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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Centro de Campinas registra queda nos crimes, sem eliminar sensação de insegurança

Dados oficiais de 2026 indicam redução nos registros de criminalidade, mas moradores e comerciantes relatam medo da área central

Por Henrique Vieira e Isadora de Castro Amancio

Imóveis vazios, ruas pouco movimentadas em determinados horários e a repercussão de casos violentos continuam alimentando a sensação de insegurança no Centro de Campinas. O cenário contrasta com os dados da Prefeitura, que apontam queda nos índices de roubos e furtos nos primeiros meses de 2026.

Segundo dados de criminalidade encaminhados pela assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Campinas, os roubos na região central caíram 27% entre janeiro e fevereiro de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, passando de 172 para 125 registros. Os furtos também apresentaram redução de 15%, de 485 para 412 ocorrências. De acordo com a administração municipal, o resultado está relacionado ao fortalecimento das ações de segurança pública, especialmente por meio do programa Centro Mais Seguro, lançado em outubro de 2023 pela Guarda Municipal.

O programa foi criado para intensificar o patrulhamento e direcionar operações para áreas com maior incidência de ocorrências, conhecidas pelas forças de segurança como “pontos quentes”. A iniciativa atua de forma integrada entre Guarda Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil e outros órgãos municipais, como a Secretaria de Transportes e a Setec. Além do reforço do policiamento a pé e motorizado, as equipes passaram a atuar no combate à receptação de materiais furtados, especialmente fios de cobre e alumínio, crimes que afetam frequentemente o comércio, a iluminação pública e a infraestrutura urbana da região central.

Segundo a comandante Lourdes Soares, da Guarda Municipal de Campinas, a estratégia foi construída a partir da análise de estatísticas criminais e das demandas relatadas pela população. “A queda dos números tem participação direta da Guarda Municipal, com o programa Centro Mais Seguro, que trouxe ações pontuais baseadas em estatísticas e demandas da população, aumentando o efetivo no Centro e priorizando áreas com maior incidência de ocorrências”, afirmou.

Nos primeiros meses de funcionamento, o programa registrou 104 prisões e mais de 3,6 mil ocorrências atendidas. As operações também resultaram na apreensão de 3,3 quilos de drogas, R$ 4,4 mil em dinheiro, duas armas de fogo, 383 quilos de fios recuperados e 13 veículos localizados, segundo balanço divulgado pela Prefeitura de Campinas. Além das operações presenciais, Campinas ampliou o investimento em monitoramento e tecnologia. Atualmente, cerca de três mil câmeras estão integradas ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), responsável pelo acompanhamento em tempo real das ocorrências e pela articulação entre os órgãos de segurança pública. Em março de 2025, a Prefeitura também anunciou a criação do Centro de Inteligência Metropolitana (CIM), projeto voltado para integração regional de dados e ações de segurança entre municípios da Região Metropolitana de Campinas.

Apesar da redução nos índices oficiais, a percepção de insegurança ainda permanece entre moradores, comerciantes e trabalhadores que circulam diariamente pelo Centro de Campinas. Casos recentes de violência e vídeos compartilhados nas redes sociais continuam influenciando a forma como parte da população percebe a segurança na região central. Segundo a comandante Lourdes, episódios violentos de grande repercussão acabam causando um impacto maior na percepção da população do que os próprios dados estatísticos. “O número é um dado frio. Muitas vezes, um vídeo de uma ocorrência violenta viraliza e causa mais impacto na população do que a divulgação da redução dos índices”, explicou.

A comandante também destacou que a presença de pessoas em situação de rua no Centro costuma ser associada à insegurança, embora nem sempre exista relação direta com ocorrências criminais. “Muitas vezes a pessoa relata medo apenas porque passou por uma rua onde havia grupos em situação de rua, mesmo sem ter sofrido ameaça ou qualquer outro fator”, afirma. Dados do serviço 156 da Prefeitura Municipal de Campinas mostram que as denúncias envolvendo imóveis abandonados aumentaram significativamente nos últimos anos. Em 2024, foram registradas 62 reclamações. Já em 2025, o número saltou para 146 ocorrências, um aumento de 135,48%. Entre janeiro e março de 2026, a Prefeitura contabilizou outras 66 denúncias relacionadas ao abandono urbano e 31 casos envolvendo riscos de dengue. A presença de imóveis vazios, fachadas deterioradas e ruas pouco movimentadas em determinados horários aparece entre os fatores apontados pela população como responsáveis pela sensação de insegurança na região central da cidade.

Além do abandono urbano, a presença de pessoas em situação de rua se tornou uma das questões mais visíveis no cotidiano do Centro de Campinas. Atualmente, é comum encontrar moradores ocupando calçadas, praças, marquises e entradas de estabelecimentos comerciais em diferentes pontos da região central, onde muitos dormem ou permanecem ao longo do dia. Em períodos de frio, essa concentração costuma aumentar ainda mais, principalmente em áreas próximas ao comércio. A situação tem gerado preocupação entre comerciantes e moradores e passou a ser associada, por parte da população, à sensação de insegurança e vulnerabilidade no Centro, mesmo sem relação direta com ocorrências criminais na maior parte dos casos.

Guarda Municipal atende ocorrência de assalto na região central de Campinas por volta das 23h
(Foto: Isadora Amancio)

De acordo com a moradora Luciana Dias Ramos, a presença de pessoas em situação de rua faz parte da rotina de quem vive próximo ao Centro. Ela afirma que, no trajeto diário entre sua casa e o trabalho, encontra frequentemente moradores de rua circulando pelas vias da região central. Apesar disso, Luciana relata nunca ter sofrido ameaças ou situações de violência. “Eles já são conhecidos na região, acabam se fazendo conhecidos. Eu nunca passei por nenhuma situação de maldade com eles”, contou.

A moradora, no entanto, afirma que sente falta de policiamento em áreas residenciais próximas ao Centro. Para ela, a presença das forças de segurança está concentrada principalmente em ruas comerciais e pontos de maior circulação. “Se acontecesse alguma situação de insegurança, eu não vejo policiamento perto de onde moro. O policiamento fica mais focado nas áreas comerciais e nas ruas principais”, afirmou.

Beco na região central de Campinas, área de circulação frequente de moradores e comerciantes da cidade (Foto: Henrique Vieira)

O cenário vivido no Centro de Campinas mostra que a percepção de segurança vai além da redução dos índices criminais. Embora os dados oficiais apontem melhora nos números e o poder público amplie operações, tecnologia e integração entre forças de segurança, moradores e comerciantes ainda convivem com o medo, a sensação de vulnerabilidade e os impactos do abandono urbano. A discussão evidencia que segurança pública não depende apenas da diminuição das ocorrências, mas também da forma como a população ocupa, percebe e vivencia os espaços da cidade.

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Murilo Sacardi