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Perfumes naturais movimentam cadeia agrícola, industrial e tecnológica na RMC

Indústria de fragrâncias encontra na região matérias primas normalmente exportadas para o mercado internacional

Por: Clara Dejean e Laura Godoy

Por trás da indústria do perfume existe uma cadeia de produção invisível para o consumidor. Matérias-primas vegetais, óleos essenciais, extratos naturais e compostos aromáticos atravessam uma sucessão de etapas agrícolas, técnicas e industriais antes de chegarem aos laboratórios de fragrâncias, à cosmética ou à aromaterapia. Na Região Metropolitana de Campinas, essa atividade se consolidou progressivamente em torno de um ecossistema que reúne produtores de matérias-primas, indústria química, laboratórios e empresas de fragrâncias e tornou-se um dos principais centros técnicos do país na transformação de matérias naturais destinadas ao mercado nacional e internacional.

Essa indústria se apoia em uma matéria-prima da própria natureza e ao contrário das moléculas sintéticas, que são produzidas industrialmente segundo parâmetros fixos, as matérias naturais estão em constante variação. Lucas Gerbi, produtor de matérias-primas naturais na Legeé Aromas, avalia que clima, temperatura, solo, genética vegetal, período de colheita ou método de extração podem modificar a composição química de um óleo essencial e influenciar diretamente em seu aroma. 

Para as empresas instaladas na região, essa variabilidade representa um dos principais desafios técnicos de toda a cadeia de produção.  Segundo ele, a qualidade do produto final depende, antes de tudo, da capacidade de controlar a matéria viva desde a sua origem. “O ponto mais sensível está na produção vegetal no campo. Ter plantas padronizadas, com genética conhecida, ajuda a produzir sempre o mesmo padrão de matéria-prima. Isso é muito importante para a perfumaria, porque os ativos naturais têm variação e isso impacta bastante no aroma final de cada formulação. Então ter plantas saudáveis no campo, com a mesma padronização genética, ajuda bastante para termos um bom insumo para a perfumaria.”

Essa dependência da agricultura explica por que as matérias-primas naturais ocupam um lugar estratégico na economia regional. No Estado de São Paulo, os citros constituem um dos exemplos mais visíveis dessa lógica industrial. Uma parte importante das laranjas produzidas na região é destinada à indústria do suco. Depois da transformação, as cascas se tornam uma fonte importante de óleos essenciais utilizados na perfumaria, nos aromas alimentícios, nos produtos de limpeza, na cosmética e na aromaterapia. Para Gerbi, essa transformação modificou profundamente a lógica econômica do setor agrícola e industrial.

Essa valorização dos derivados agrícolas ajuda a compreender porque a região de Campinas se consolidou progressivamente como um centro estratégico de transformação de matérias-primas aromáticas. A proximidade entre produção agrícola, infraestruturas logísticas, indústria química e empresas de fragrâncias criou um ambiente favorável ao desenvolvimento do setor.

Em 2024, o Brasil exportou mais de 58 milhões de quilos de óleo essencial de laranja, por um valor próximo de 419 milhões de dólares, segundo dados do World Integrated Trade Solution (WITS).

GRÁFICO: Informações fornecidas pelo World Integrated Trade Solution

Porém, a importância econômica não elimina a complexidade técnica das matérias naturais. Cada variação climática pode influenciar o resultado final. Uma safra mais seca, uma mudança de temperatura ou uma variação no momento da colheita podem modificar a composição química de um óleo essencial.

Para Solange Schumann Magalhães, fundadora da Botânica Mantiqueira, especializada em perfumaria botânica e matérias naturais, essa instabilidade não é apenas um problema a ser corrigido. Ela constitui também parte da identidade do natural. “A variação é a assinatura da natureza”, explica.

Segundo ela, a diferença entre duas colheitas ou dois lotes não deve ser automaticamente interpretada como defeito. Mas a variação se torna problemática quando modifica de forma muito intensa a estrutura olfativa de um perfume ou compromete sua estabilidade. “O segredo está em fornecedores sérios e no controle de qualidade”, afirma.

Uma tensão entre matéria-prima e exigência de regularidade atravessa hoje toda a indústria. De um lado, o mercado mundial de óleos essenciais continua crescendo rapidamente, impulsionado pela cosmética natural, pelo bem-estar e pelos produtos chamados clean. De outro, as empresas precisam garantir estabilidade, segurança e padronização para responder às exigências do mercado nacional e internacional.

Natureza em produto industrial

Se a qualidade de uma matéria-prima começa no campo, sua comercialização depende em seguida da capacidade de estabilizar uma matéria naturalmente instável. Porque, na indústria das fragrâncias, é preciso garantir que ele mantenha o mesmo comportamento olfativo de um lote para outro, apesar das variações agrícolas, climáticas e biológicas.

É nessa etapa que a região de Campinas se consolidou progressivamente como um centro técnico importante na cadeia das matérias-primas aromáticas. Entre laboratórios, indústria química e empresas especializadas, a região concentra parte do trabalho de controle, análise e padronização necessário à comercialização nacional e internacional dos ingredientes naturais.

Para Eduardo Mattoso, fundador e diretor-geral da casa de fragrâncias e produção Kaapi Fragrâncias, essa padronização tornou-se indispensável para responder às exigências do mercado. Segundo ele, o trabalho das empresas consiste muitas vezes em reduzir as variações naturais para garantir uma estabilidade sensorial e química compatível com as formulações industriais.“Padronizar é, muitas vezes, misturar diferentes lotes para atingir um equilíbrio”, explica. 

A padronização da matéria-prima é uma tarefa difícil para a perfumaria natural, devido à remessas colhidas de diferentes produções (Foto: Clara Dejean)

O desenvolvimento das regulamentações internacionais reforçou essa exigência de controle. Os padrões da International Fragrance Association (IFRA), organização que estabelece recomendações mundiais para a indústria das fragrâncias, influenciam hoje diretamente produtores e transformadores brasileiros. As empresas precisam adaptar suas matérias-primas a limites de concentração, toxicologia e alérgenos cada vez mais rigorosos.

A União Europeia também reforçou nos últimos anos as regras relativas aos alérgenos presentes em perfumes e cosméticos, obrigando empresas exportadoras a multiplicarem análises e controles de conformidade. Para Mattoso, essa pressão regulatória modifica profundamente o funcionamento da indústria das matérias-primas naturais. “Hoje existe uma necessidade muito maior de rastreabilidade e controle”, explica. “As empresas precisam saber exatamente de onde vem cada lote, como foi produzido e quais moléculas estão presentes.” 

Nesse contexto, a proximidade entre agricultura, indústria e laboratórios torna-se uma vantagem econômica importante. Esta favorece a circulação de conhecimentos técnicos entre produtores, empresas e laboratórios. Na região, as matérias-primas naturais não são apenas extraídas ou comercializadas: elas são continuamente reformuladas, analisadas e adaptadas às necessidades do mercado.

Entretanto, essa valorização das matérias naturais também cria uma contradição permanente, já que quanto mais o mercado demanda o natural, mais a indústria precisa intervir tecnicamente para tornar essa natureza estável, previsível e compatível com as exigências industriais contemporâneas.

Mercado estratégico

Durante muito tempo, as matérias-primas naturais ocuparam um espaço reduzido na indústria das fragrâncias. Óleos essenciais e extratos vegetais eram frequentemente associados a mercados de nicho, ao artesanato ou à aromaterapia. Mas essa lógica evolui rapidamente, visto que, nos últimos anos, o crescimento do setor de bem-estar, da cosmética natural e dos produtos chamados “clean” modificou profundamente o valor econômico dessas matérias-primas.

Para produtores e empresas instalados na região de Campinas, essa evolução modificou diretamente a dinâmica do setor. Segundo Lucas Gerbi, o aumento da demanda permitiu ampliar a produção e reforçar investimentos no desenvolvimento de novos produtos.“Com o aumento da demanda, conseguimos aumentar a produção e diluir custos. Isso faz o setor se desenvolver. Tendo mais receita, conseguimos desenvolver novos produtos e aumentar a escala”, afirmou.

O mercado brasileiro de fragrâncias e aromas representa hoje vários bilhões de dólares e continua crescendo, impulsionado principalmente pela expansão dos produtos naturais e dos segmentos ligados ao bem-estar. Mas essa ascensão do natural também revela outro limite do mercado brasileiro: a dificuldade de transformar suas próprias matérias-primas em objetos de valor simbólico e cultural.

Apesar de sua biodiversidade, de sua capacidade agrícola e da importância de sua indústria aromática, o Brasil ainda permanece fortemente dependente das referências europeias no universo do perfume e do luxo. Algumas matérias-primas produzidas ou transformadas localmente circulam por cadeias internacionais de comercialização antes de retornarem ao mercado brasileiro associadas a uma identidade estrangeira.

No setor, vários profissionais mencionam, por exemplo, o caso de certos óleos essenciais cítricos exportados e depois revendidos sob uma identidade mais associada à perfumaria europeia do que à sua origem brasileira. Para Solange Schumann Magalhães, essa questão ultrapassa a simples lógica industrial. Segundo ela, o Brasil já possui a biodiversidade, a técnica e as matérias-primas necessárias para desenvolver uma identidade forte na perfumaria natural. O que ainda falta seria, sobretudo, uma valorização cultural e econômica dessa produção.

Ela também destaca os limites regulatórios enfrentados pelos pequenos produtores artesanais. “Falta incentivo governamental e uma revisão profunda das barreiras regulamentares”, explica. Segundo ela, as pequenas estruturas ainda são submetidas a exigências comparáveis às impostas às grandes indústrias químicas, o que freia o desenvolvimento do setor. Mas, para ela, o principal desafio continua sendo cultural. “O Brasil precisa aprender a valorizar sua própria grife”, afirma. “Ainda existe uma mentalidade de que o perfume luxuoso deve vir de fora, enquanto o nosso insumo é visto apenas como ingrediente bruto.”

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Gabriel Rosa

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