Estimativa aponta que um colecionador precisará abrir 1.043 pacotes para completar a coleção, sem considerar trocas
Por Ana Elisa Desiderá e Letícia Bordinhon
Com a aproximação da abertura da Copa do Mundo, amanhã, dia 11 de junho, o ritual de colecionar o álbum da copa e trocar figurinhas volta a ocupar o imaginário dos brasileiros. Neste ano, porém, completar o álbum deve exigir um investimento de cerca de R$ 7 mil por torcedor. A pedido da redação do Digitais, o matemático e pós-doutorando em Estatística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Denis Araújo Luiz, estimou quanto um colecionador gastaria para completar o álbum desta edição do torneio.
O cálculo considera que um colecionador precisaria abrir 1.043 pacotes para completar a coleção. Na simulação feita pelo matemático que tem 99,78%, o custo mínimo, considerando as repetições de figurinhas, ficou próximo de R$ 3.572, enquanto o máximo ultrapassou R$ 11 mil. O matemático indica que “à medida que o álbum enche, a chance de sucesso cai. Para conseguir a última figurinha, a probabilidade é de apenas 1 em 980”.
O custo atual da coleção reflete uma escalada nos preços ao longo das últimas cinco edições do torneio. Em 2010, na África do Sul, o investimento médio para preencher os 640 espaços do álbum era de R$ 677,87. Naquela época, o pacote com cinco figurinhas custava R$ 0,70.

Na Copa do Mundo realizada no Brasil, em 2014, o custo médio subiu para R$ 904,53, com o pacote passando a custar R$ 1. Em 2018, o álbum cresceu para 682 figurinhas e o preço do pacote dobrou para R$ 2. O resultado foi um custo médio de R$ 1.940,70 para o colecionador.

A edição passada do torneio, que ocorreu no Catar em 2024, já havia dado sinais de elitização. Com 750 figurinhas e pacotes a R$ 4, o valor médio para completar a coleção saltou para R$ 4.320,84.
Denis Araújo observa que, embora o número de figurinhas por pacote tenha aumentado para sete em 2026, o total de cromos necessários chegou a 980, o que anula qualquer percepção de economia. “O que conta mesmo é o valor médio, o preço que eu vou gastar para completar o álbum”, explica o matemático. Segundo ele, o aumento no número de figurinhas garante maior arrecadação à fabricante, mesmo que o valor individual de cada cromo pareça estável.
Colecionar ainda cabe no orçamento?
O valor estimado para o álbum em 2026 supera a inflação brasileira acumulada entre o lançamento da versão de 2022 e a deste ano. Levando em consideração apenas a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o custo médio para completar o álbum cresceu 48,04% acima da inflação do período. O índice variou cerca de 21,4% entre março de 2022 e março de 2026.
O economista e professor da PUC-Campinas, Luiz Felipe Portelinha, reforça que o álbum é um produto que foge à lógica dos itens básicos de consumo. Segundo o especialista, o valor da coleção hoje carrega componentes como nostalgia e tendência do momento, o que permite que o custo final se descole da realidade financeira de boa parte da população.
Para ilustrar, basta observar o esforço necessário para completar a coleção em relação ao salário-mínimo vigente em cada ano. Em 2010, completar o álbum da Copa representava 132,9% do salário-mínimo da época. Em 2026, são necessários mais de 5 salários-mínimos, 451,7% desse valor, ou seja, R$ 7.321,45.

Muito além das figurinhas…
A lógica de mercado por trás da Copa do Mundo transforma o evento em uma “fábrica de subprodutos”. O economista explica que a Copa do Mundo é responsável pela criação de mercados que vão desde a audiência na TV até o consumo de itens relacionados ao torneio.
Portelinha aponta que as empresas aproveitam o intervalo de quatro anos entre as Copas para extrair o máximo de valor do torcedor. “O evento esportivo é o produto principal, mas ele gera vários subprodutos que vão gerando outros mercados”. Ele relembra do evento para a convocação desse ano, realizado no Rio de Janeiro (RJ), que contou com shows, influenciadores e cobertura da imprensa internacional.
Essa lógica se manifesta na Banca do Alemão, em Campinas (SP). O proprietário Denilson Falsarella, que representa a terceira geração de banqueiros da família, confirma essa pulverização do consumo. O comerciante ressalta que a variedade de produtos relacionados à Copa nunca foi tão grande quanto em 2026. “Esse ano estamos vendendo até caixinhas feitas em impressora 3D, chaveirinhos que são réplicas do troféu da copa e outras coisas”.
Com 82 anos, o economista aposentado Braz Goulart, guarda na memória um tempo em que colecionar figurinhas custava menos. Nascido em Dourado (SP) em 1943, Braz tinha seis anos quando o Brasil sediou sua primeira Copa, em 1950. Ele não colecionou o álbum daquele ano por falta de recursos, mas recorda que a paixão nasceu ali, “dando uma olhadinha” nos álbuns de garotos mais abastados quando sobravam figurinhas.
Em seu livro “O Apito do Trem”, publicado em 2021, Braz compartilha momentos marcantes de sua vida. Ele separou um capítulo especialmente para compartilhar de sua paixão por álbuns de figurinhas. No livro, recorda que na época de Copa do Mundo, o Bar da Estação, em Trabiju (SP), recebia um movimento enorme para a compra de álbuns e figurinhas, que na época vinham enrolados em balas. “A figurinha vinha envolvendo a bala, tinha um papelzinho para não sujar. A gente tirava com cuidado, com carinho para não rasgar”.
Braz atravessou as décadas colecionando figurinhas, inclusive no álbum de 1958, ano do primeiro título mundial do Brasil, quando já morava em Campinas (SP). O senhor vê no ato de abrir os pacotinhos uma forma de manter viva a “alma” do futebol que conheceu aos seis anos.

Ele mantém a tradição viva através dos netos, Ian e Luiz Felipe. Desde 2009, ele completa as edições para presenteá-los, chegando a esconder “calhamaços” de figurinhas da esposa, Lídia, para evitar broncas pelo gasto excessivo. “Mesmo sendo caro, dá vontade de fazer, por ter esse momento com meus netos”.
Apesar da paixão pelo colecionismo, para ele, o valor do álbum em 2026, que pode chegar a R$ 11 mil para os mais azarados, é uma afronta à origem popular do esporte. Nesse ano, Braz e família estão fazendo apenas um álbum, estratégia encontrada para reduzir o gasto. “O custo está proibitivo. O futebol é de origem pobre, e o cara que tem 10 mil reais no bolso para fazer um álbum não representa a maioria”, desabafa o veterano.
Essa percepção de perda da essência popular é compartilhada por André Luiz Soares de Arruda, 44 anos, que coleciona desde a Copa de 1990. O fisioterapeuta e vice-prefeito de Cesário Lange (SP) pertence à geração que viu a transição das figurinhas de papel comum para as autocolantes e brilhantes, iniciada em 1998.

André lembra que o acesso era tão fácil que as figurinhas eram usadas em brincadeiras de rua sem preocupação com gastos. Para ele, embora a qualidade do produto tenha subido, o preço atual criou uma barreira de exclusão. “Hoje, completar o álbum virou um luxo. A gente se sacrifica por algo que tem valor emocional, mas não deveria ser tão difícil chegar a um meio-termo entre qualidade e preço acessível”.
‘Figurinha para Todos’
O projeto social ‘Figurinha para Todos’ foi criado em setembro de 2022, em São Paulo (SP), por Felipe Len e Allan Gora Cohen, hoje estudantes de Comunicação e Publicidade e Administração. A iniciativa nasceu como um projeto escolar com o objetivo de coletar e doar álbuns e figurinhas para crianças em situação de vulnerabilidade que não possuem recursos para arcar com o custo da coleção.

Na última edição, o projeto arrecadou 157 mil figurinhas e 650 álbuns para 12 instituições que incluem hospitais infantis, escolas públicas e abrigos. Para 2026, o desafio é ainda maior devido à alta dos preços, mas os organizadores veem o custo proibitivo como um combustível para a doação. “As pessoas veem essa necessidade justamente pelo aumento do preço”, aponta Allan.
Os idealizadores afirmam que o objetivo não é o preenchimento total de cada álbum, mas sim promover pertencimento e interação. Por isso, na montagem dos kits, que em 2026 devem conter o álbum e cerca de 350 figurinhas, a prioridade é garantir que as crianças possam participar da cultura de troca. “Vimos que para as crianças era muito mais sobre colecionar, brincar, trocar figurinhas entre elas e bater bafo do que o fato de realmente completar o álbum”, destaca Felipe Len.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Murilo Sacardi















