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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Pedestres representam 31% das mortes no trânsito de Campinas

O mês de maio é tradicionalmente marcado pelo movimento internacional Maio Amarelo, que visa preservar a vida no trânsito, através de ações coordenadas entre poder público e sociedade civil. O lema deste ano foi “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. Tema que na Região Metropolitana de Campinas, tem grande relevância já que os pedestres continuam ocupando o segundo lugar entre as vítimas fatais da violência no trânsito. 

Dados consolidados do boletim de mortalidade de Campinas, fornecido pela assessoria de imprensa da Emdec, revelam que 142 pessoas perderam a vida no trânsito de Campinas em 2025. Embora tenha ocorrido uma redução de mortes entre ocupantes de demais veículos, o índice de letalidade entre pedestres apresentou uma estagnação preocupante. 

Enquanto a tecnologia e a fiscalização avançam, o debate se volta para o conceito de “Cidades para Pessoas” e a necessidade de superar um modelo urbano hostil para quem circula a pé, representando 31,7% das vítimas fatais no município.

Segundo boletim da Emdec, o perfil das vítimas de atropelamentos fatais em Campinas revela que a maioria era do sexo masculino, com faixa etária entre 30 e 39 anos. Os atropelamentos se concentram principalmente em avenidas de grande fluxo, como a John Boyd Dunlop e a Amoreiras, onde muitos acidentes acontecem a poucos metros de faixas de pedestres ou passarelas.

A gravidade do problema é amplificada pelos impactos na rede municipal de saúde. Segundo dados fornecidos no evento “Trânsito como uma questão de saúde pública”, realizado pela Emdec, a média de mortalidade na cidade é alarmante: um pedestre morre a cada 9 dias, um motociclista a cada 5 dias e um ocupante de veículo a cada 12 dias.

Essa demanda gera uma pressão significativa na ocupação de leitos de UTI e no consumo de insumos hospitalares. O tratamento de vítimas de trauma consome uma quantidade desproporcional de bolsas de sangue, insumos cirúrgicos e tempo de equipes multidisciplinares. 

Além disso, o tratamento de traumas graves exige materiais de alto custo, como próteses e pinos, e mobiliza simultaneamente equipes de neurocirurgia, ortopedia e anestesiologia. Essa demanda impacta diretamente a quantidade de leitos, uma vez que mais da metade das vagas de UTI nos principais hospitais públicos acabam ocupadas por vítimas de sinistros de trânsito, gerando um custo social e financeiro que sobrecarrega o SUS.

Além dos óbitos e das internações, a saúde pública também enfrenta o desafio da reabilitação.

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Monise da Conceição Santos, que circula diariamente pela Av. John Boyd, destaca a falta de passarelas na avenida (Foto: André Casarin)

Para quem depende diariamente das vias de Campinas, a estatística ganha rosto e voz. Monise da Conceição Santos, auxiliar de limpeza, descreve a travessia na avenida John Boyd Dunlop como um “sufoco” constante. “Todos os lugares são perigosos na avenida. Colocaram um semáforo, mas quase nenhum tem uma passarela”, relata Monise. Ela destaca que ainda é necessário caminhar longas distâncias para encontrar travessias seguras. “O fluxo de carros nas vias é muito grande e falta aos motoristas a capacidade de mudar seu comportamento”, desabafa a auxiliar, reforçando a sensação de insegurança que impacta seu dia a dia.

Francisco Pereira Silva, vigilante, que também transita pela região, destaca a falta de civilidade. “A gente percebe que o pedestre é sempre o último a ser lembrado. O motorista não tem paciência de esperar a gente concluir a travessia, mesmo quando o sinal ainda está favorável para nós. É uma briga desigual entre quem está a pé e quem está no volante”, disse o vigilante.

A Emdec ressalta que a Avenida John Boyd Dunlop vem apresentando uma redução contínua de mortes, saindo de 13 óbitos em 2021 para 4 em 2025. Para 2026, a autarquia adotou novos critérios de contabilização de vítimas — até 30 dias após o sinistro — para alinhar-se aos padrões da OMS e do Infosiga-SP. Entre as ações implementadas pela prefeitura para coibir condutas de risco e proteger o pedestre, destacam-se ações de tecnologia, infraestrutura, fiscalização e educação, que têm sido adotadas para ampliar a segurança no trânsito. Entre as medidas implementadas estão a instalação de equipamentos para controle de velocidade e avanço semafórico, além da manutenção da sinalização de solo, criação de mais de 300 rampas de acessibilidade e implantação de novos semáforos inteligentes. Na área de fiscalização e conscientização, também foram realizadas blitzes integradas e ações educativas que, somente em 2025, impactaram mais de 50 mil pessoas.

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Segundo o arquiteto e urbanista Gustavo Pires de Andrade, esse cenário é reflexo de cidades projetadas sob uma lógica “rodoviarista”, focada no fluxo rápido de veículos. Gustavo explica que projetos com vias largas, grandes percursos e elementos como viadutos incentivam os motoristas a dirigirem mais rápido, o que resulta em um menor tempo de reação e visibilidade. “O desenho urbano herdado contribui para os altos índices de atropelamentos ao priorizar a mobilidade viária em detrimento da segurança de quem caminha”, afirma.

Para garantir um trânsito mais pacífico e seguro sem depender exclusivamente da fiscalização, Gustavo avalia que Campinas deve adotar intervenções que incentivem o uso prazeroso dos espaços públicos. Ele destaca a necessidade de calçadas largas, arborizadas, iluminadas e acessíveis, integrando trechos para caminhada, ciclofaixas e acesso ao transporte coletivo.

O urbanista sugere ainda, o uso de prédios com “fachadas ativas”, que despertam o interesse pelo caminhar, e a criação de praças e jardins ao longo dos percursos. De acordo com o especialista, edificações com visão para a rua e alturas diversificadas aumentam a segurança, pois permitem que pedestres e moradores compartilhem a visão interna e externa do espaço.

Apesar dos esforços, os fatores de risco como excesso de velocidade, pressa ou imprudência, consumo de álcool e uso de celular continuam sendo determinantes para o elevado número de mortes no trânsito. O desafio agora é unir a fiscalização tecnológica a um planejamento urbano que realmente proteja o pedestre em avenidas de alto fluxo.