompanham a venda de bolos no festival de fatias da Dona Nena Bolo  (Foto: Arquivo Pessoal)

Há nove anos na confeitaria, Paula Blumer, de 44 anos, proprietária da Dona Nena Bolo em Fatias, em Campinas, trabalhava anteriormente com bolos personalizados em pasta americana, técnica de decoração artesanal que exige encomenda com dias de antecedência. Segundo ela, a maternidade tornou o antigo modelo incompatível com a rotina da família. “Depois que me tornei mãe, tudo ficou mais difícil para continuar nesse ramo dos personalizados”, afirmou.

Paula contou que decidiu apostar na venda de fatias após perceber o crescimento da tendência nas redes sociais. Hoje trabalha entre oito e dez horas por dia ao lado da mãe, Magali. Disse que nunca teve tanto retorno financeiro e visibilidade quanto agora. Apesar disso, relatou que a rotina dentro de casa se mistura constantemente ao trabalho. “Trabalhar em casa é extremamente dificultoso [sic], pois a rotina da casa, família e filhos me acompanham o tempo todo.”

A confeiteira Paula Blumer durante a preparação dos bolos produzidos em Campinas (Foto: Arquivo Pessoal) 

A realidade se repetiu em outros relatos. A confeiteira Ediane Moitinho, de 38 anos, de Monte Mor, afirmou que conheceu o modelo por meio de vídeos publicados no TikTok sobre festivais realizados em Goiânia. Depois de perceber o interesse dos clientes, decidiu investir no formato.

Segundo ela, o crescimento da confeitaria trouxe retorno financeiro e ampliação da clientela, mas também aumentou a pressão da rotina. “Inclusive no passado eu parei umas três vezes por não aguentar a pressão, sendo dona de casa, mãe de três filhos e esposa”, relatou.

Inspirada por conteúdos nas redes sociais, Ediane Moitinho passou a investir nos festivais de fatias (Foto: Arquivo Pessoal)

Além da produção dos doces, Ediane disse que há uma cobrança constante para manter presença nas redes sociais, publicar conteúdos e acompanhar tendências digitais. Para ela, as plataformas funcionam como principal vitrine do negócio, mas também ampliam comparações e cobranças estéticas entre confeiteiras.

Débora Cristina Dias Dutra, de 44 anos, proprietária da Debbycake Confeitaria Artesanal, no Jardim Eulina, em Campinas, contou que decidiu investir nos festivais de fatias em um momento de dificuldades financeiras, marcado pela queda no faturamento e pelo acúmulo de contas. Segundo ela, a principal vantagem do modelo é a rapidez no retorno financeiro: as vendas costumam ser feitas à vista e encerradas em poucas horas. “Você vende e já recebe. Produz em dois dias e vende em três horas”, afirmou.

A produção artesanal de recheios faz parte da rotina da Debbycake Confeitaria Artesanal (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao mesmo tempo, relatou jornadas exaustivas durante os períodos de produção. Em um dos festivais deste ano, trabalhou da manhã de quinta-feira até a madrugada, retomou a produção poucas horas depois e seguiu até o encerramento das vendas no sábado. Apenas após a melhora do faturamento foi possível contratar uma ajudante.

Os relatos das confeiteiras refletem um cenário observado pelo Sebrae-SP. Segundo a analista de negócios Estela Juvenal, a baixa barreira de entrada da confeitaria artesanal facilita o surgimento de novos negócios, mas também pode gerar precarização do trabalho. “É comum que confeiteiras trabalhem de 12 a 16 horas por dia, muitas vezes acumulando o trabalho na empresa e as tarefas domésticas”, afirmou.

A especialista também disse que muitas empreendedoras enfrentam dificuldades na precificação dos produtos e acabam desconsiderando custos importantes: energia elétrica, gás, embalagem e o valor da própria mão de obra. Sem contabilizar esses itens, o lucro aparente pode ocultar um negócio no prejuízo.

A experiência de Paula ilustra essa realidade. Atualmente, ela calcula o valor de cada fatia considerando insumos, embalagens, mão de obra, gás, energia elétrica, água e margem de lucro. No início da atividade, porém, não dominava esse processo. “Não chegou a me dar prejuízo, mas não tinha lucro nenhum e nem mesmo salário”, relatou.

Outro problema apontado pelo Sebrae é a chamada guerra de preços: como qualquer pessoa com forno e redes sociais pode começar a vender fatias, o mercado se satura rapidamente. Confeiteiras sem diferencial de produto ou de público passam a baixar os valores para disputar os mesmos clientes, comprimindo ainda mais a margem de lucro.

Ao mesmo tempo, a formalização tem crescido no setor. As entrevistadas afirmaram possuir registro formal e contribuir para a Previdência Social. Segundo o Sebrae, a formalização garante acesso a direitos como auxílio-doença e salário-maternidade, além de facilitar a profissionalização do negócio.

As entrevistadas representam diferentes estágios dessa trajetória. Paula atua como MEI, com obrigações contábeis simplificadas e taxa mensal fixa de impostos. Já Ediane está enquadrada no Simples Nacional: ao crescer, a empreendedora passa a ter obrigações contábeis mais complexas, precisa de contador e recolhe impostos proporcionais ao faturamento, em vez da taxa fixa. A diferença não é apenas burocrática, é também financeira. Quem cresce no setor tende a deixar o MEI e migrar para o Simples Nacional, e os dois enquadramentos mostram as confeiteiras em pontos distintos do mesmo caminho.

Para Daniel Morelli, professor do curso de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, as plataformas digitais alteraram a lógica tradicional do trabalho informal ao ampliar as possibilidades de geração de renda. Segundo ele, redes sociais como Instagram e TikTok permitem que trabalhadores encontrem novos consumidores com facilidade e montem pequenos negócios sem grandes investimentos iniciais. O economista também observou que as mesmas plataformas podem incentivar jornadas excessivas: para manter alcance e visibilidade, os empreendedores precisam produzir conteúdo de forma constante. “Há casos de empreendedores que tiveram perda de renda devido à falta de experiência em planejamento e gestão”, disse.

Tanto Morelli quanto Estela Juvenal apontam o mesmo mecanismo pelo caminho oposto: a facilidade de entrar no setor não garante que o negócio se sustente. A analista do Sebrae destaca a precarização do trabalho; o economista, a fragilidade financeira. O resultado, nos dois casos, é uma empreendedora que trabalha mais do que imaginou e ganha menos do que parece.

Apesar dos desafios, o setor continua em expansão. Segundo dados da Statista Market Insights, o mercado brasileiro de confeitaria tem previsão de crescimento anual de 3,97% até 2029, impulsionado pela valorização de produtos artesanais e personalizados.

A capacidade de atravessar os meses de menor movimento, porém, varia de negócio para negócio. Os relatos divergem no calendário, mas convergem no diagnóstico: a demanda por doces artesanais é sensível a períodos de gasto intenso ou de calor, e cada confeiteira enfrenta seu próprio ciclo de baixa conforme o perfil do público e a localização. Débora aponta junho, julho, agosto e setembro como os meses mais difíceis. Paula vê julho e dezembro como os de menor faturamento, por causa das férias e das viagens das famílias. Já Ediane sofre mais nos primeiros meses do ano, quando o calor e os gastos acumulados depois das festas reduzem a procura.

Para enfrentar esses períodos, as três apostam em adaptações: produtos sazonais, novidades no cardápio e ajustes de preço. O festival de fatias, dizem, ajuda a recuperar o fôlego financeiro justamente porque o dinheiro entra rápido. “Por ser uma venda rápida e de giro rápido, o dinheiro entra e em uma quantidade legal que dá para respirar”, disse Débora.

Bolos e fatias produzidos pela confeiteira Ediane Moitinho. O modelo dos “festivais de fatias” se popularizou nas redes sociais  (Foto: Arquivo Pessoal)

A resposta do público ajuda a explicar por que tantas confeiteiras continuam apostando no modelo. Débora lembrou de um dos momentos mais marcantes desde que começou a vender fatias: durante um festival, clientes vieram de diferentes cidades e formaram fila. Entre eles, uma criança se aproximou do balcão e pediu apenas um morango. “Nessa hora eu desabei”, contou.

A cena resume o que mantém muitas confeiteiras no negócio, mesmo diante das longas jornadas: a combinação de esforço, incerteza e, de vez em quando, um retorno que não tem preço.

Orientação: Profº Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves