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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Agricultores familiares de Campinas enfrentam invisibilidade e pressão do mercado

Produtores locais buscam alternativas para manter a produção e chegar ao consumidor, enquanto mais de 6 mil famílias vivem sob risco de insegurança alimentar grave

Por Bruna Azevedo

Victória Vasconcelos, de 28 anos, participa das feiras orgânicas de Campinas com a família desde 2002. A família decidiu plantar depois que o pai adoeceu em decorrência de burnout. A produção fica em Amparo, a cerca de 60 quilômetros de Campinas, mas a venda ocorre toda quarta-feira no Bosque dos Jequitibás. Victória conta que sempre participou das vendas e da produção familiar. Ela reconhece que tem uma clientela fiel, mas o movimento é irregular. Depois da pandemia de covid-19, as feiras perderam frequentadores, e Victória passou a complementar as vendas com entregas em domicílio ao lado do pai.

José Victor Betancur também trabalha com a produção de verduras e legumes em Campinas há doze anos. O agricultor trabalha sozinho e afirma que manter a qualidade, a higiene e a produtividade representa um desafio, especialmente quando precisa agir com rapidez. “É importante dizer que eu trabalho com produção orgânica. As doenças das plantas são mais difíceis de controlar, e a produção é mais lenta, no ritmo natural da cultura.”

Betancur vende seus produtos em feiras e para uma rede de alimentos orgânicos da cidade. A renda dele vem da aposentadoria e da produção de hortaliças. Ele precisa lucrar cerca de R$ 4.000 por mês para manter a plantação. Segundo ele, para vender ou fazer parcerias com projetos públicos da prefeitura, seria preciso contratar mão de obra, que custa caro e é difícil de encontrar.

A trajetória de Victória e Betancur ilustra uma tensão que Campinas ainda não resolveu. Produzir alimentos perto de quem precisa deles é mais difícil e mais caro do que trazer de fora o produto industrializado, e as políticas públicas ainda não equilibraram essa equação. A Ceasa Campinas, que reúne as centrais de abastecimento do município, movimenta em média 54 mil toneladas de frutas, verduras e legumes por mês. Ela abastece mais de 500 municípios com produtos vindos de 700 localidades, inclusive do exterior. Dentro desse volume, a produção familiar local ocupa uma fatia pequena e invisível para a política pública. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, o mais recente realizado pelo IBGE, Campinas contava com apenas 582 estabelecimentos agropecuários, dos quais 309 eram de agricultura familiar. Para Mariana Maia, coordenadora do Programa Campinas Solidária e Sustentável, esse número revela uma área rural reduzida. Segundo ela, o município se urbanizou de tal forma que a produção local de alimentos naturais encolheu.

Feira do Bosque dos Jequitibás acontece toda quarta-feira, com opções orgânicas e diversas (Foto: Bruna Azevedo)

Vanilde Ferreira de Souza-Esquerdo, professora da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, afirmou que os agricultores familiares enfrentam uma invisibilidade histórica no Brasil. Segundo ela, a horticultura dos pequenos produtores de Campinas, como Victória e Betancur, tem grande relevância, ainda que não seja reconhecida, porque contribui para o abastecimento de um centro urbano inteiro.

A pesquisadora também indicou a necessidade de políticas públicas mais efetivas para que a agricultura familiar seja valorizada e funcione como ferramenta de redução da insegurança alimentar. Vanilde afirmou que a política pública deve envolver assistência técnica e extensão rural, capazes de auxiliar diretamente o trabalho do produtor.

Mariana citou dados do programa Alimenta Cidades, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Segundo esses dados, 83% dos brasileiros em insegurança alimentar grave residem nas cidades, o que totaliza 27,4 milhões de pessoas. Para dimensionar o problema localmente, ela recorreu ao Indicador de Risco de Insegurança Alimentar Grave Municipal (CadInsan), do mesmo ministério. Em janeiro de 2024, 6.218 famílias cadastradas no Cadastro Único em Campinas estavam em risco de insegurança alimentar grave, o equivalente a 9,72% das famílias com dados atualizados.

“Campinas é um município que não tem muitos agricultores familiares. A gente tem uma rede de urbanização mais estendida, com uma área rural reduzida. Mas, em contrapartida, vemos o fortalecimento da agricultura urbana e periurbana, que traz a produção de alimentos para perto da população e aproxima essa produção de áreas periféricas e com pouco acesso a alimentos naturais”, afirmou a coordenadora do Programa Campinas Solidária e Sustentável.

Mariana explicou que um sistema agroalimentar sustentável é importante para a cidade. Segundo ela, essa proposta reduz a vulnerabilidade nutricional. Nesse tipo de sistema, há garantia de acesso a alimentos nutritivos sem comprometimento das bases econômicas, sociais e ambientais.

Vanilde associou diretamente a agricultura familiar à segurança alimentar. Segundo ela, as políticas públicas direcionadas aos pequenos produtores poderiam ser utilizadas de forma mais estratégica. Essas políticas poderiam fortalecer tanto a agricultura familiar quanto a segurança alimentar em um determinado local.

“Vamos pensar que essa família de pequenos produtores vai plantar algum tipo de alimento em sua propriedade. Mesmo que isso ocorra em uma área pequena, aquela quantidade mínima de alimento já garante segurança alimentar dentro da própria família”, disse a pesquisadora.

Orientação: Artur Araújo
Edição: Nicole Gonçalves