Projeto Sollar Rio Negro capacita moradores locais para instalar e gerir tecnologia fotovoltaica adaptada à realidade local
Por Clara Dejean, Lara Gallo e Raquel Piveta
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No Alto Rio Negro, região que abriga mais de 20 etnias e está situada a 852 quilômetros de Manaus, comunidades indígenas acumulam há décadas uma experiência incômoda, receber tecnologias que chegam prontas, sem formação técnica, sem manutenção e, sobretudo, sem a participação das pessoas que deveriam se beneficiar delas. O resultado, repetido em diferentes projetos ao longo dos anos, é sempre o mesmo: equipamentos abandonados, recursos desperdiçados e um problema ambiental que ninguém esperava e todos precisam enfrentar.
O pesquisador Nalberth Arcano, indígena rio-negrino e estudante de História na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), descreve com precisão o ciclo vicioso que se instala quando o poder público ou organizações externas chegam aos territórios com soluções pré-concebidas. Segundo ele, as comunidades aceitam as tecnologias por não terem sido formadas para compreendê-las, e, sem saber como operá-las, acabam descartando os equipamentos com o tempo. “O que era para ser uma solução, do ponto de vista do Estado, acaba sendo um desperdício de recursos e se transforma em lixo eletrônico dentro das comunidades indígenas”, explica Arcano.
Esse padrão revela uma questão sobre quem decide quais tecnologias chegam às comunidades. Em geral, os projetos são formulados longe dos territórios afetados, por técnicos, gestores e formuladores de políticas públicas que raramente conhecem de perto as especificidades culturais, geográficas e econômicas de cada etnia. A ausência de consulta prévia, garantida pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Constituição Federal de 1988, não é apenas uma violação de direitos, é também a principal razão pela qual tantas iniciativas falham antes mesmo de completar um ciclo de uso.
A Amazônia concentra, atualmente, algumas das maiores contradições do desenvolvimento brasileiro. Região com imensa riqueza natural, cultural e biodiversidade, o Rio Negro ainda convive com déficits históricos de infraestrutura básica. O acesso à energia elétrica confiável segue como um desafio para centenas de comunidades, e os projetos que tentaram resolver esse problema por vias tradicionais deixaram, em muitos casos, um rastro de equipamentos enferrujados e promessas não cumpridas. É nesse contexto que surge uma proposta diferente.

Infográfico: Isabela Rosa
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Da dependência à autonomia
Arlindo Baré chegou à Unicamp em 2019, após ser um dos selecionados no primeiro vestibular indígena realizado na universidade, em 2018. Nascido no território indígena Cué-Cué Marabitanas, localizado no município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, ele carrega uma trajetória que atravessa fronteiras. Baré perdeu os pais ainda criança e foi criado pelo avô, pajé e curandeiro de sua comunidade. A impossibilidade da medicina tradicional tratar a malária (doença que, nas palavras do próprio avô, “era do homem branco”) plantou em Arlindo uma inquietação que o levaria décadas depois a propor uma iniciativa inovadora de transição energética em territórios indígenas no Brasil.
Depois de oito anos no Exército e sete em Manaus, Baré chegou à universidade com um projeto claro na cabeça, mas encontrou pela frente um ambiente que, segundo ele, não entendia basicamente nada sobre o contexto indígena. A dificuldade em encontrar professores orientadores dispostos a compreender sua ideia somou-se ao desafio logístico de implementar um laboratório fotovoltaico em uma das regiões mais remotas do país.
Mesmo assim, em 2022, a iniciativa se materializou. A partir da iniciação científica de Baré, o trabalho se desdobrou e foi certificado na Bolsa de Assistência Social da Unicamp, integrando doze estudantes indígenas de cinco etnias distintas. Nomeado de “Projeto Sollar Rio Negro”, está vinculado ao Centro Paulista de Estudos da Transição Energética – CPTEn, que reúne ações de educação, formação e capacitação voltadas à sustentabilidade socioambiental, sob coordenação da Professora Doutora Danúsia Arantes, da Faculdade Engenharia Elétrica e Computação.
A Unicamp mantém o programa Campus Sustentável, voltado para iniciativas de educação e pesquisa em sustentabilidade socioambiental. É dentro desse programa que o Projeto Sollar Rio Negro está inserido e foi a partir dele que nasceu o Centro de Aprendizagem Indígena do Rio Negro, a parte prática da iniciativa. O Centro instalou seu primeiro laboratório com 12 sistemas fotovoltaicos, tornando-se um dos mais completos do Brasil na área e capacitando 41 indígenas no primeiro ano de funcionamento. “A proposta de autonomia energética passa pela consulta, pela construção coletiva e pela formação das comunidades para gerir as tecnologias”, afirma Arlindo Baré.
Para Felipe Ribas, engenheiro eletricista especialista em eficiência energética, a aposta na formação técnica local responde a um problema real. Em regiões remotas, falhas no inversor ou nos painéis exigem mão de obra especializada que raramente está disponível. “A manutenção e o suporte técnico nessas áreas pode ser um desafio”, observa. Por isso, formar os próprios moradores para operar e reparar os sistemas não é apenas uma escolha, é uma necessidade técnica.
O que diferencia o Projeto Sollar Rio Negro de iniciativas anteriores é exatamente o ponto onde a maioria falhou: o conhecimento técnico dos moradores para manter a proposta ativa. Em vez de entregar painéis solares e deixar as comunidades à própria sorte, o projeto oferece cursos de introdução à instalação e ao dimensionamento de módulos fotovoltaicos, com atenção às especificidades de cada etnia e de cada calha de rio. O objetivo é transformar os indígenas em planejadores, operadores e gestores dos próprios sistemas, e não mantê-los apenas como consumidores de tecnologias.

A capacitação técnica é o diferencial do Projeto Sollar e durante a formação prática, cursistas indígenas e instrutores instalam painéis fotovoltaicos no Alto Rio Negro (AM). (Foto: acervo pessoal)
Nalberth Arcano também integra o Projeto Sollar Rio Negro como pesquisador de iniciação científica financiada pela FAPESP, na área de interdisciplinaridade e engenharia elétrica, e descreve a iniciativa como uma ruptura no padrão. O que antes era domínio exclusivo da antropologia e da etnologia passa a dialogar com engenharias e tecnologias renováveis. “É quebrar paradigmas de que o indígena não é um sujeito preso no passado e na floresta. Muito pelo contrário, é um indivíduo que busca, através dos estudos e pesquisas científicas, alternativas tecnológicas contemporâneas para pensar um futuro que não agrida seu ecossistema”, diz Arcano.
O Centro de Aprendizagem Indígena já realizou duas formações, com cerca de 50 cursistas indígenas da região de São Gabriel da Cachoeira (AM). A proposta respeita os protocolos de consulta prévia já estabelecidos pelas organizações indígenas locais e dialoga diretamente com os planos de gestão territorial de cada comunidade. Para Baré, esse envolvimento não é apenas uma exigência ética, é o caminho para garantir sustentabilidade. “Esse envolvimento das comunidades indígenas são os fatores que a gente está levando em consideração para poder garantir a durabilidade, a consolidação e posteriormente a gestão socioambiental”, afirma.
O projeto também propõe um diálogo que raramente acontece, entre o conhecimento científico sistemático e os saberes tradicionais indígenas. Para Baré, essas duas epistemologias não são opostas, mas complementares. “A gente traz a ideia de diálogo das ciências exatamente para unir a tecnologia contemporânea com as tecnologias que existem a partir do conhecimento da ciência dos povos indígenas”, explica. O resultado esperado é de um sistema que não apenas funcione, mas que faça sentido dentro das formas de viver, das concepções de mundo e dos princípios que guiam a relação dos povos indígenas com seus territórios.
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Empreender sem destruir
A energia elétrica não é o objetivo final do Projeto Sollar Rio Negro, é a porta de entrada para uma transformação mais ampla. Quando uma comunidade passa a ter acesso estável à eletricidade, abre-se um conjunto de possibilidades que vai da educação à comunicação, da preservação cultural à geração de renda. É nessa cadeia de consequências que o projeto encontra sua dimensão mais ambiciosa, a construção de um modelo de empreendedorismo que não exige abrir mão da floresta para prosperar.
Arlindo Baré utiliza o conceito de etnobioeconomia para descrever essa alternativa. Diferente do desenvolvimento convencional, cuja etimologia, segundo ele, não os contempla, a etnobioeconomia parte do respeito à diversidade cultural e aos modos de vida dos povos indígenas para construir caminhos econômicos sustentáveis. Não se trata de adaptar modelos externos à realidade indígena, mas de criar modelos a partir dela. A produção da farinha de mandioca, as biojoias artesanais, o escoamento e a venda direta de produtos, podem ganhar escala e mercado quando há energia e conectividade disponíveis no território.
O advento de técnicas de inovação como a internet via satélite, por exemplo, já transformou a dinâmica de comunicação dentro e fora das terras indígenas do Rio Negro. Arcano observa que a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) busca realizar essa transição digital em um território maior do que Portugal, com recursos limitados e sem formação técnica suficiente para a gestão do empreendedorismo. O desafio é real, e a solução, apontam os pesquisadores, passa pela mesma lógica do projeto Sollar, formação, consulta e protagonismo das próprias comunidades.

O Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), é a paisagem que o projeto busca preservar por meio da transição energética sustentável. (Foto: acervo pessoal)
O engenheiro Felipe Ribas aponta que comunidades ribeirinhas e rurais representam exatamente o contexto onde a energia fotovoltaica tem maior potencial transformador. “Grandes usinas hidrelétricas fazem distribuição, mas normalmente estão longe do local de consumo. Para comunidades mais afastadas, às vezes, é inviável o custo de instalar toda uma rede de distribuição”, esclarece.
O acesso à energia também abre caminhos para a preservação do patrimônio imaterial. Com eletricidade e internet, é possível criar bancos de dados de línguas indígenas, cantos sagrados e conhecimentos medicinais, um trabalho necessário diante da ameaça de perda de referências culturais enfrentadas pelas novas gerações. “Criar um banco de dados a partir do acesso às tecnologias também é importante para o fortalecimento cultural, tradicional e científico dos povos indígenas”, afirma Baré.
O Projeto Sollar Rio Negro foi reconhecido pelo 13º Prêmio Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil, consagrando-se vencedor entre iniciativas de todo o país. Para Baré, o reconhecimento é menos uma conquista pessoal e mais a validação de um caminho coletivo, formado pelas lutas sociais que garantiram o acesso de indígenas às universidades, pelas parcerias que viabilizaram a logística em uma região onde os custos triplicam e pelo trabalho das organizações indígenas que respeitaram e apoiaram os protocolos comunitários. “Os povos indígenas não estão buscando repetir modelos de desenvolvimento. Estão construindo alternativas que dialoguem com seus territórios, suas culturas e suas formas de viver”, destaca.
Tanto Baré quanto Arcano apontam para uma dívida histórica do Brasil com suas populações originárias. O escritor Daniel Munduruku caracterizou o país como uma “nação adolescente em busca de identidade” e essa identidade, argumenta Arcano, passa inevitavelmente pelo reconhecimento da herança indígena. “O convite para conhecer os povos indígenas não é para conhecer povos isolados ou exóticos, é olhar para o outro como um espelho de si mesmo”, diz o pesquisador.
Talvez o principal desafio da transição energética na Amazônia não seja técnico. Seja, antes de tudo, um desafio de perspectiva, que pare de levar soluções prontas para os territórios e comece a construí-las junto com as populações que neles vivem. O Projeto Sollar Rio Negro demonstra, com resultados concretos, que esse caminho é possível. E que uma transição energética justa, feita não para os povos indígenas, mas com os povos indígenas, é mais eficiente, durável e alinhada com o futuro que o planeta precisa construir diante às crises e condições climáticas.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Raquel Piveta

