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Campinas usa tecnologia para ampliar proteção de mulheres em risco

Ferramentas digitais, como o Botão SOS Gama, o Botão Bela e o Abrigo Amigo integram a rede municipal de segurança

Por Lara Gallo e Raquel Piveta

Campinas conta com um conjunto de ferramentas tecnológicas para reforçar o enfrentamento à violência contra a mulher. Aplicativos de emergência, totens com videochamada e botões de denúncia integram a rede municipal de segurança e buscam oferecer respostas mais rápidas e acessíveis a situações de risco. 

A iniciativa ganha relevância em um cenário nacional preocupante: o Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado no país. Foram 1.568 mulheres assassinadas por razões de gênero, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a tipificação do feminicídio no Código Penal, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no Brasil por sua condição de ser mulher.

O contexto local reflete a dimensão desse problema. Segundo dados da Guarda Municipal de Campinas, as ocorrências iniciadas como denúncia de violência doméstica e atendidas exclusivamente pela corporação somaram 438 registros em 2023, 359 em 2024 e 432 em 2025, uma oscilação que não necessariamente representa uma redução real da violência, mas pode refletir variações na subnotificação ou nos fluxos de atendimento entre diferentes órgãos. 

Daniela Rossan, inspetora do Programa Guarda Amiga da Mulher, afirma que os tipos de violência que aparecem com mais frequência nos atendimentos realizados pela Guarda são referentes à violência doméstica, e recomenda o que a vítima deve fazer nesses casos. “Os casos que mais envolvem violência doméstica são de descumprimento de medida protetiva, agressão, que pode ser tanto física ou psicológica e ameaças. Em qualquer uma dessas situações, a vítima pode acionar o telefone 153, disponível 24 horas, para solicitar atendimento da Guarda Municipal. Importante destacar também que as mulheres que vivem um ciclo de violência devem procurar ajuda na Rede de Atendimento da Prefeitura de Campinas. A GM disponibiliza, na Base Centro, a Sala Lilás do Programa Guarda Amiga da Mulher, onde uma equipe especializada vai receber a vítima de violência doméstica para acolhimento e encaminhamento aos serviços municipais”, ressalta.

Nacionalmente, a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado revelou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025, um dado que evidencia a escala do fenômeno e a necessidade de respostas estruturadas em múltiplas frentes.

Entre os recursos tecnológicos em operação em Campinas está o Botão SOS Gama, aplicativo voltado às participantes do programa GAMA (sigla para Guarda Amiga da Mulher), destinado a mulheres que possuem medida protetiva de urgência. Ativo desde março de 2024, o sistema permite que a usuária acione a Guarda Municipal de forma imediata, caso o agressor se aproxime. 

“Assim que o Botão é acionado, um alarme dispara na Central de Comando e Controle (Cecom) da Guarda Municipal e a viatura que estiver mais próxima ao local de acionamento é encaminhada para atender a ocorrência. O dispositivo conta com tecnologia de georreferenciamento, que compartilha a localização em tempo real da vítima com o Cecom. Isso permite que a mulher utilize a ferramenta em qualquer lugar que ela estiver, não somente em sua residência”, explica Daniela.

Segundo a Guarda Municipal, o aplicativo já registrou 226 acionamentos, o que resultou na prisão de 27 pessoas por descumprimento de medida protetiva. Atualmente, o programa atende 210 mulheres cadastradas. A relevância da ferramenta fica evidente quando se observa que, em 2024, mais de 555 mil medidas protetivas de urgência foram concedidas no Brasil, das quais 18,32% foram descumpridas pelos agressores.

No transporte público, a proteção às mulheres ganha forma pelo Botão Bela (Botão de Emergência na Luta contra o Assédio). Disponível no aplicativo da Emdec, Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas, o recurso foi criado em agosto de 2021 e permite que passageiras denunciem casos de assédio ou importunação sexual dentro dos ônibus. Ao acionar o botão, a usuária visualiza as linhas que circulam na região, seleciona aquela em que está e envia a solicitação. A chamada é recebida pela Central de Operações da Guarda Municipal, que passa a monitorar o itinerário da linha e a localização da vítima em tempo real, possibilitando a abordagem dentro do veículo, de acordo com os protocolos definidos para esse tipo de ocorrência. 

A iniciativa responde a uma lacuna identificada em nível nacional: em 76,6% dos registros de violências doméstica, sexual e outras formas de agressão contra mulheres, o agressor é do sexo masculino, e a residência concentra 71,6% das notificações, reforçando a importância de estender os mecanismos de proteção também para os espaços públicos e de circulação cotidiana.

Para quem circula pelas ruas da cidade à noite, o programa Abrigo Amigo representa uma camada adicional de segurança. Lançado em setembro de 2023 e com foco especial no público feminino, o serviço funciona das 20h às 5h em 50 pontos de ônibus distribuídos pelo Centro e bairros de Campinas. Em cada ponto, um totem permite a realização de videochamadas conectadas a uma central de atendimento formada exclusivamente por mulheres, treinadas para oferecer companhia, acolhimento e monitoramento do entorno em tempo real. Desde o lançamento do programa até meados de maio de 2026, o dispositivo foi acionado mais de 3,6 mil vezes. Apenas no primeiro quadrimestre de 2025, os registros somaram 986 acionamentos, uma média de mais de oito chamadas por dia.

Para a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Alessandra Herrmann, o conjunto de ações reflete um compromisso da gestão com a proteção integral das mulheres campineiras. “Nosso compromisso é garantir que as mulheres tenham acesso a mecanismos de segurança, apoio e autonomia, seja dentro do transporte público, nos espaços urbanos ou em suas próprias casas”, afirma a secretária. 

A autonomia é um dos principais pontos ressaltados, tanto pelas autoridades quanto por vítimas. “É de extrema importância que a gente tenha ferramentas de fácil acesso como essas. Isso faz com que a gente se sinta mais segura dentro e fora de casa, sabendo que, com qualquer importunação, conseguimos chamar por ajuda de forma rápida, com a urgência que esses casos merecem. Só quem já passou por algum abuso sabe como essa agilidade é importante”, reflete vítima que preferiu não se identificar.

Para a inspetora Daniela, a plataforma é um dos principais meios para um atendimento ágil e eficaz, “a ferramenta proporciona muito mais agilidade no atendimento da ocorrência, uma vez que basta somente o acionamento do Botão para que seja enviada uma viatura da GM ao local, com atendimento rápido. Além disso, o fato da mulher poder manter contato com a GM por meio do chat acrescenta segurança à assistida enquanto a viatura está a caminho”, afirma.

Projetos futuros

Além das ferramentas já em operação, a Prefeitura de Campinas anunciou, em janeiro de 2026, a abertura de um chamamento público para empresas de tecnologia interessadas em desenvolver, por meio de sandbox regulatório, soluções voltadas à identificação de situações de risco e à prevenção da violência contra a mulher. O sandbox regulatório funciona como um ambiente controlado que permite à administração pública testar inovações com segurança jurídica, antes de uma eventual contratação ou implementação em larga escala. 

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, responsável pelo projeto, a Prefeitura está atualmente em fase de estudos e tratativas com empresas interessadas em contribuir com o desenvolvimento da solução. Para a secretária Alessandra, a busca por inovação e novas parcerias é contínua, “cada ferramenta implantada representa mais cuidado, proteção e presença do poder público na vida das mulheres campineiras”, destaca.

A Guarda Municipal vem investindo constantemente na luta para o combate da violência contra a mulher, de acordo com Daniela. “Estamos investindo em capacitação das equipes, fortalecimento do programa, divulgação de ações de prevenção junto à comunidade, com palestras orientativas em escolas, empresas e órgãos públicos para conscientização de mulheres da importância de denunciar e interromper o ciclo de violência contra a mulher”, enfatiza.

O uso da tecnologia também tem sido um aliado importante nessa luta, como afirma a inspetora, “tanto na rapidez do atendimento quanto no suporte às ações preventivas e no acompanhamento das ocorrências. O objetivo é garantir uma atuação cada vez eficiente e próxima da população. A gestão do Programa GAMA conta ainda com registro digital das assistidas, controle das visitas preventivas, fiscalização e acompanhamento contínuo dos casos com uso de tablets e WhatsApp”, relata Daniela. 

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