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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Ondas de calor e novos sorotipos explicam recorde de dengue em Campinas

Epidemia expõe os impactos das mudanças climáticas, os desafios da vacinação e a importância do combate aos criadouros

Por: Guilherme Rodrigues e Valentina Sclauser

Campinas viveu, em 2024, a maior epidemia de dengue de sua história. Foram 121.241 casos confirmados e 90 mortes, números superiores aos registrados em anos anteriores e que colocaram o município no centro da crise enfrentada por diversas cidades brasileiras. Embora 2025 tenha apresentado redução, com cerca de 45,4 mil casos e 27 mortes, os números ainda permanecem acima da média histórica do município.

Especialistas e autoridades apontam uma combinação de fatores para explicar o cenário: a circulação simultânea de diferentes sorotipos do vírus, condições climáticas favoráveis à proliferação do mosquito e uma população amplamente suscetível à infecção. Os dados mostram a dimensão do avanço da doença. Em 2023, Campinas registrou 11.476 casos e duas mortes. Em apenas um ano, o número de infecções aumentou mais de dez vezes. 

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, dois fatores foram determinantes para a explosão de casos em 2024, a circulação simultânea de três sorotipos do vírus da dengue e as sucessivas ondas de calor registradas ao longo do período.

A imunidade contra a dengue é específica para cada sorotipo. Isso significa que uma pessoa que já teve a doença pode continuar vulnerável a outros tipos do vírus. De acordo com a pasta, o retorno do sorotipo DENV-3 após um intervalo de aproximadamente 14 anos encontrou uma parcela significativa da população sem proteção, especialmente crianças e adolescentes de até 14 anos, que nunca haviam tido contato com esse sorotipo.

Para o médico sanitarista Sérgio Zanetta, a epidemia foi resultado da combinação de três elementos: a presença do mosquito transmissor, a circulação intensa do vírus e um grande contingente de pessoas suscetíveis à infecção. “Havia vetor, havia circulação viral e havia muitas pessoas que nunca tinham tido contato com aquele sorotipo da dengue. Essa combinação favoreceu a grande explosão de casos observada em 2024”, explica.

Quem sentiu na pele a forma como a doença se manifesta no corpo foi o engenheiro eletricista, Ademar Junior. O homem de 48 anos contraiu dengue em 2025 e lembra quando sentiu os primeiros sintomas. “Em uma palestra que estava assistindo, comecei a não me sentir muito bem, com dores no corpo e calafrios.. Não via a hora de acabar o evento e eu voltar para casa, porque estava me sentindo muito mal”, relata Junior.

Mudanças climáticas e transmissão

Outro fator apontado por especialistas foi o impacto das mudanças climáticas sobre o ciclo de reprodução do Aedes aegypti. O aumento das temperaturas e a alteração dos regimes de chuva criaram condições ideais para a multiplicação do mosquito. Segundo Zanetta, houve uma antecipação do período de reprodução do vetor ainda no final de 2023, prolongando o tempo de circulação da dengue. “O calor intenso e as chuvas favoreceram os criadouros e aceleraram o ciclo reprodutivo do mosquito. O que normalmente ocorria mais para o meio do verão começou a acontecer antes, ampliando o período de transmissão”, afirma.

A avaliação é compartilhada pela Secretaria de Saúde, que destaca as ondas de calor como um dos principais fatores para a proliferação do vetor no município. 

Além disso, segundo Maria Clara Sassaki, porta-voz da empresa meteorológica Tempo Ok, o alerta não é só para a região de Campinas, mas para o país. Isso porquê algumas áreas do Brasil foram mais atingidas pelos mosquitos devido às mudanças climáticas previstas para os próximos anos. “E essas doenças podem aumentar não só em áreas tropicais, mas também em latitudes mais altas, como é o caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, que pode ter temperaturas acima da média e condições de chuva. Essa condição se mantem para incidência de doenças transmitidas por mosquitos”, diz.

Gráfico produzido pela Prefeitura Municipal de Campinas mostra os sintoms da dengue

Rede de saúde precisou ser reforçada

A epidemia também provocou forte pressão sobre o sistema público de saúde. Para enfrentar a demanda, a Rede Mário Gatti reorganizou os atendimentos nas unidades de pronto atendimento. O corpo clínico foi distribuído entre os hospitais Mário Gatti, Ouro Verde e Mário Gattinho, além das UPAs Carlos Lourenço, Campo Grande, Padre Anchieta e São José.

A Prefeitura também manteve centros de saúde abertos aos finais de semana e ampliou a vacinação. Segundo Zanetta, surtos dessa magnitude costumam sobrecarregar principalmente os serviços de emergência, mas podem ser enfrentados com planejamento adequado da atenção básica. “A identificação precoce dos casos, a hidratação rápida dos pacientes e o monitoramento de sinais de agravamento ajudam a evitar formas graves da doença e reduzem a pressão sobre os hospitais”, destaca.

Combate ao mosquito ainda depende da população

Durante o período mais crítico da epidemia, a Prefeitura realizou mais de 1,7 milhão de visitas a imóveis para controle de criadouros, promoveu 21 mutirões e retirou cerca de 98,5 mil toneladas de resíduos em ações de limpeza.

Apesar dos esforços, o principal desafio continua dentro das residências. Levantamentos da Secretaria Estadual da Saúde indicam que aproximadamente 80% dos criadouros estão em ambientes domésticos. Pratos de vasos de plantas, recipientes expostos à chuva, caixas d’água mal vedadas, calhas e ralos sem manutenção continuam entre os locais mais comuns para a reprodução do mosquito. “O combate ao vetor depende de uma participação permanente da população. Não basta agir apenas durante os períodos de epidemia. É necessário transformar a eliminação dos criadouros em um hábito contínuo”, alerta o sanitarista.

Vacinação surge como esperança para os próximos anos

A vacinação é apontada como uma das principais estratégias para reduzir o impacto da dengue nos próximos anos. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, Campinas aplicou mais de 63 mil doses da vacina contra a dengue em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos desde o início da campanha, em abril de 2024.

Embora especialistas considerem que a baixa cobertura vacinal tenha contribuído para a vulnerabilidade da população, não é possível afirmar que ela tenha sido a principal causa da epidemia. A combinação entre suscetibilidade da população, circulação viral e condições climáticas extremas teve papel decisivo no aumento dos casos.

Para Zanetta, a ampliação da vacinação pode reduzir significativamente a ocorrência de surtos de grande magnitude. “Se conseguimos impedir que as pessoas adoeçam, reduzimos também a circulação do vírus. Com menos pessoas infectadas, menos mosquitos se contaminam e, consequentemente, diminui a transmissão da doença”, explica.

Cenário atual é mais favorável, mas exige vigilância

Em 2026, Campinas registra números muito inferiores aos observados durante a epidemia histórica de 2024. Além da sazonalidade do inverno, que reduz naturalmente a reprodução do mosquito, especialistas apontam o avanço da vacinação e as ações de controle como fatores positivos.

Ainda assim, o alerta permanece. As mudanças climáticas, o crescimento urbano e a permanência do mosquito nas cidades mantêm o risco de novos surtos. Para evitar uma nova explosão de casos, autoridades e especialistas defendem uma combinação de medidas, com a ampliação da cobertura vacinal, fortalecimento da atenção básica, melhorias na limpeza urbana e participação ativa da população na eliminação dos criadouros. “O inverno é justamente o momento de preparação. Precisamos vacinar, eliminar focos e reforçar a vigilância para enfrentar os meses mais quentes do ano”, conclui Zanetta.

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Gabriel Rosa